Prophetheia - Capítulo XVIII

    Akrivel encontrava-se em debruço sobre seus livros enquanto ponderava submerso axiomas a beira de suspender os sentidos na exaustiva labuta da razão, quando então pôde ouvir, como um sonoro chamado, cuja voz era mansa a semelhança da leve brisa, o sopro do alento, mas tão poderosa quanto a fúria de muitas águas, terremoto portento, e ao mesmo instante que aparentava provir de fora, de mesmo modo inquiria se sua origem não provinha de dentro de si. Invadia a cabana e a mente, ao mesmo sentido que parecia advir dos livros e do coração:

    Akrivel, Sakriven Imastun! É chegada a hora...

    Quando o eco das palavras se encerrara, Akrivel percebeu que não havia mais pássaros a cantar, nem folhas a farfalhar, mas apenas um veemente vento, tão frio que alvejavam as janelas, porém, sentia ser acometido por um calor que lhe abraçava, suas entranhas aquentaram e impelido por uma vontade além de si, qual a pode discernir não como temerosa ou pretensa curiosidade, antes, sob um afã de descobrir aquilo que a muito se esperava.

    Levantando-se, se dirigiu até a porta, e quando a abriu, admirou-se sem se surpreender, estava no centro de um planalto acima das nuvens, era um platô alvo forrado pela nevasca e seus limites findavam em espinhaços abismais, muito semelhante a uma isolada ilha, onde o adro fazia vez da terra e as nuvens faziam vez das águas, era o pico da montanha mais alta, Al-vukihika.

     Akrivel avançou em lentos passos, deixando a soleira de sua cabana, e após enterrar os pés na alvura, se virou para contemplar sua estranha localização, porém, não a viu mais. Quando tornou a olhar o derredor, se deparou com três figuras, um Manthorn gris de manto víride, um Berggeist com trajes negros, e um Nerianor branco com vestes púrpuras.

   Akrivel, fitando-os, inquiriu: “Sois ludibries dos meus suspensos sentidos? Quem sois se podem responder? A que fim me assombram?”

    O Manthorn, com mesura respondeu: Somos servidores dos servos e servos do Uno, somos aqueles segundo a sã verdade e eu sou Muz’Yudah, o alto legislador dos tempos antigos.”

   O Nerianor, mesurou apenas com a cabeça e continuou: Somos os principais dentre os vocacionados na arte do saber, somos a expressão da sacra ciência, e eu sou Vyn’Lamad, sumo sacerdote da raça antiga.”

    E por fim, a terceira figura, o Berggeist, pôs a dizer: “Somos os eleitos para oficio da libertação, e eu sou Sakal’Yarah, o príncipe dos espíritos das magnas montanhas; aqui e agora, vosso anfitrião”E enfim mesurou.

     Akrivel, curvou-se no mesmo instante e com a fronte em solo frio, clamou:

    “Sob vosso nome assina a preeminência, os distintos das raças extintas, diademas das antigas lendas, vós sois os mitos de outrora! Quem sou? Oh anjos do saber! Muito li sobre vós e de vossas próprias penas, Oh Uno! A que mérito há em mim para gozar a graça de pôr-me frente aos teus portentos!”

    Devia saber! – Respondeu Vyn’Lamad – “Por nenhum mérito alcançamos favor algum do Uno, antes, por graça o aprouve eleger segundo sua misericórdia, sem mérito exigir.”

     “Mas a esta pergunta, intento responder pelo que podemos inferir.” Tomou a palavra Muz’Yudah – “Creio, que fomos preservados da sepultura por razão deste momento, e que noto eu, se dá nossa reunião em além tempo e espaço, sob único fim e proposito de dar a ti testemunho de vossa outorga.”

    “Sim, assim o é! – Retomou Vyn’Lamad – “O clamor da vossa raça subiu ao trono do Uno, e ele atentou teus ouvidos e estendeu seu favor, e hoje sob autoridade da Lei, na expressão de Muz’Yudah, e sob autoridade profética na minha expressão, testificamos tua comissão desde agora.”

   Sakal’Yarah postando-se as costas, fitava imerso a imensidão do mar de nuvens, e continuou meditativo:

    “Quem sois Akrivel? És tu como nós, escolhido pela presciência do Soberano para levar a cabo a consumação de seu socorro aos homens, sim! O Uno nos reuniu, tão somente para testemunhar sua vocação, portanto, cinge-te e guia-te pela sabedoria!  E então, se virando aproximou-se se fazendo espectro e em seguida transfigurando-se em corpo tangível frente a Akrivel, continuou:

    Damos-te aquilo que nos foi outorgado oferecer-te, nosso conselho, seja tua ciência o caminho de todos; dos bons para espelhar-te e dos maus para retrair-te; dos acertos para preservar-te e das falhas para corrigir-te; da fortuna para edificar-te e da adversidade para manifestar-te.”

    Vyn’Lamad tomou a palavra: Labuta e labor saciara a sede com seu sangue, mas atenha-se a promessa e mantenha viva a esperança, que dentre os homens não há de esvair, porém, advertido serás! Cuida-se e sê vigilante, o mal está a porta, e aguarda a ti temeroso, use isso a teu favor!”

     Muz’Yudah continou:Akrivel, meu cajado que a ti te serve, é chave da Hitsá de Vyn’Lamad para navegares pelos cantos da terra, vale-se disto a teu propósito!”

     Sakal’Yarah retomou:Tempos de paz são dados aos homens a fim de prepará-los para os tempos de guerra, e isto fora dado a teu serviço, eis que ouço Akrivel, revela-te! Pois a trompa soa agora!”

      E enfim, do céu ouviu-se a sobre-excelsa voz: “Akrivel, Sakriven Imastun, é chegada a hora!”


     Akrivel, num lapso se despertou, e encontrava-se ao meio de sua familiar clareira sob um nebuloso dia, donde após o estrondo de um breve relâmpago, a terra recebeu seu regá-lo, e a fina chuva caíra sobre o velho.

     Após tomar folego, pôs-se a toda pressa em tentar auxílio, preenchera a lacuna de sua questão, pois descobrira que seu cajado emendava conexão com Hitsá e essa por sua vez era porta para a cidadela do inimigo, assim, tomou destino sem demora inflado de confiança.

     Correndo até Hitsá, tocou a gema opala do topo de seu cajado no monólito de basalto de Vyn'Lamad, e então, teletransportou-se para um pasto de aspecto doentio, era dia, mas não havia luz. Não muito longe, pôde ver, a entrada de uma vila mergulhada em sombras, seu aspecto era tão sórdido que causava calafrios em tão somente fitá-lo.

     Assim Akrivel o foi com não muita disposição. Dantes de aproximar-se de todo do portão, este abriu-se, e o velho adentrou o pátio, estava deserto, mas não que isso significasse sem presença, pois a cada passo, Akrivel tinham a impressão de ser alvo de agouros e maldições, podia ouvir sussurros das casas escuras quando não escutava gargalhos de gelar espinha. A cada viela que adentrava rumando o castelo principal, sentia um peso fadar os passos, filtros de metal tilintavam agourentos e perturbavam o espirito, afogando-o numa tristeza e desespero inarrável, bruxos começaram a manifestar-se, muitos estavam de trajes imundos e rostos velados pelas sombras nas quais sorriam com malicia quando não recitavam em má língua sentenças de morte para o visitante.

      As Feiticeiras e as Bruxas, eram de beleza aterradora, dotadas de uma formosura e falsa graça tão admiráveis que fervilhavam as entranhas e encarceravam a mente, cunhando seu belo porte na memória, atormentando as vítimas na erupção de suas tentações, mesmo quando em lapso de contemplação; deste aparato diabólico se valiam para arrastar os infelizes a sua vontade. Akrivel, resistia aos impulsos dos sentidos, subjugando-o por supra vontade ao versado exercício da razão.


    Chegando ao grande salão de Mubatur, Apolium estava assentado em seu trono, e ao ver Akrivel o recebeu com as seguintes palavras em tom irônico: 

    Ora Ora! Eis ai Akrivel! O príncipe da casa Arcana, o Kirion de Arkin, amado dos desprezíveis, cão dos sábios e desertor... agraciado pela tua visita, amigo, como vais? – Disse, estampando um sorriso jocoso.

    Lisonjeado Kahi, confesso que não aguardava tal calorosa recepção; quanto a mim e como vou? Digo que estou em lamento e condoído pela condição de tua alma – Respondeu brandamente Akrivel.

    Contigo tuas condolências; e não ouse olhar para mim!” – Akrivel sorriu e baixou a cabeça e Apolium continuou:

    Vem render-se? Bom, tu sabes que pouco me importo com miseráveis; mas agora que sou rei, demonstrarei uma virtude que seus tolos não demonstraram para com os meus; a benevolência, e pela minha misericórdia ofereço a ti uma cadeira aqui em Mubatur para ao nosso lado tu reinares; veja ao derredor pequeno mestre, todos os nossos estão aqui, de Arcana e Mística, menos tu e Lufus, o qual, tolamente se compadeceu dos homens, e acabou por receber o preço que convinha seu erro, a morte sem-retorno... aprenda com este, e não incorra a uma escolha tão medíocre! Aceite e será aceito, venha e será perdoado sua estúpida decisão de outrora, quando optou pelo seu ingrato fanatismo; não será lembrado essa falha, antes, um cetro sua mão empunhará, e então viverá! Como nós vivemos, veja e contemple, a morte não nos venceu!” – E ao isto concluir, perdeu-se em repugnáveis risos de sórdida malicia.

    Louvada virtude de fato seria se não viesse de ti. Quanto ao seu rancor, entenda Kahi! Seu pai atou a si um fim segundo a medida de seus próprios atos e não se engane, mesmo que ame ser enganado. Ouça... vós não viveis, não! A morte o encontrou muito antes de seu último fôlego, vós apenas existem, são carnes sem calor, corpos sem alma, corações sem amor e nada mais. Sim... eu venho, não para me render, mas para pedir-te em nome de nossa antiga amizade, que abandone o intento do ataque e demonstre assim sua benevolência! Caso contrário, o preço a ser pago será uma eternidade em punição... o que não quero para ti.

    Cuida-te de tuas palavras verme! Não vês que tenho tua vida em minhas mãos?” – Bradou Apolium possesso de ódio.

      Não terias se do alto não lhe fosse concedido.” – Respondeu serenamente Akrivel.

    Tu e tuas fábulas... – Replicou Apolium, e continuou: Julguei que aceitaria a oferta, pois imaginei que ainda havia sabedoria em ti, mas me enganei! Já que não viverás para me servir... não servirás para viver. – Olhando para os arautos, ordenou: Matem-no.

     Quando a meia dúzia de Bruxos e Lichs deram o primeiro passo, todos se desfizeram como pó de cinzas no mesmo instante. Akrivel lentamente elevou a cabeça e penetrou com olhar aterrador os olhos de Apolium, que amedrontado recuava com receio, sem deixar de fitar o rosto do velho.

    Tu sabes Kahi, que pela fé no Uno não posso matar, mas deixastes de perceber que não é imputado o homicídio quando encerra algo desprovido de vida. E já que recusaste a petição, agora venho a ti a fim de advertires que tens UM dia, para recuar suas tropas... morte breve a ti Kahi! Até mais ver.

    Apolium se pôs em postura, estendeu a destra e de pronto um cajado foi empunhado, e de aspecto grave desafiou: “Mostre-me do que é capaz!”

    Antes que terminasse, um relapso de esplendor emanou de Akrivel e todos não podia resistir, a intensa luz que em breve exauriu decompôs todos os cajados de necromancia e aniquilou todos os súditos Desmortos que se encontravam naquele palácio, e o fulguroso brilho atordoou-os e manifestou a surpresa: Akrivel não se encontrava mais presente. Apolium, bradou irado. 

     O Sol, naquele dia, se escondeu atrás de nuvens negras, e toda Mubatur apavorou-se com os relatos que correram a toda pressa.

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