A alvorada mal se erguera quando Nyah e Leonadair despertara. Intentando recobrar consciência daquele súbito susto a fim de tomarem ciência de onde se encontravam, viram-se então, envoltos pelas densas brumas que se arrastavam pelas margens do sombrio território de Detser Hakmir, o "Flanco das Teias Mortais". O silêncio do ermo era opressivo, e o ar trazia consigo o miasma de um antigo bosque, impregnado de fétidos odores e reminiscências de morte.
Leonadair entreolhou Nyah, qual verificava suas armas, dizendo: "Boa sorte conosco, não fomos tocados enquanto adormecidos."
O Capitão, respondeu: "Não houve tempo... - esquadrinhando o céu para considerar - para que algo ou alguém isso intentasse, pois não se passara instantes do gole qual incorreu-nos a este infortúnio."
Assim, convalescidos, decidiram retornar a Vaterá subindo os regatos de Odnenka Zejar, Kafis e Shnel - sob o propósito de reencontrarem o sodalício que deixara, uma vez que pensavam que tal desventura fora testemunhada pelos amigos, não imaginavam que os mesmos tomariam daquela mágica água que então os transladara. Dessa feita, sob a ideia de reencontrarem-nos naquela clareira, os dois avançaram, explorando aquela terra amaldiçoada, cujas árvores de raízes retorcidas pareciam sussurrar lamentos esquecidos.
Conforme adentravam o coração do lugar, depararam-se com um espetáculo aterrador: grandes teias, espessas como cordas, pendiam de tronco em tronco, e recobriam as encostas e rochedos. Algumas eram tão vastas que se confundiam com os véus da própria natureza, reluzindo ao reflexo enevoado da luz. ambos se entreolharam, tomados por apreensão.
Descortinado então o local, recordaram que, segundo conheciam dos lendários relatos, tratava-se de não outro covil, mas da temível Gueena. Diante deles, a vasta bocarra cavernosa abria-se carrancuda e ameaçadora, cuja escuridão parecia devorar a luz que ousava aproximar-se. Leonadair, vigilante e sempre pronto ao combate iminente, desembainhou sua Akimirus qual, retinindo e refulgindo em luz, pareceu ameaçar as trevas entocada. Do interior, ressoou uma aguda voz gutural, como se fosse o eco da própria terra dilacerada: "Nada mais saboroso que a fresca carne tomada de ingênua ousadia!" e rosnou, sua vibração estrugia a tal modo, que o firmamento celeste pareceu abalar-se.
E da escuridão, brusca e violentamente, avançou Arakthiria, a Potestade corrompida em forma de colossal Aranha, cujos incandescentes olhos dourados faiscavam como relâmpagos em densa treva.
De pronto, ergueu-se entre eles o combate. Leonadair brandia sua lâmina com destemor, e Nyah, ágil como um raio, investia com suas machadinhas. Mas, antes que o embate se aprofundasse, Arakthiria recebe o resvalar do fio agudo de Akimirus. Houve dor lancinante, e o temor assombrou sua compleição. Um trovão ribombou pelos céus, seguido de repentina sequência cintilante do fenômeno, de súbito uma tempestade se forma, como se os alicerces da terra sentisse a presença da criatura. As águas desabaram em torrentes, e o clima revolto denunciou a localização do conflito.
Arakthiria, tomada por esse receio, optou por mudar suas estratégias e recuou abruptamente, refugiando-se novamente nas sombrias entranhas do seu covil. Nyah e Leonadair, porém, não tiveram alívio. Logo, das profundezas da caverna, irromperam as Aracnes — monstruosidades metade aranhas e metade Ninfas, com belos rostos femininos porém, maculados pela corrupção, além de patas e ventres aracnídeos pulsando de um pútrido veneno. A cada instante, mais e mais delas surgiam, cercando os dois guerreiros.
Eles resistiram, dilacerando algumas criaturas, mas as ondas eram incessantes. Exaustos, acabaram encurralados sob o peso das hordas, quando, no auge do desespero, ouviram o eco de passos firmes e vozes conhecidas. O reforço havia chegado, o restante do sodalício encontraram enfim seus amigos. Dhaerown, Malak, Farkas e Lydia, surgiram como raios na tempestade, rechaçando as abominações com aço e arco.
Então, iniciou-se uma sangrenta batalha. O Sodalício combatia em uníssono, mas as Aracnes eram astutas e intentavam segregar o grupo, arrastando-os para diferentes frentes de combate. E no clímax do tumulto, Arakthiria reapareceu, irada, e com um estrondo fez percorrer eletricidade pelas imensas teias que recobriam toda a região, impedindo escape para além daquela região.
A ameaça foi sentida pelo Sodalício, qual por pouco não fora atingido, antes, se dispersaram: Malak e Farkas se viram aprisionados no antro do covil, cuja entrada postava-se grande número de Aracnes; Dhaerown e Lydia se viram rechaçados até as margens pantanosas de Odnenka Zejar, o rio envenenado, onde incontáveis Aracnes surgiram de todas as direções, encurralando-os de igual maneira; Nyah e Leonadair batalhavam sobre os galhos de árvores colossais, mantendo-se vivos apenas pela precisa agilidade e pela ousada coragem, abatendo e desvencilhando-se de enredamentos, circundados por miríades daquela prole, em meio à chuva e aos relâmpagos.
A horda maligna afugentava o sodalício, e neles se via a imagem dos altos heróis, de valoroso espirito combativo e disposto ao sacrifício. Em seus olhos, não havia desespero, não havia sinal de fraqueza, nem tão pouco sombra de insegurança, mas uma firme e inabalável constância, infatigável perseverança. Seu reduzido número não evocava debilidade, mas uma feroz bravura insubjugável. Tamanha impressão causavam, que se ali perecessem, até seus inimigos haveria de reconhecer que não lhes seriam uma derrota, mas um memorial de egrégio feito, pois seu sangue não seria vertido sem alto custo.
Mas como todo valor se ampara na consumação de certa esperança, quando tudo parecia prestes a ruir, a providência descortinou seu auxílio, Arketon enfim se revelou. Surgindo pelas margens do Odnenka Zejar, ergueu Humat'tael, o negro cajado, e canalizou a eletricidade de Arakthiria em sua direção, a ricocheteando em sua prole que estava em combate com Lydia e Dhaerown. Um clarão fulminante rasgou o ambiente, e inúmeras Aracnes foram eletrocutadas no pantanoso rio. Então, com uma imperiosa voz, sorveu para si toda a carga daquelas teias, insuflando em seu báculo a energia que preenchia o ar.
Dhaerown e Lydia aproveitaram o ensejo e correram, apoiando Malak e Farkas contra o aquartelamento disposto contra estes. Enquanto isso, Arketon, em laborioso esforço, mitigava a fúria elétrica de Arakthiria, reorientando a descarga contra o firmamento e, por sua vez, as Aracnes. A Potestade, enraivecida, fixou nele sua atenção desatentando-se da Akimirus, a letal.
Nesse instante, Nyah, aproveitando a distração, lançou suas machadinhas contra a horrenda cabeçorra aracnídea. Mas, ao tocarem a couraça da Potestade, as lâminas se despedaçaram, e uma onda de choque lançou todos os presentes ao chão. Sua tentativa fora frustrada. Arakthiria, então, com mais fúria após ser acertada, cravou seus muitos olhos sobre Nyah, que estava se levantando com esforço, e ordenou que suas servas a devorassem. Desarmada, a guerreira recuou.
Arketon, diante o intento de Nyah, de súbito reflexo e conforme convém a sua classe, angariou perscrutar a razão daquela vã tentativa, e tomado pelas sugestões reminiscentes de sua capacidade, recordara do principio que outrora apreendera em Dovarium. Lembrou-se de que as Potestades não poderiam ser trespassadas por armas vulgares, mas tão somente por lâminas imbuídas de virtude sobrenatural — como a Akimirus, cuja essência guardava poderes arcanos. A mesma vazão de memória, trouxe-lhe à mente o que se dizia das Tríades da Natureza: que surgiram para entoar cânticos capazes de adormecer tais criaturas, por meio de instrumentos forjados por espíritos ancestrais. Então seus olhos fixaram-se na flauta que Malak carregava, reconhecendo nela não mero artefato, mas obra viva de poder antigo. Foi quando Arketon bradou em meio à tormenta:
"Afastai-vos, e ouvi minhas palavras! É vã tal tentame, lâmina comum não poderia penetrar-lhe! É preciso dantes, atenuar o véu-de-guarda!" — Então, clamou a Malak: "A FLAUTA!", - e voltando-se a Leonadair, exclamou: "AKIMIRUS!"
De pronto, Dhaerown, agora pela necessidade, tornando-se o lince Phantom, subia felídeo de galho em galho, e com destreza se adiantou interpondo-se a fim de escudar Nyah, enfrentando a onda de Aracnes que se lançava sobre ela, que estava desarmada. Malak, por sua vez, confuso mas confiando em Arketon, ergueu sua flauta, e com melodia firme começou a minar o campo de energia que protegia Arakthiria, unindo sua harmonia ao cajado de Arketon. Lydia e Farkas o acobertava, resistindo as investidas vorazes dos inimigos. Leonadair, em resposta, tomou Akimirus e, do alto, vendo Nyah se apressando, calculou seu curso lançando a lâmina em sua direção.
Enquanto cada nota fosse entoada e cada raio dela emitido fosse refugado, a proteção da criatura enfraquecia. Os demais do Sodalício distraia as Aracnes, até singrarem pequenas brechas. Foi nesse instante que Nyah, sob o ímpeto do destemor, correu. Saltou dos galhos, agarrou Akimirus em pleno voo e, erguendo-a com ambas as mãos, cravou a lâmina flamejante na fronte da Potestade. A fúria de Arakthiria, canalizada pela Akimirus, se ascendeu em centelhas elétricas que correram a espada até a mão de Nyah, embrasando-lhe a pele com o fulgor inclemente da tormenta. Seus olhos se cerraram, o corpo estremeceu em contrações, e, vencida pela dor e pelo choque, desfaleceu, tombando sem forças nos braços do destino que a aguardava.
Um clarão cegou a todos. Uma onda de choque repeliu o restante do Sodalício, lançando-os exaustos ao solo. O céu se rasgou em trovões e relâmpagos, e a tempestade de raios se intensificou, como se o próprio firmamento proclamasse o juízo de Gueena.
As Aracnes, após Arakthiria expirar, começaram a contorcer-se em agonia. Seus corpos híbridos tremeram, o veneno que pulsava em seus ventres esvaía-se como fumaça negra, dissipando-se com a chuva que lavava o campo de batalha. Então, uma a uma, desvelaram-se do feitiço que as corrompera: a podridão aracnídea se dissolvia, e em seu lugar, belíssimas Ninfas — dentre elas Theríades, Dríades e Náiades — surgiam. Seus rostos, outrora maculados, resplandeciam em formosura natural, e de seus olhos vertiam lágrimas cristalinas, como quem desperta de um pesadelo atroz.
Dessas, cada qual, segundo medida que eram cruéis em outrora, agora, estavam contritas de coração, arrependidas por cederem a má conversação de uma criatura tão vil quanto aquela que as deturpara. Movidas por notório senso de divida, se comprometeram a servir a causa que dantes refugavam. Se comiserando de Nyah, as Dríades exerceram seus dotes fitoterápicos curativos, e restauraram a saúde e aspecto da mão daquela tão estimada combatente. Todos se recrearam, e ali descansaram, tendo por anfitriãs, tão devotas criaturas. As ninfas, se dispuseram depreendendo nisso grande questão, em conhecer cada membro daquela comitiva, e muito se impressionaram quando Malak dissera que era "Amigo da Natureza!" - algo que bastou para se ufanar pelo resto de sua vida - titulo esse, não recebido com tanta surpresa por uma classe de ninfas, uma vez que as dríades, viram na flauta mágica que trazia consigo, a reconhecida marca de Hamerlin, o Senhor dos Sátiros.
N'outro dia, despertaram com o inocente contato do focinho de seus cavalos, que simples e providencialmente desceram o Liek Shnel até encontrá-los a Odnenka Zejar. Estavam novamente a sós, e ali, repassaram todas suas aventuras até ali experimentadas. Arketon, contou-lhes tudo, sua miraculosa convalescência, seu curso e decurso, sobre aquisição de seu cajado Humatael em Vidurá e o poder contido no Ravdostel de Akrivel, como a conversa que tivera com o mesmo, e todo impasse que concorria a aliança real. Explicou-lhe também, do poder que Vaterá detinha, e sua contribuição para serviço ao propósito maior dizendo:
"Vaterá, está sob uma força preternatural cuja única finalidade é prestar socorro a toda ordem natural que clama, de modo tal, que a natureza enxergou em vós no tempo oportuno a qualidade necessária para prestarem auxilio aos guardiões deste lugar. Vocês intentavam seus próprios propósitos, mas o Uno que detém o governo de tudo que se vê e não se vê, os orientou para servir algo maior que vós mesmos, para que não encontrem fim em sua efêmera existência, mas se perpetuem como ecos pela eternidade, entre o panteão dos insignes, atando vosso nome a algo que permanece para sempre, contribuindo para a causa perene. Fora assim que viram-se dignificados a deterem tamanha honra. Não que natureza precisasse de vós, mas para que vós recebessem a outorga e experiência necessária para continuarem ao curso de vossa história. E nisto, devo eu enxergar o ensejo para prosseguir como vós."
Dizendo isto, Arketon, se levantou e erguendo Humat’tael acercou-se do corpo da Potestade. Arakthiria, já inerte, jazia sobre as teias fumegantes, sua essência escorrendo como um rio de energia bruta, ainda viva em sua corrupção. O mago estendeu o cajado sobre o denso sangue, e com entoações ancestrais absorveu-lhe o âmago: um raio de fulgor dourado e violáceo serpenteou pelo ar, precipitando-se sobre a relíquia negra, que o sorveu como se tivesse sede eterna. O Humat’tael estremeceu em poder, faiscando com centelhas e pulsando como um coração vivo. Assim, a essência da Potestade foi aprisionada e canalizada, selada nas entranhas do cajado, tornando-o ainda mais temível e poderoso. No momento que fitava seu cajado agora fortalecido com Hantsá, sentiu-se o sopro de um vento veemente do norte seguido do rimbombar de um trovão, que selara sua prática. Arketon, agora, não apenas um artificie de cajado, mas senhor do Báculo de Vidurá. A fim de experimentar a demonstração de seu poder, estendeu seu negro cimo rumo aos céus, toda nuvem pulsou com alva claridade, as densas nuvens se dissiparam, cessando as últimas gotas de chuva.
"Por piedade, amigos da natureza...
Por admiração a vossa presteza
que recorro ao vosso socorro
Salvem do perigo, no pântano está meu povo.
Ao sul padecem, e expiram em liça mortal
Rogo-vos vossa arte, sem demora e vem, contra a raça letal"


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