Fora quando o sol ocidental ensaiava o mergulho no limiar do horizonte, fora quando os pássaros, a ecos se despediam da luz daquela tarde, fora quando o aroma subia e a leve brisa baixava, anunciando o breve irromper da noite, que o sodalício seguiu seu itinerário para as terras do sul.
Cavalgavam em silêncio, sobre os seguintes cavalos: das terras do leste, Malak tomou Mélek, o rubro de crinas longas - daí canta-se o ditado pelos amigos do referido: "Malak sobre Mélek? Cavaleiro e cavalo contra Malakat!" - Farkas tomou Hárit, o gris de crinas curtas e eriçadas, sobre este cavalo reza a lenda que lançou a terra os portões de um forte inimigo com a fronte de seu peito, como um aríete - de onde vem origem de seu nome pela língua antiga - devido ser cavalo de guerra de alguns demônios, tinham-lhe cerrado as orelhas, Farkas o tomou por despojo quando lutou e venceu esses. Lydia tomou sua montaria das terras do oeste, Rufilos, o pardo, suas crinas eram brancas, este correu ao lado dos elfos em tempos remotos, uma disposição curiosa era incorrida com este, percebia-se que conhecia tanto quem o montava, que quando Lydia entesava o arco estando sobre ele, o animal trocava a passada de tal modo que não desestabilizava nem influía sobre atiradora, corria veloz, mas a quem montava parecia estar fixo e era a terra quem demonstrava-se correr sob seus cascos. Leonadair, estava sobre Arag, o branco, o fiel, tido como o cavalo mais intrépido que a natureza já concebeu, muitos dizem que assim se tornou dado a inspiração que auferia naquele que o montava - como diz o ditado: "Assim é o cavalo como o cavaleiro". E por fim Nyah, vinha montada sobre Vulfrich, o negro de crinas e rabo trançado, se há algo sobre cavalos que deve ser dito, é que todos trazem consigo uma impressão que apresenta-se adiante sobre quem os contempla, e este em particular possuía uma áurea acompanhante que provinha-se de um outro plano da realidade, era presente mas não compreendida pelos sentidos - de fato, algo espectral - imprimia brutal terror em seus olhos, e não havia ser bruto sobre a terra e sob o céu que o fitasse sem medo.
O céu estampava o manto negro quando atravessavam o Liek Niktus. Desta feita, apearam das montarias, já sob as copas de Skogur Kliringo, e ali arremataram o plano, discutiam as possibilidades, sopesando o melhor feitio. Se margeassem Vuds Lykainen, encurtariam tempo de busca, porém, sob o risco de encontrarem-se desprovidos de recursos, uma vez, que aquela banda ocidental - e isto era sabido por testemunho dos marinheiros de outrora, que ali não continha nada, e se algo havia de toda sorte, só seria aquilo de mesma natureza dos penedos como um implexo sobre o solo rochoso de pedras, pedregulhos, pedrelhos, penedias, penhascos, rochas, lapas, litíases e outros tantos mais que me falham a proficiência nos sinônimos, isso quando não a brenha instransponível da relva feroz. Ademais, somava o ódio espumante do mar, uma vez que estava tempestuoso, de modo que subjugou seus limiares e engolfou toda extensão das margens que lhe toca. Até onde fora resistido pelos carrancudos penhascos e desfiladeiros, que a face pronta, reprimia o látego das águas bravias. Essas muralhas naturais circuncidavam vasta extensão de Vuds Likainen, além de tudo que é evidente, era de ordem consuetudinária pelo conselho dos elfos, de nunca adentrarem nem vagarem próximo de mais das densas florestas entre Shnell e Ahnva'Alus, pois ali, segundo eles, havia formas de existência tão poderosas e antigas quanto a natureza, e nenhum ser, além do ali residente poderia resistir. Com tudo isso dito, de modo tão dramático por Malak, não foi difícil tornar cônscio da melhor resolução. Seguiriam Liek Shnell, uma vez que este sendo o rio-cura, sempre haveria de ampará-los, socorrendo-os de pronta mão, seja da fadiga, ou carestia. E dele até Sankhrety Lych, tomariam o oeste até Gear Nakon, donde após convalescidos por muitos dias, poderiam enfrentar os desafios, que tão famintos os aguardavam.
Desta maneira, continuaram o decurso, cavalgaram margeando a banda oriental do rio, quando chegaram a cisão de Hark, decidiram deixar os cavalos em Vaterá, a clareira abençoada, pois a partir dali, dado o solo escarpado, os animais seriam um fardo. Porém, antes que fossem, Daeron fez cicio solicitando sigilo, e fitou a banda ocidental além do rio. Ali, todos de igual modo ateve-se e viram algo aterrador. Centenas de cadáveres de anômalas criaturas empaladas nos galhos de altas árvores sem folhas, sempre na primeira árvore das fileiras a beira-rio, cada árvore parecia conter dezenas de corpos pendurados, sobre as criaturas, segundo a definição de Farkas eram "Orcs-Elfos", pois não eram tão grotescos quanto os orcs mas também não tão altivos como elfos.
"Seriam então Elforcs? Ou Orquelfos?" - comentou o zombeteiro Malak.
Lydia, vendo que dentre todas as criaturas que pendiam, havia um em destaque, único com negra armadura e elmo. Neste, apontou e vibrou o arco entesado. Do qual sua flecha certeiramente lascou a quina do elmo que por sua vez, caiu à queda livre, desvelando um rosto, muito mais élfico do que se vislumbrava os outros. Quando da alta arvore o elmo se impactou ao solo, uma das criaturas muito semelhante a aquelas penduradas, saiu do oculto por detrás das arvores e correu rumando o sul, mas não foi longe, Nyah, num lapso lançou uma machadinha que, numa distância considerável, impressionando a todos, rachou o crânio do Elforc (ou orquelfo) fugitivo.
Porém, houve uma outra surpresa, que de todos suspendeu o folego, saiu por das sombras e uma alta pedra, uma fera bípede - meio homem meio bode, o que Malak, quando recordava a criatura denominava-o de "bodómem" - era veloz, e seus movimentos de prodigiosa força turbou a todos, pois, pegando a criatura recém morta, arrancou-lhe a cabeça, desmembrando como se colhe maduros frutos de árvores, e após isso, com apenas uma mão estacou o cadáver em um denso galho afilado, próximo de si, tomou a cabeça que não apartará de sua mão, e a lançou no sodalício, cabeça qual deu fim ao seu rolar aos pés de Leonadair, que não se demoveu. A criatura então, após fitá-los esquadrinhando-os a todos, deu de costas e adentrou as sombras da densa floresta.
Daerown irrompeu o silêncio dizendo: "Faunos, guardiões das ninfas que zelam a floresta, aqueles - e apontou para o elfo desvelado pela flecha de Lydia - é um Tharduk, um elfo das sombras, e isso... - continuou, apontando para a cabeça ao chão que ainda detinha a machadinha enterrada no cimo - é um Mormahat, e ambos são proles da raça corrompida" e então interpelou Nyah enfim, dando aos ouvidos sua voz: "São comuns nas terras do sul, seu covil fica a lesta de Gers Nakon, no sopé norte de Tekvio Zarchim... e meu aço gélido clama por seu sangue vil". Todos pasmos com sua frieza, Lydia comentou a observação: "Relativamente distante para aqui se encontrarem." Leonadair, por fim, considerou:
"Pelo o que aparenta - e correu os olhos nas árvores que ostentavam os cadáveres - o inimigo do sul, intentou surpreender-nos na grande batalha, visando um assalto deste flanco. Porém, foram frustrados pela interferência do reino desta floresta e de seus selvagens paladinos - Leonadair sorriu enquanto dizia - porém, mesmo que fomos encontrados dignos de sermos agraciados com tamanha fortuna, tal natureza não pode ser tida por parcial, pois não deixou de advertir-nos que a posição nenhuma ela serve; pelo menos, é o que interpreto da curiosa atitude deste fauno." Dizendo isso, Leonadair retirou a machadinha enterrada no crânio da hedionda criatura, e a devolveu para Nyah. Malak fitou a Farkas, estampando jocoso sorriso - como sempre fazia fora de hora - mas Farkas, por sua vez, deu voz ao que o perturbava: "E a flecha da Lydia? não nos será útil?" Malak, transtornando o rosto, retrucou: "Se demonstras tão nobre solicitude para com o alforje de sua dama, por que não intenta buscá-la?" Farkas escusou-se (sem velar muito bem o receio do proposto).
Rumando a leste, chegaram a Vaterá, a fim de amparar os cavalos, ali desmontaram. Essa clareira, (tanto quanto a Vidurá e Huaná), mesmo dada a ser tangível não é possível tê-la por um êxtase de sonho, mas sua beleza equiparava-se a mais homérica descrição, de modo que se encontrasse alguém capaz de ao menos em parte descrevê-la, seria entre os homens um senhor das falácias, ou um louco digno de apoteose. A sombra leste da banda oriental de uma elipse manava a mais pura das águas, fonte de um licor estelar, no qual, em reflexo refugia os luminosos astros, o véu que dela serpenteava de igual maneira, transpassavam dali, até a banda ocidental, seu brilho retido das estrelas iluminava a copa inferior das árvores, de modo que sua luz adornava e coroava magníficos troncos milenares e ainda saudáveis.
Os animais, sentindo-se instintivamente convencidos a água, embeberam. Enquanto o sodalício circundava a clareira a fim de auferir confiança. Após bem averiguado, e montado acampamento, todos se encontravam tomando as águas cristalinas, quando de pronto foram assaltados por um súbito sono, e sem resistirem todos adormeceram, reféns da incúria, abriram a guarda. Pois, o que não contavam, é que águas estavam encantadas.



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