Em dor atroz, como se punhais lhe esfaqueassem todo corpo em pontadas lancinantes, aterrado sob frigido flagelante, Farkas via-se esvair o vigor e toda esperança; e próximo de expirar, parecia que o rosto de Lydia era-lhe o último a esvanecer de seu derradeiro momento. O piar da águia ecoava cada vez mais presente, até que então, sentiu um toque e seguido deste, um par de mãos lhe puxou os braços e quando enfim desterrado, tomou folego e ofegou-se de alivio. Desta maneira, Farkas pôde então ver, quem lhe assistiu, um homem de raça distinta da sua, esse, comunicava-se com uma língua também de mesma natureza: peculiar; parecia-lhe um guerreiro e diante dele, Farkas não soube o que pensar, se não de lhe agradecer através de gestos breves e sucessivos. Tal guerreiro, após fitar o pomo da lâmina de Farkas, mesurou, e enfim lhe disse em língua corrente:
“Sorte, acaso ou providência? Seja lá o que for, te livrou! Pois raramente alguém trilha essas bandas”.
Farkas sorriu ainda ofegante, e propôs a resolução do suposto, dizendo:
“Pelo acaso fui soterrado, por sorte tu passavas e pela providência tu me salvaste!”.
O amistoso guerreiro riu e disse: “Se a adversidade pode unir até os adversos, imagine os semelhantes!” – e estendendo a mão para Farkas, apresentou-se – “Sou Mulfalut, o Búfalo, chefe de Taurinium, à norte-oriental! E a minha amada Aquilia, já deves ter visto, ouvido e contemplado” – quando disse isto, a águia, num piar longo, manifestou-se das névoas do pico, e vindo na direção de ambos, pôs-se em raso ao solo, e transfigurou-se numa donzela de beleza além do possível de descrever, esta, sorriu e disse: “Devo dizer-lhe que seu querido cavalo, esta em boas mãos, alguns patrulheiros levantaram pavilhão no flanco leste deste desfiladeiro, e estão sob as ordens de cuida-lo até que tu retorne; alente seu coração quanto a isto”.
Farkas estampava um semblante pasmo de surpresa, e se levantando comentou, como para si: “Como não crer no Uno incrível? – e em mesura continuou - Sou Farkas! mas podem me chamar de amigo, pois sob tal título já vos considero em elevada estima; nunca esquecerei de terem me livrado, ainda visto, que se ata a virtude de mais elevada natureza, considerando que sou estranho a vós, e por isso, tento-me a inquirir-vos: o por que me salvaram?” Ambos refletiram, mas Mulfalut se pôs a responder: “Forças são dadas e corações são inclinados em prol daqueles que cursam o caminho reto; algo ou alguém lhe quer vivo, e deste ou disto, é que fomos apenas instrumentos para esse fim.”
Farkas, como de costume, não reteve algumas lágrimas, e já as minando, disse-lhes:
“Não tenho nada a meu alcance que retribua tal favor, mas retornarei quando possível, e com os dotes de gratidão, segundo vossas piedades! Perdoem-me, mas agora devo ir, o tempo me é contra e o caminho é longo.”
Porém, Mulfalut interpelou-o: “Antes de ires, amigo Farkas, tenho que lhe inquirir a fim de julgar sob qual tino diriges, responda-me: Por que ousadamente submetestes a tal perigo? Qual a causa de seu talante?”
Farkas suspirou, como quem recorda de uma má lembrança e lhe respondeu: “Hostes malignas estão sob a ordem de devastar o reino dos homens, e foi-me outorgado a convocar o auxílio de antigas alianças, mas os anãos, embainharam suas espadas e alçarão as velas para o além-norte antes do fim de amanhã.”
Mulfalut fitou Aquilia e lhe disse: “Isto explica o andejar dos bruxos do golfo para cá, armam contra os homens – e virando-se para Farkas, Mulfalut continuou – Taurinium entesará o arco e desembainhará a espada pela nossa raça! Nos uniremos a vocês, na aurora do terceiro dia após hoje.”
Farkas fora convidado por Mulfalut a descansar em Taurinium; Mulfalut o convidou não por negligencia a prudência, mas por se fiar a aptidão que possuía, discernir os espíritos; e por isto, não deixou de notar em Farkas, e em suas palavras, a retidão e sinceridade; alcançando de Farkas assim, graças a seus olhos.
Após o convite, Farkas de pronto aceitou, e dirigiram-se para o norte, e discorriam sobre tudo o que de atípico perceberam nos últimos dias; e Aquilia, sobre eles voava. Chegaram a Taurinium quando o sol mergulhava no horizonte; um dormitório foi lhe confiado, e refeição foi lhe servida; e ali, Farkas descansou por toda a noite.
Na manha seguinte, Farkas levantou-se já plenamente recobrado; e disposto para partir foi ao Rei agradecer-lhe nestas palavras:
“Fico deveras pasmo, quando ponho-me a admirar ter favor a mim estendido, logo a mim, um estrangeiro que pouco conheces; que Uno abençoe grandemente sua hospitalidade; e se há algo que requeres para retribuir-te sua benevolência, farei em animo e de bom grado!”
Mulfalut, sobre um trono marfim, feito de cornos de búfalos, forrado com peles de lobos, sorriu, como quem reencontra um amigo e disse-lhe:
“Recreio-me em maior admiração que a tua, quando ouço-te falar, pois tendo aparência de bárbaro, não é bronco estupido como um, mas um cita cortês, e isto é agradável aos meus olhos; sim! Há uma tradição entre nós, basta aos estrangeiros, que gozaram de nosso favor, entesar o arco na caça conosco! Carne em brasa e vinho em chifres é a paga pela nossa hospitalidade.”
Terminadas tais palavras, todos bradaram em animo, inclusive o próprio rei, pois a caça era tida por grande diversão entre este povo. O rei levantou-se do trono, caminhou até Farkas, deu-lhe um longo arco branco e bateu em seus ombros rumando a alta porta; Farkas, ponderava estático estranhando o costume; mas logo, ignorou a estranheza rindo e comprou com afã tal tradição, e correi até a sombra de Mulfalut, Rei de Taurinium; como um sobrinho guiado por um tio; e tal exemplo de afeição não era exagero para Farkas, visto que até aquele ponto, já considerava até os corvos e os porcos a sete léguas daquele lugar, como grandes amigos.

Assim, subiram mais ao norte, e enquanto cruzavam o bosque sul de Oben, desviaram a oeste, até o bosque de Eni; e ali, quando todos atentos exerciam os sentidos em busca de presa; ouviram vozes, e logo em seguida, dois bárbaros dialogavam enquanto caminhavam com pressa rumo a leste; eram ambos homens de porte robusto e bruto aspecto; a companhia de Mulfalut, fitou-lhe aguardando a ordem de ataque, estando ele numa distancia exata de um tiro de arco, e como estavam em arvores, a companhia podia ver os bárbaros, mas estes, não podiam aperceber-lhes.
Farkas, intrigado com a postura da companhia em querer mata-los sem antes inquirir, perguntou a Mulfalut: “Quem são estes que seus homens demonstram tão desafeto?” Mulfalut, o olho sério e o respondeu: “São homens amaldiçoados, transformam-se em feras quando irados ou em noites, quando há necessidade; não é bom que vivam”. Neste momento, levantou as mãos em sinal de preparo ao que atiram, e todo entesaram o arco; Farkas pensou em impedir, mas visto quão resoluto estavam Mulfalut, considerou-os como risco de fato, pela hostilidade de sua natureza; então assentiu a vontade e aguardava o ataque, porém, numa certa distancia , Farkas notou um brilho de uma forma familiar na cintura de um destes, e forçando a vista, pôde ver a inconfundível adaga de Malak; Farkas perturbou-se e conseguiu gritar um sussurro (se é que isso seja possível): “NÃO! Mulfalut franziu rosto irado para Farkas e fez sinal de espera aos seus, e Farkas disse apressadamente e atônito: “Por favor, eles portam adaga de um amigo-irmão meu, Malak, e acredite, ninguém tira essa adaga de Malak, se por este não for dada de bom grado, deixe-me pergunta-los a respeito!” Mulfalut, mantendo-se em silêncio, mudou o sinal girando a mão, e o arqueiro mais distante velozmente trocou a flecha e atirou; (Farkas por pouco não caiu do galho pelo assombro que o acometeu). A flecha no ar, ao meio do caminho até o alvo, estalou, e dela houve uma nuvem verde qual encobriu os dois homens, que caíram de joelhos atordoados.
Todos desceram das arvores, não muito altas, Farkas caiu desajeitado; num instante, todos reuniram-se ao redor dos bárbaros e entesaram meia arcada contra estes; a fumaça amainou, os bárbaros recobraram-se e olharam ao derredor, um pouco frustrados.
Mulfalut, pondo-se frente a eles, com a espada desembainhada, perguntou-lhes: “O que fazem em minha terra homens-lobos?” Um deles respondeu indignado: “Esta não é sua terra de jeito ou maneira”, um caçador de pronto rebateu: “De quem é então de vocês? Bárbaros?”, Farkas, atrasado, furou o circulo e correu para ver a adaga; quando teve certeza do que via, perguntou: “Esta adaga é de um amigo-irmão meu, Malak, por que está contigo?” O bárbaro de pelagem alva, respondeu meditativo: “Pela providência, o Uno livrou a vida de Malak pela nossa mão, e pela providência, Malak presenteou-nos com esta adaga, dizendo que Uno haveria de nos livrar por portá-la”
Farkas, sorrindo respondeu: “E saiba que os livrou de fato amigos!” outro caçador, meneou a cabeça e expressou o motivo de sua surpresa: “Bárbaros falando do Uno? O que está acontecendo com o mundo?”
Os bárbaros se levantaram, o que levou todos os caçadores da companhia a entesar em completo seus arcos, e o mais velho dos dois homens-lobos, sem encarar, inquiriu a ponderar:
“Quem são os bárbaros? Os que vieram tratar diplomaticamente? Ou quem abordam os visitantes com selvageria?” Os caçadores não se detiveram e conversavam entre si: “Diplomaticamente? Como ele sabe essa palavra?” e outro quando se punha a comentar: “Bárbaros são as aberrações...” Mulfalut o interrompeu, embainhando a espada, fazendo sinal de silêncio e ordenando que abrissem guarda aos seus e disse, fitando os bárbaros:
“Perdoe-me se abordagem vos ofendeu, conheço vossas insígnias, e essas que pendem de vós, são a de chefe e capitão, e disto sendo vós encarregados, devem saber que é dever de um líder zelar pela segurança de seu povo, qual vossa graça?”
Os bárbaros enfim, se apresentaram:
“Sou Likusgar, o Lobo negro, Capitão de Licarium, e este é Hulfgar, o Lobo Branco, chefe de nossa raça”
Mulfalut, assentindo com a cabeça, e virando para Hulfgar, lhe inqueriu: “Pois bem, diga-me a que vieste tratar.”
Hulfgar, sereno e sério, tomou a palavra:
“Um mensageiro, que lembra a fala desse – e apontou para Farkas – avisou-nos de um assalto iminente do sul e leste contra os homens, e se estes caírem, os baluartes do maligno farão sombra em nossas terras, diante isto, entendemos que devemos por hora, nos unir a esta causa, como lideres sabemos que isto é para o bem dos seus e dos meus; essa é minha proposta a ti em prol de nós mesmos”
Farkas, lançando as palavras que julgou necessárias para assentir, disse: “Sim Mulfalut, uma casa dividida não se subsiste, e é sabido entre sábios, que a união e comunhão vence todo embate”
Mulfalut desviou o olhar e postando-se meditativo disse: “Dou crédito a suas palavras, pois a mensagem de Farkas, testificam as tuas, que para mim, estão cobertas de razão – e olhando Farkas, continuou – a necessidade une não só os desconhecidos mas inimigos em prol do bem comum, isto é o que algo nos quer dizer – e novamente fitando os irmãos lobos lhes disse – sim, já sabíamos do plano deles, tenho olhos do céu que vigiam a meu favor, mas quanto a unirmos as espadas, que garantia tenho de que em liça não se voltarão contra nós?”
Likusgar avança um passo, demonstrando pelo semblante seu descontentamento com a desconfiança, e sussurra: “A garantia já foi provada, pois se essa fosse nossa vontade, já haveríamos te destruído” e terminando essas palavras, das névoas, das árvores, e por detrás de rochas, e em todo o derredor, inumeráveis matilhas de grandes lobos avançaram lentamente, desvelando-se, em aspecto e quantidades aterradoras.
Um dos arqueiros de Mulfalut, já pálido como a neve, comentou tremulo a seu companheiro mais próximo: “É por isso que não encontramos presas, pois estávamos entre predadores” Mulfalut, sem demonstrar sombra de medo, concluiu em rijo tom: “Em prol dos nossos então, lutaremos juntos enfim.”
Fora assim, que cada um dos grupos deram as costas e seguiram seus caminhos em retorno a suas cidades, e Farkas após se alegrar o recreio com os de Taurinium, retornou acompanhado com guias; e quando próximo do pavilhão, nas faldas leste de Khro Nogaak, seu cavalo o avistou, e num relinchar fogoso como outrora partiu, pôs-se a correr, saltando acerca dos patrulheiros, estes, alarmaram-se, mas quando viram que a descrição era consonante com o aventureiro que aguardavam a retirada da montaria (Descrito por Aquilia), ignoraram e voltaram a empreita da guarda, sob a ordem real de Taurinium.


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