A batalha havia terminado, o calor da glória amainou-se, o sorriso de alívio deixou de estampar o semblante em breve tempo, enquanto os guerreiros descobriam seus mortos, gritos e lamentos tomavam o ambiente. De porção em porção, o luto foi de todo instaurado, e os espíritos contristaram-se. Os olhares de esperança aplacaram-se sob a aflição. Dentre eles, um uivo longo e alto sonante ouviu-se, o qual, enquanto ainda elevava-se sua lamuria lupina, esta, gradativamente breve, converteu-se em um grito de homem, e quando os circunstantes fitaram o foco da voz, encontraram Likusgar, que deitava as lágrimas sobre seu irmão-lobo, ferrenhamente ferido aos braços. Malak, de pronto prestou-se, e já trazendo carroças, auxiliava ao lado de todos que ainda podiam dispor-se em pé, a recolher os mortos e acolher os feridos, segundo à medida que puderam. Levaram e foram levados, a semelhança de um cortejo fúnebre, para o reino dos fármacos, Fidirium.
Enquanto os soldados punham-se a meter os cadáveres dos seus em padiolas, e os do inimigo a fenda dos mortos, os reis estavam sobre um campo elevado. Reflexivos, intentando o cálculo das baixas, a brisa gélida tocava-lhes o rosto, e abatia-lhes o coração, quando então, a atmosfera foi tomado por uma impressão agourenta, da fenda dos mortos, uma nébula negra emergiu, rasa, mas extensa, de modo que sua sombra postou-se sobre todo limiar do precipício. Após um instante estático, o que não deixou de exigir reação dos que a fitavam, os quais, aturdidos, desembainharam suas lâminas, e os arqueiros entesaram seus arcos. A nevoa, comprimiu-se, tornando-se tão densa quando como se fosse tangível, e adveio, rastejante como serpe de sombras até diante os reis, aos pés do montículo. Transfigurou-se, do movimento elíptico, uma figura de aspecto aziago, tomou forma, um velho raquítico e azumbrado, trajado com capuz e mantos tão negros quanto se pode tingir, portava um alto cajado. Era um mago de feição tão fria quanto o era seu rosto pálido, estampava um malicioso sorriso sob olhar malévolo fito os reis. Deu estopim a uma gélida e cortante gargalhada - o que, na verdade, mais se assemelhava a uma gralhada - e então, sussurrou, porém, em um tom tão audível quanto se pode ouvir, como se sua voz, proviesse da mente de seus ouvintes:
"Tolos medíocres! Não se pode obliterar um mal que se faz tão inerente em vós nutrir. Desvelou-nos o que a nós estava oculto. Vossa força fora ponderada, vosso alcance medido, vossa fraqueza encontrada, vosso poder subvertido! A nós a glória, a coroa do maldito!"
E risonho, esvaneceu em pó, que por sua vez, assumiu a sombra de um corvo alçando voou para o leste. Um dos hábeis arqueiros de Aquilarium, deu curso a sua flecha, porém, mesmo atravessando certeiramente o alvo - dado sua natureza espectral - nenhum dano auferiu, tornando vão o tentame. Frente a isto, não houve dentre eles, quem proferisse palavra, pois tal augúrio desdito os emudeceu a todos.
Os reis tomaram por sede e forte Arkoudarium. Ali, os homens de Likarium, Taurinium, Liontarium, e os poucos de Aquilarium, nos quais ainda residiam forças para empunhar as armas, fizeram seu quartel e moradia. Fidirium, além dos feridos, recebeu os magos de Dovarium a fim de auxiliarem no logro da convalescença. Dentre eles, Hulfgar, Aquilia e Arketon, jaziam em corpo e vagavam em espírito, entre a limítrofe da vida e da morte. Sem tino, e além da razão, encontravam-se inconsoláveis e atônitos aqueles que os faziam receptáculos de afeto e paixão. Likusgar sobre seu gêmeo, irmão leal e companheiro de toda sorte, Mulfalut sobre sua donzela, detentora de seu coração, senhora de sua alma e os Dovaritas sobre seu filho, aquele que deles tudo aprendera e por eles tudo havia ensinado, outrora cheio de vigor e radiante. Todos que a leito encontravam-se inconscientes, manifestavam-se dignos depositários de muitas lágrimas dos seus amados.
O alvorecer após a batalha, tingida de púrpura a cúpula da terra, enquanto toda corte, reis, príncipes e sacerdotes, todo magistrado na arte da guerra, generais, capitães e campeões, estavam fitos em uma mesa, em que dispunham muitos simulacros de cavaleiros, usados a fim de projetar empreitadas. Dentre os eminentes, os proeminentes propunham:
"Com aquele mago ao nosso lado, não haverá infortúnio que nos arredará da glória! Qual vicissitude será empecilho, frente alguém que diante de si curva toda natureza? Onde está tal dignitário de todo título benemérito que há sob o céu?" Perguntou o rei animosamente.
"Ninguém mais o viu após o que é ciente a todos, meu Senhor! Não foi contado entre os mortos, nem entre os vivos faz-se presente. E essa é a razão de nosso espanto, como alguém após aquele feito, ter em si fito todos os olhos, pôde sem vestígios, desparecer?" - respondeu inquisitivo um dos principais. O que outro propôs: "Bem próprio de poderosos bruxos esse feitio!" - tal afirmação deu vulto a celeuma, e dentre o bulício, um alto-Druida meditabundo em silêncio, encerrou a sindicância, prestando-se a dizer: "Ele não é bruxo! Seu poder está além de qualquer arte possível de ser aprendida. Meu coração lança a máxima temeroso, mas, ao que nos parece, sob a mente de sábios, tais poderes são na verdade, próprio de alguém incriado, de alguém que adveio dantes da criação e da criatura, pois sabe-se que aquilo que de algo procede é contido, subjugado, submetido ou domesticado por aquilo que o precedeu. Isto é, em questões da selvática natureza, é fato dado, que só a faz como serva, o Senhor da casa."
"Sugere ser este a própria divindade?" - indagou Leonadair - "Tive a graça de ouvi-lo algumas vezes, e se o fosse como as conjecturas, perdoe-me a ousadia sábio, mas ele não trataria o Uno, como objeto de estudo, uma vez, que se ele não o for, dele proveio, doutra sorte, como perscrutaria aquilo que é em si mesmo toda verdade?"
"Sim, Sim" - interpelou o Druida-mor - "Lufus, nosso pai, registrou sobre este tal teólogo da casa arcana, versado como era. Mas quanto a isto, não esclarece o uso portento da natureza a seu favor. Porém, já que gozou tal graça de dele ouvir, hei de perguntar-te sob o intento e a fim do tentame em lançar luz a uma das facetas que compõe a verdade: qual a disposição deste para com os homens?"
Leonadair, sem hesitar respondeu: "Por misantropo o tive, até vê-lo pleitear nossa causa. Mas ainda assim, o tenho a olhar crítico, pelo que ouvi de seus lábios. Akrivel, não toma esse plano por alguma valia, do que é presente, nada vê de precioso, se não nos seus exaustivos estudos solitários. Assim sendo, creio, por um juízo segundo a impressão a mim manifesta, que neste instante, tal já deve encontrar-se em seu ergástulo arrependido de ter vindo ao nosso auxílio. O que sana nossa questão sobre seu paradeiro: onde está ele? Ora, se não está entre nós, e dado que não pode ser vencido, decerto que abandonou-nos. E o seu feitio obrado por nós até agora, desvela-se condizente como resposta daquele fustigo de consciência, isto é, tomando o ensejo de nos salvar por necessidade de redimir-se. Justificando, pelo mínimo, o que seu dom o incumbe por obrigação. Deste modo, sou do parecer de que não devamos fiar nele alguma esperança de salvação."
Não houve quem velasse assentir o truísmo, de modo evidente o abatimento em todo o rosto. O Druida-mor, suspirando profundamente, enfim considerou: "Sensato! Apesar de me sentir impelido a exortá-lo contra um juízo tão precipitado. Devo tomar o que nos circunda como, de fato, sendo a única realidade qual podemos recorrer e frente a incerteza deste auxílio, melhor faz-se nos surpreender que frustrar-nos. Tomemos isto por miraculoso socorro do Uno, que agora, espera de nós o esforço por gratidão." - Dado fim ao eco dessas palavras, sepultado fora qualquer eventual cogitação a respeito de uma utopia epopeica.
"Irmãos, diante esta verdade, proponho tomar este ensejo, ocasionado pela rechaça, em uma ofensiva contra o coração do inimigo." - disse o general de Arkoudarium. "Assinto e consinto neste conselho. Nunca houve em outrora uma aliança tão sólida como essa que testemunhamos. Com um braço forte, podemos atravessar o inimigo ferido." - completou Amartnux, regente de Liontarium.
"Não se deixe enganar, a muito que o inimigo sonda os caminhos errantes dos homens, talvez seja isto que anseie. Lufus, nosso pai-irmão, quando em voto de silêncio escreveu-nos com palavras de uma alma contrita e arrependida, as ladinas proezas e ardil feitio do mal. Destarte, a morte nos aguarda se em impulso formos guiados pelo pulso de nosso coração, que legitimamente está inflamado de indignação" - suscitou um druida-mor da casa arcana.
"Pois então, o que faremos? Aguardar o fôlego amainar enquanto o inimigo prolifera-se nas sombras? A insegurança nos perturbará e a paz será sepultada à medida que o tempo, a sua maneira, esvair a esperança." - replicou ardorosamente um campeão de Arkoudarium. Qual no mesmo instante, fora repreendido pelo Hulfrich, Rei de Arkoudarium: "não ouse proferir palavras em insolente animosidade, frente a um sábio!" O druida-mor se levantou: "Não o repreenda, caro Rei, há sabedoria nas palavras do jovem e há sinceridade em sua indignação, mas alente-se o coração, não digo abster-nos da luta, nunca! longe disto, vossos filhos confiam a nós suas vidas. Antes, o que proponho é investir contra o inimigo sem ser previsível, como seria sob um contra-ataque direto. Não, tomemos aquilo que julga de nós não saber em nosso favor - como há testemunhas aqui presentes, de suas palavras - essa subestimação será nossa vantagem nesta questão."
Todos estavam fitos no sumo-sábio e inquiriram inquietos: "Mas como isso se dará?" O sábio, levantou-se e em postura de orador, arguiu: "O exército a nosso serviço, como podemos gozar em ver, é composto por uma aliança, cada qual, já versada há muito sob um regime estratégico. Ora, melhor sucesso há de auferir, se condicionarmos esta empreita nisto, isto é, haveremos de se valer deste atributo, desta alteridade em prol do bem comum, uma coligação bem ordenada. Cientes desta comunhão, consideremos o que sabemos, primeiro, que o inimigo julga que somos ignorantes quanto a sua posição, e outro que de fato sabemos, que seu intuito não descansa sobre a posse de nossos bens, a conquista das cidadelas não é seu intento, uma vez, que não tomou Arkinarium para si após alui-la, ele abomina tudo que tocamos, desta forma, fiemos a esta certeza, que na verdade, ele planeja a erradicação de nossa raça. Onde estiver o maior grupo de homens, ali será seu alvo! Pois seu afã é terror, e nutriz de tal é o massacre em massa!"
O capitão de Arkoudarium, reagiu dando voz aos pensamentos: "Desta feita, o próprio exército há de servir tal engodo." Leonadair, Capitão de Liontarium, tomando a vez, considerou: "Entendo o que sugeres, que devamos levar a grande massa de nossas forças a Nolk Salkhi? E quando o inimigo afoito, cego e tomado pelo ódio, depreender todo seu esforço, sem afrouxar-se desta vez, há de intentar um assalto se valendo de suas tropas restantes. O que por conseguinte, seu domínio ao norte de Rytaia Adavi, desprotege-se, e os Dovaritas incorrem ao ensejo de apossá-lo. Desbaratando-o."
Porém, dando continuidade ao raciocínio, um Druida de Fidirium, objeta a proposta: "Ora, nisto reside pretensão, uma vez que a batalha tornar realidade um massacre massivo contra os homens em Nolk Salkhi, dado que estamos tratando de criaturas cruéis, feras hediondas e portentos Bruxos vis. Em que se estriba vossa esperança? Quando não consideram a possibilidade deste maligno principado, após consumir os nossos ao sul, não haverá de retornar para conquistar ferrenhamente seu próprio covil? Se isto for feito, os Dovaritas, tão somente, se prestarão em cordoalhar sua própria forca."
Um outro principal entre os Druidas, porém, este de Dovarium, replicou desdenhoso essa objeção: "São Bruxos, e na mesma proporção que são cruéis, demonstram-se covardes! E quanto a suas feras, a mesma medida que são impetuosas, se fazem estólidas de igual maneira. Os Bruxos, não arriscarão a si mesmos, sem antes não enviar seus cães do inferno como ponta de lança, e como sarissas, aquela distância que haverá entre eles, hão de considerar por vantagem."
Um general de Arkoudarium: "Sim, e ai haverá oportuna vitória. Não reparastes, que na batalha a qual pleiteamos, nossos Cavaleiros encontraram-se em desvantagem frente aos Bruxos. E os Magos, por sua vez, foram sucessivamente resistidos contra as feras? Porém agora, cada qual entrará em liça contra a classe correspondente, de natureza por natureza, equilibra-se o poder."
O Rei, levantando-se reflexivo, arremata: "A grande massa dos cavaleiros vão a Nolk Salkhi, e aguarda o assalto das feras inimigas, quando então o embate trava-se, nossos magos assediam a cidadela Bruxa no norte de Rytaia Adavi. Mas uma vez divididos, que assistência poderão obter um do outro?"
O capitão de Liontarium, Leonadair, retomou em resposta: "Nisto contamos com a soma dos Bárbaros. Taurinium, sob as sombras de Vuds Pivnak, poderá auxiliar no sul, emboscando as feras inimigas após seu assalto contra os cavaleiros de Liontarium e Arkoudarium. Enquanto Licarium, sob a forma elusiva dos lobos, ocultam-se a oeste de Rytaia Adavi, e avançam após assédio dos magos de Dovarium e Fidirium contra Mubatur, cidadela dos Bruxos. Pode-se até propor, que os Magos assediem o portão norte, e quando os Bruxos concentrarem defesa a esta banda, os de Likarium avançam furtivos contra o então negligenciado, portão sul. Deste modo, as duas frentes fraquejarão, seja pelo receio que a inesperado inculcará ou pela desorientação advinda do sobressalto, sua queda é iminente. Há esperança em nós!"
Todos, após um longo silêncio, proporcionado pelas conjecturas ponderadas, foram interrompidas quando Lydia, adentrou o salão do mapa - Farkas, havia escutado pela porta e transmitira a ela o que observou, de que nada disseram sobre auxiliarem os desertores de Aquilarium - nesta sorte, ousou bradar: "Por graça e piedade, excelentíssimo Rei! A que socorro prestarás para com aqueles que por muito tempo lhe foram súditos? E que mais por zelo a vida dos seus, que uma suposta covarde traição abandonaram suas terras!" Leonadair, a fitou, não velando sua indignação a precipitação de Lydia, uma vez, que já haviam convencionado, que ele, sendo capitão de Liontarium, poderia, servir em seu nome como porta-voz, a fim de interceder por Aquilarium em um momento que julgasse oportuno. Agora, porém, seria tida por insolência tal atitude, pondo a descredito a petição, sem nada auferir.
O Rei, porém, mesmo irado, achou graça nos olhos de Lydia e surpreendeu a todos dizendo, se contendo a calma: "E o que sugere, Capitã? Que deveria arriscar a erradicação daqueles que realmente foram leais a mim, independente da adversidade que os acometeram, para caçar os que nessas horas, já devem estar entre Fantasmas? Não! Vá você para morte atrás dos seus, mas não arrastarás os meus!"
Nesta mesma hora, Leonadair, replicou brandamente: "Eu irei com ela, nem que me custe esta insígnia!" Todos do salão estremeceram, e atônitos fitavam o Rei, o qual, não deixando de evidenciar receio e espanto - Ora, Leonadair era dos Altos Heróis, um dos únicos ainda vivos, sua história e presença inspiravam os aspirantes ao heroísmo. Muito significava, em quesito de moral das tropas, sua titulação. Frente aos fatos, os conselheiros não se calaram, e de pronto puseram-se a suadir o Rei a uma decisão sensata: "Atente meu Rei, seria de boa fama dar terreno aos grandes feitos do tal, e é por razão, de utilidade essa proposta, pois, averiguar a presença de inimigos ao sul, privar-nos-ia de um eventual assalto de Skógur Kliringo. Ademais, o cuidado que demonstraria para os que em outrora te deixaram, faria raiar sua benevolência e misericórdia, e o povo, potenciaria a ti, já a elevada estima para consigo." Exposto as consequências que haveria de advir da recusa, e rendido a aceitação popular, o rei reconsiderou o que dantes havia premeditado:
"Se é tu que requeres, teu mérito lhe concedeu! Dou-lhe concessão sob a coroa em instituir membros para um Sodalício, a fim de intentar resgaste para com os seus, e incumbido de servir essa corte, sondando, em terra, a banda sul do além-império."




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