Prophetheia - Capítulo XXVIII

 Akrivel, comiserando-se de todos, baixou a cabeça, tirou um penduricalho de sua veste. Era uma das gemas do diadema de Semum, a esmeralda do Parakleton. Ele a fitou, dizendo consigo: "Lufus... redimistes teus filhos, e hoje os vejo testemunharem seu zelo. Que tua voz ecoe para sempre, irmão." 

Akrivel guardou o amuleto, virou-se para aqueles que vieram até ele, eram Mulfalut, Likusgar e Hulfgar. Estes mesuraram, Mulfalut disse: "Sábio mestre! Por duas vezes salvaste-nos da morte, devemos a ti nossa vida! Sou Mulfalut, Senhor de Taurinium e estes são os Senhores de Likarium, Likusgar a minha destra e Hulfgar na sinistra. E juntos, em nosso nome, juramos a ti que nossos lábaros hão de estarem sempre dispostos em prol de vossa causa."

Akrivel, assentiu, sorriu e disse: "Minha causa e a vossa é daquele que subjugou a morte pela vida, nobres homens do norte. Por isso, recordem que é quem os deu fôlego que os preservará até requerê-lo de volta. Quanto ao meu auxílio por vós reconhecido, poderia um machado tombar uma árvore, se não há quem o empunhe? Sou apenas um instrumento do Uno, como todos vós! E se hoje há quem ainda resista, ou se há quem desça a sepultara, foi porque, assim Ele aprouve, não porque nós os aprazemos mais que a estes." - disse Akrivel, dirigindo o olhar para os mortos. - "Que todos nós O louve por ainda nos sustentar na liça, e por recolher aqueles que hão de receber, mais cedo, seu galardão!"

"Não há fé, nem nada pertinente a religião, como esperança e amor em nossa terra, Mestre. Por isso, perdoe-nos por não o compreender." - Disse Hulfgar, com uma postura hesitante que não correspondia a seu porte.

Akrivel sorriu, mas havia tristeza velada, e disse lentamente, como quem ensina: "Enquanto houver e onde haver coração pulsante há esperança e amor. Lutaram por amor ao legado dos pais, e resistiram pela esperança dos filhos de retornar a vê-los. Isso é fé, e digo, para minha vergonha, que eu a sempre perscrutei, e estive mais distante dela do que vós, que pensam nunca a ter conhecido. Não discorrer o conceito, não é ausência de sua atividade, como meramente dizê-la não é sua evidência. Vós, tão somente ainda não a compreenderam com a mente, o que já a muito se influi no vosso coração. Quanto a mim, sinto tão somente influir agora, algo que a há muito pensava ter compreendido."

"Sim, Senhor!" - Responderam o trio em uma só voz. 

Mulfalut, aquiesceu e disse: "Mestre, creio que vamos necessitar de três intérpretes."

Todos riram, mas com discrição pelo luto envolvido no ambiente. Akrivel, meneou a cabeça e disse em tom conclusivo: "Nos livros de saber é dito que o inverno perene esfria os corações, de modo que levam alguns a recitar: 'até palácios de gelo estremecem com a frieza dos bárbaros', mas eu digo, que vossos corações tornam este provérbio uma falácia, pois sinto vosso coração, crepitar. Que Iuzakrás, o Leão das neves esteja convosco" - O trio, podia jurar que vislumbrara um lampejo na opala do cajado - "agora, lembrem-se: 'o inverno ensina aos homens que a união os acalenta!"

"De fato, Mestre. É o que temos aprendido!" - Disse Likusgar, buscando a tímida aprovação de Mulfalut.

Neste instante ouviu-se alguém gritar: "Há cativos no cárcere!"

Aquilia desceu, e transmutou-se em uma bela mulher, e disse com prontidão a Mulfalut: "Ocupei-me em descobrir a direção dos desertores, vi um raio cair do céu, ao longe sobre Veld Arklys, e após isto, vi muitos se reorientarem para lá! Também vi, que nesta cidadela, as residências principais estão ao norte, e quatro complexos de bastilhas no Leste."

Um dovarita da Ordem de Sen'há que passava a toda pressa, disse: "Neste covil, a bastilha se estende para o subsolo, quanto mais poderoso é o cativo, tanto mais no inferior se encontrará. Existe um cajado lendário que sumiu dos registros, por tanto, verifiquem todas as alas da residência, principalmente as bibliotecas, se houverem cajados, busquem-nos apenas com os donos. Esses cajados foram elaborados por uma arte que os dovaritas ainda não aprenderam. Não o toque!" - dito isso, um fidirita convocou: "Druidas da Ordem Lyank, comigo! O restante continuem a recolher os corpos."

Akrivel, parando um druida que encabeçava os Lianks, disse: "Não permita que entrem na torre central, não importa o que aconteça. Há ali uma força que arte alguma poderia pleitear. E isto aguarda somente a minha presença."

Assim o foram. Os Druidas adentraram o castelo, e encontraram de fato uma biblioteca. Havia estantes com centenas de livros encadernados de couro e marrom e muitos cajados quais estavam dependurados na parede oposta. No centro do salão havia um leitoril com um tomo aberto sobre ele, e estampado nas páginas haviam três cajados sob algumas inscrições em caracteres da língua Anatá. Encostado ao leitoril, via-se algo impressionante. Uma mesa de tom fosco, de ébano, na dimensão cinco por três côvados, que exibia sobre ela, três cajados semelhantes a gravura do tomo. Porém, eram de marfim e seu aspecto era de poder que fazia-se sentir tão somente ao contemplá-los.

Os druidas Sen'há e Skeilags incumbidos de examinarem os salões, foram de um a um chegando, se reunindo na sala da biblioteca, e a reação de todos foi semelhante, paravam de súbito, fitavam incrédulos, e esclareciam o rosto de admiração. Duvidavam de seus olhos, até um vencer seu estupor e dizer: "Pela minha barba... Eles estão aqui, os três magos do principado oriental!"

"Cajados lendários dos homens da grande lenda." Completou outro.

Dentre eles que aparentava o maior, ordenou: "Pelo poder que possuem, estão sem dúvida, na mais profunda cela, vou orientar os Lianks. Sen'hás! Tomem os livros, e procurem os registros de outrora. Creio que teremos de ficar aqui por algumas gerações para catalogar todas essas obras. Fique um trio aqui, para advertir aos outros que vierem para não os tocarem... se não o céu caíra sobre nossas cabeças."

Dizendo isto, partiu com um destacamento de magos Skeilags, deixando um destacamento mais velho, responsável pelas incumbências que exigiam aquele cômodo.

Enquanto isso, os fidiritas de Lyank, chegaram no sétimo nível da quarta bastilha, e ali encontraram em grilhões, três velhos desfalecidos. Eles estavam com densos mantos de cores claras e turbantes conforme a cultura dos orientais. As luxuosas vestes estavam extremamente surradas, gastas e imundas, mas não haviam ferimentos visíveis nos homens. Tentaram acordá-los, mas não despertavam. Até que chegaram os Skeilags. Pela experiência de serem batedores em muitos reinos, os druidas Skeilags preveniam-se para caso fossem acometidos pelo cárcere, que era um risco real e possível para eles. E então, desenvolveram ardis na arte do escapismo, o que apresentou-se muito útil naquele instante, para romper as grelhas e grilhões da cela dos velhos cativos.

A fim de despertá-los, os velhos foram submetidos a manobras convencionais, mas não eram suficiente para o efeito. Um dos fidiritas, tentou então, algo que chamam de "Vokanidzo", isto consiste em romper o feitiço de sono muito poderoso, feitiço que se foi realizado pelos bruxos, como todos fatores apontavam que o foi, os três velhos ali nunca mais seriam os mesmos após o despertar. Pois quando um bruxo realiza um feitiço de sono, ele não se contenta em apenas render a vitima na inércia, mas aprisioná-la perpetuamente a pesadelos. Isto é, poderiam acordar, mas toda noite que dormissem, nada discorreriam na mente dos desventurados, se não, cenas de morte e desgraça.

O Vokanidzo era relativo, pois é segundo a dimensão de cada pessoa, os ingredientes eram condicionados ao que é familiar a vitima. E neste caso, como tratava-se de homens orientais do sul, foi realizado da seguinte maneira: palmeiras de oásis, areia de deserto, e a pronuncia de seus nomes, pois isso recordaria os velhos orientais que dormiam de que existe um passado, e um lugar que já os recebeu e aguarda. Assim se fez para gozar efeito: em uma taça de madeira, colocavam água, e nela mergulhavam as folhas de palmeiras, depois disso, alguém, isto é, o Lyank responsável por aquela cura, colocava areai na boca, e devia assoprar lentamente no rosto dos velhos, enquanto outro respingava a água de palmeira, e um terceiro, pronunciava seus nomes, três vezes cada nome.

Porém, quando tudo estava pronto, e prestes a ser iniciado, um pequeno detalhes os assolou quando alguém os recordara: "Mas irmãos, qual é o nome deles?" isso, não sabiam até aquele momento, pois nas lendas relatavam somente os feitos, mas não os nomes de lendas ainda vivas. Suspenderam o ritual para convalescimento. E os colocaram nos ombros e passaram a levá-lo para a cima. Mas era de fato, muito longe, e as forças se esvaiam, mesmo que revessassem. Até que um deles, se prestou a humildade de solicitar auxilio dos homens lobos, pois é sabido e notório que eram extremamente fortes, e podiam levantar um homem, com apenas uma mão se assim desejassem.

Assim, um deles, subiu a toda pressa os seis lances de escadarias ainda restantes, e quando saiu da bastilha, vislumbrara, Akrivel adentrando a torre central, parou, o fitou, mas desviou-se daquela atenção e foi até os Senhores de Likarium, que estavam ao lado de Mulfalut. E disse: "Irmãos! Precisamos de vós, encontramos no último nível do cárcere três magos do oriente, provavelmente de Anatá, mas estão desacordados. E como são homens robustos, apesar de velhos, exaurem-se nossas forças."

"E porque não conjuram macas voadoras?" - Disse Likusgar jocoso, tirando risadas de seu irmão.

"Porque se assim o fizéssemos teríamos um hospital no céu." -  respondeu o druida, sem demonstrar um arcabouçou de paciência.

"Três magos do oriente, você disse?" Perguntou Mulfalut, que após verificar o druida aquiescer, sussurrou consigo, mas audivelmente: "Kamavat, Hatkas e Nemlot"

O druida empertigou-se, e os abandonou, correndo para bastilha, abandonando toda ajuda.

Os Senhores de Likarium, tomou a pressa por urgência e gritou para os seus: "mais um conosco!" e começaram a correr ao lado de mais um bárbaro que somou a eles, e então foram vistos transmutando-se a fim de seguir o druida, em veloz disposição.

O druida, foi repetindo os três nomes, que pareciam palavras, "Kamavat, Hatkas e Nemlot, Kamavat, Hatkas e Nemlot, Kamavat, Hatkas e Nemlot" isso praticava para não esquecê-los, de modo que quando viu os druidas, gritou afoito: "Descobri os nomes destes, são Hatvat, Kamakas e Lenot... não... digo... Ka-ma-vat, Hat-kas e Nem-lot" 

Os magos os deitaram na escadaria, e deram prosseguimento ao contra-feitiço. Os velhos despertaram  afoitos, como de susto, e disseram em uma voz: "O quê?! Onde... Nossos cajados?!" estavam assustados e temiam que os magos fossem bruxos. Mas logo, foram confortados, com a apresentação e por fim a presença dos irmãos dovaritas e fidiritas, e os os lobos que chegaram, que também causaram-lhes grande impressão.

Os magos foram auxiliados mesmo despertos, e assim saíram da bastilha claustrofóbica, agora sob o céu aberto, todos aliviaram-se com o sopro da brisa e a luz do sol. Os magos, após verificarem que todos estavam recompostos, disse:

"Os cajados estão na biblioteca daquela residência, no lado oposto deste pátio, após a torre central..." Antes que terminasse, todos estremeceram, pois foram interrompidos com o temor. Puderam ver gárgulas, adentrando as janelas ogivais da torre. Um deles disse: "Eu vi Akrivel adentrar aquela torre agora pouco, será que precisa de auxilio?"

O principal dos druidas disse: "Ele me ordenou abster desse tentame. Ele é capaz por si mesmo, não creio que venha necessitar de nosso humilde suporte."

Os três velhos se entreolharam, refletiam em silêncio fitando a torre. Assim, não se detivera por mais, e se puseram a correr até a residência. Onde os Sen'há os aguardavam. Já com dezenas de livros empilhados e sendo recolhidos por outros druidas que vinham auxiliá-los. Faziam a curadoria dos títulos e os que não eram grimórios de agouro, diziam que os levaria para Dovarium.

Quando os velhos homens vislumbraram os três cajados. Um vento tempestuoso assolou a janela e elevou as cortinas. Todos pararam e os fitaram, os magos vieram se aproximando, e o sol escondeu-se em uma densa nuvem, e trevas reinou naquele dia. Os magos, empunharam os cajados. Ouviu-se trovões, e a chuva caiu. Quando de repente, da torre central viram e ouviriam um corvo saindo voando e crocitando da janela menor inferior, e seguido a este, veio uma explosão. A alta e cilíndrica edificação de pedra escura, a torre imponente no centro do pátio, ruiu e com ela veio abaixo tudo o que estava ao seu redor. De sequência em sequência e raio crescente, todo solo veio sendo engolfado pelo abismo.

Os três magos correram, e seguindo a estes, os lobos, que após um tempo, perceberam que alguns homens não quiseram abandonar os livros, e retornaram para resgatá-los. Os druidas já tinham rasgado a cortina e estavam jogando os livros empilhados nela, para fecharem as pontas como num saco a fim de carrega-las. Mas não daria tempo. E os que cientes do tempo que calculavam, gritavam com estes, intentando convencê-los daquela resistência. Após demonstrarem-se cegos de desespero ao abraçarem os livros negando qualquer possiblidade de abandona-los, os Senhores de Likarium ousaram uma atitude, deram um soco em cada um desses retardatários que desmaiaram e então sem resistência, foram carregados nos ombros pelos homens-lobos.

No caminho, porém, o caminho deixou de existir, o solo foi rompendo conforme corriam, e as pedras que calçavam o pátio, foram sendo engolidas. Não daria tempo, estavam no centro do pátio, que naquele momento era apenas metade. E a residência já era nada mais que escombros de uma encosta íngreme e abismal. Mas os três magos, decidiram, agir ao invés de apenas correr. Um na testa do esquadrão, outro no meio e o terceiro em retaguarda, todos enquanto corriam, apontaram os cajados para o solo, e demonstraram grande esforço em suas feições. O solo firmou-se até quando todos passavam, logo depois cediam, entregues a queda livre do já então penhasco. Em tropeços e muita labuta, todos chegaram até a terra firme, que encontrava-se exatamente após os portões da cidadela. Mubatur já não existia. E o que um dia foi a cidade dos bruxos, era agora e nada mais que um monturo de pedras.

Os que druidas que foram deixados para sepultar os mortos e os homens restantes que os aguardavam, vieram até eles a fim socorrê-los. Akrivel, não estava entre eles.

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