Em um breve lapso no curso do tempo, na ávida devoção à servidão ao Uno e às Potestades, estas desvelaram-se a criar também, a partir do elemento Myótri, com divino esmero, suas próprias raças para cada continente, em obediente sequência à vontade do Uno.
Os pioneiros deste augúrio foram os Anãos, pequenos em estatura, mas grandiosos em espírito, de zelosa lealdade, tempestuosos e profundamente sensíveis às paixões de seus próprios artifícios. Zyathar, nas abissais profundezas de majestosas cavernas e grandiosas grutas de Lythoiken, reuniu montes de pedras primevas e, ao erguer-se em seu poder, fez ecoar um rugido ancestral, cujo sopro penetrou a matéria como espírito vivificante, transubstanciando a rocha inerte na carne pétrea dos robustos Anãos. Essas cavernas, com sua nobre presença, enaltecem os recônditos do continente, onde ergueram suas primorosas cidades, testemunhos vivos da destreza de seus artífices. Por intermédio do idioma Anac, entrelaçam suas interações e perpetuam a harmonia de sua sociedade.
Subsequentemente, surgiram os Manthorns, felinos bípedes investidos de lúcida cognição e eloquente fala, sendo agraciados com um idioma próprio, o Felidúm. Yu’zakrás, sob os auspícios do frígido silêncio, tosquiou-se, tomou mechas de sua laureada juba e as sepultou sob o alvo manto invernal; e dali, do seio da neve consagrada, desenterraram-se despertos os primeiros de sua raça felídea. Guiado pela diligência de preservá-los, Yu’zakrás dotou-os de razão preternatural, tornando-os capazes de erigir reinos e manter sua linhagem nos glaciais domínios de Corkrúm.
A seguir destes, nas vastas terras desérticas de Cor'eremen, foram os Nerianors, répteis bípedes de alta estatura imbuídos de aguçado intelecto e expressão linguística refinada, sendo o Trákon o idioma que lhes foi conferido. Foram forjados por meio de escamas enterradas na areia por Ekasemus, o qual por sua vez, inspirado e admirado pela criação de Yu'zakrás, intentou oferecer ao mundo uma concorrente estirpe, e fundiu-lhes em sua prole não somente a mesma razão, como inclinou-os a assuntos de elevada natureza.
Posteriormente, emergiram os Sereianos, esmeradamente moldados por Hipalus, que os gerou a partir de algas marinhas nas fendas aquáticas de H'udatúr. Com sua graciosa forma, semelhante aos Elfos das Águas, mas adornados com caudas de peixe, eles personificaram a essência da vida marítima. Comunicam-se através do Sirenus, um idioma que ressoa como o som das ondas e o murmúrio das marés, e estabeleceram seus lares nas profundezas aquáticas do continente.
Por derradeiro, plasmados com maestria por meio da lava por Kélrok, surgiram os Ciclopes. Seres de gigantesca envergadura e portadores de um único olho que tudo observa, faziam de moradia as ardentes terras de Oykopúr. Sem um idioma convencional, expressam-se por meio de desenhos e pictogramas gravados em rochas, perpetuando sua história e seus pensamentos em formas duradouras que ecoam pela eternidade.
Por fim, em Corlignum, o vasto e imponente continente central, foram concebidas três distintas raças sob o manto de sua incomensurável grandeza. Este continente, em sua majestade, acolheu tais criações por sua magnitude inigualável e pela rica diversidade de sua flora e fauna, que se estendem como um testemunho da obra divina. Único em sua essência, abrigava Potestades que compartilhavam igualmente a essência de Myótri, que o distinguia de todos os outros continentes, onde apenas uma das Potestades detinha tal afinidade enquanto a outra não.
Deste modo, Adiastikus, Orghoy e Drakata deram origem, respectivamente, às Górgonas, aos Centauros e aos Minotauros, cada qual concebido por meio de inspirações singulares e ferramentas distintas, refletindo o espírito criativo e a essência única de cada uma dessas Potestades. Entretanto, Arakthiria optou por não criar uma raça naquele momento. Julgava não ser ainda o tempo certo, e, em sua paciência, aguardava o instante em que sua obra pudesse ser realizada com um maior propósito.
As primeiras foram as Górgonas, concebidas por Adiastikus nas profundezas de uma gruta oculta por detrás das cintilantes quedas d’água nas matas de Rytaia Adavi, “A Selva Lestense” no antigo idioma Elvic. Inspiradas na encantadora graça das Elfas da Flora e da Fauna, e na sutil maestria destas com as serpes, as Górgonas herdaram a beleza hipnótica de suas predecessoras e a astúcia dos répteis. Seu idioma era o sibilante murmúrio das cobras, um som que ecoava pelas matas como um cântico secreto, compreendido apenas por aquelas que compartilhavam seu vínculo.
Após estas, vieram os Centauros, esculpidos por Orghoy nas rochas vermelhas dos majestosos cânions da “A Passagem das Areias”, denominado em Elvic como Al-kumahá. Esses seres, dotados de razão e espírito indomável, ostentavam a graça dos Elfos da Flora e da Fauna em seus torsos, fundidos à robustez e velocidade dos equinos em suas pernas. Se congregavam em tropel, galopando pelos desertos, campos e planícies com ímpeto e galhardia. Utilizavam da linguagem corporal, através de padrões de movimento e gestos, complementados por vocalizações específicas, como relinchos suaves e sons mais graves como gritos, eles dialogam uns com os outros.
Por último, através da queima de troncos de madeira em uma gruta ao norte de Darastrix Verthicha, “A Grande Cordilheira do Dragão” em Elvic, Drakata trouxe à existência os Minotauros. Seres bípedes com aparência de touros, que faziam das cavernas encravadas nas encostas próximas às matas ao norte do continente, seu abrigo e morada. Dotados de imponência e robustez, optavam por uma forma de comunicação que se desdobrava em ressonantes rugidos e retumbantes berros de grave tonalidade.
Assim, cada continente viu nascer, com graciosidade e propósito, raças criadas para reverenciarem seus pais criadores, e adorarem o Criador dos criadores, Sacro Uno, O Soberano Pai.
Entretanto, Ofnash, Senhor de Édonen, talvez dentre eles o mais tomado de afã para arte do artificio, aguardando ansiosamente a concessão de criar, viu-se frustrado, pois essa não o contemplou. Inflamado com sua indignação, ardeu-se de ciúmes, mas não se deteve, e em secreto pôs-se a trazer existência a seus intentos, gerando prole de si mesmo, sendo serpes aladas, denominadas Wyverns.
Essas criaturas, veladas sob as sombras dos segredos, foram designadas a viverem nos antros da terra, ocultas a alhures, porém, por serem criadas alheia a divina volição, isto é, sem concessão e fora do tempo, foram privadas de razão e obediência, de modo que vacilando intencionalmente a uma ordem não compreendida, vieram a luz e flanaram aos olhos de todos. Os quais por sua vez, assombrados com a pretensão de Ofnash, não deixaram de increpar.
O Uno, cujo qual, tudo o que se pode realizar ou meramente ponderar é patente a sua ciência e nunca deixa de estar sob seus auspícios. Visitou Édonen, censurou Ofnash, encerrando seu atributo natural Myótri e quanto as criaturas, não quis matá-las, pois ao fim sempre abençoava o que gozava o bem da vida, mas, não deixando de prever o mal que poderia advir de tais, cerrou-lhes o ventre, e não se multiplicavam, esterilizando com uma única ordem todos os Wyverns.
O Uno, Misericordioso, compreendendo a indignação de Ofnash o admoestou, dizendo que para fins maiores e melhores tinha elegido seu prelado para manifestação corpórea de sua essência. Isto é, nela haveria de vir uma última raça que corresponderia a seus atributos. Esses, seriam coroados com o gozo da consumação dos tempos, seu poder, engolfaria os mundos para a glória de Pai, Criador.
Neste tempo, o Uno prevendo a necessidade de tornar-se escusa, qualquer malfeito faz todos os ouvidos testemunharem a sua seguinte lei:
“Pelo meu nome, outorgo e promulgo: fica impedido, sob pena de maldição e exílio eterno, se algum ser subcriado, dotado com a sabedoria mor levantar qualquer manifestação desmoderada, seja pondo sua ira sob o sol, ou deitando sangue sobre a terra. Nunca haveria de acontecer o que será inevitável aquilo que há de vir e contra o seu semelhante, não haverá dolo, porém sua consumação orientará o fim do mundo. O cetro não se levantará e a espada não descerá quando aquele que os empunhar não for contado entre os ordenados a meu ministério, para punir com justiça o que é mal. Uma vez, que os filhos não se levantarão contra seus pais. Porém, sabido o que haverá de ser, eis que levantarei dentre essa terra, e confio entre seus irmãos, os meus, que julgarão o mal e serão os meus ministros. Pois os derradeiros serão os principais!”
E assim se deu, quando tudo fora consolidado e em ordem vagavam o mundo. O Uno veio a Édonen, e ali, a testemunho de todo ser vivente, criou o Homem através da úmida terra, a sua imagem e semelhança. Todas as criaturas os amaram e comungaram em estima, recíproca e cordial. E laudaram o portento feito do Uno. Os Homens daquele princípio, eram de uma natureza pura e sublime, altiva e de grande poder. Sabiam tanto quanto Elfos e Nerianors e gozavam de maior força que Anãos e Manthorns.



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