A brisa assopra úmida no rosto recém desperto de Malak, os raios de sol matutino, listravam-se com as sombras a dentro de uma jaula, onde o jovem batedor se encontrava.
O desespero quis lhe abater, percorria com inquiridor olhar, as amarras de seu claustro. Controlou-se, e a maneira de Malak, assaltado pela imprevisibilidade, achou graça de si mesmo em desespero. Seus captores logo apareceram os terrivelmente admiráveis Sátiros - como eram denominados pelos Homens. Vinham empunhando maças rústicas, e com eles, as conhecidas Dríades, tão curiosas, que logo estavam sob a gaiola fitando sua presa. Todos estavam com feição surpresa, e olhares duvidosos. Sabiam que se tratava de algo que pouco conheciam, e isso, os instigavam.
Dentre os Sátiros, o mais alto, após grunhidos, disse aos seus, em uma língua bem inteligível — o que impressionando-o, atou a atenção de Malak:
Ao que outro replicou:
E então, em uníssono, de todos se ouviu como de uma só voz:
“Oh! Criatura, de onde vens tu e o que há de ser?”
Malak, suspirando e se intentando ajeitar-se a uma maneira apresentável — da melhor maneira que pôde, disse:
As criaturas coçaram suas cabeçorras peludas e ouviu-se uma das outras:
“...Eis que vejo, deveras ele canta como nós!” — Completou outro Sátiro estupefato.
Dentre eles, aquele que parecia principal dentre os Sátiros, tanto pelo seu porte de maior robustez quanto pela maneira como outros o olhavam, disse:
Malak, fitando-o atentamente, respondeu sonhador:
Havia entre os Sátiros, um do tipo esguio, que parecia segundo vossa espécie, um mancebo. Tal disse algo despretensiosamente que todos o reprenderam, das palavras, Malak discerniu:
Deste furo, um ensejo. Malak entendera. E então teceu:
O chefe Sátiro meneou seu rosto de longa barba e disse ríspido:
Malak, intentado velar seu espirito empertigado, manteve-se em postura e retomou:
O Sátiro mancebo, prevendo que o único meio de expressar o talento seria, naquelas circunstâncias o canto, disse jocoso:
Todos os Sátiros riram maliciosos.
Malak, ignorando-os, ajoelhou-se naquela gaiola, encerrou os olhos se permitindo ater-se ao farfalhar das folhas, o afanar da brisa, o odor da relva úmida. E então, tomando de sua antiga memória, um canto que em uma de suas incursões ouvira na floresta, arriscou sob a inspiração dos sentidos, assobiando acordes tão bem harmoniosos, que a magia do que é belo fora evocada, e invadiu cada coração que ali estava, rendendo de todos o espirito.
Não havia entoado meia dúzia de notações, Sátiros escumavam com olhares em longa jardas, e Dríades adormeciam extasiadas.
O principal dentre eles, fitando Malak, com mais dúvidas do que outrora manifestava, disse consigo mesmo:
Malak, duvidoso de tão inesperada reação, disse: "Tão somente porque entoei é que acrediteis? Por acaso não há entre vós quem entoe de maneira mais excelente?"
O jovem Sátiro, completa, porém, não mais em tom jocoso ou inocente, como sempre parecia alternar, mas agora com uma autoridade que lhe conferiu admirável e distinta gravidade:
Então, por fim, ouviu-se a imperiosa voz do principal:
"Libertem, tal filho de homem!" - disse para os seus, antes de indagar a Malak: "Para quê viestes e em nome de quem?"
Diante de tal nome, não houve Sátiro, Dríade, árvore e vento que deixara de se calar por temor e reverência.
"Pois bem, caro homem..." - Começou o principal, mas fora interrompido! Pois Aracnes invadiram os salões naturais sob as frondosas árvores, Malak correu - mas não para desertar, como alguns supuseram ao vê-lo reagir de súbito - mas para livrar o jovem Sátiro, então estático de susto, da reta de ataque da invasora, isso fazia, ao mesmo tempo que agilmente desembainhava uma adaga oculta de sua botina, pouco antes de lançá-la com precisão milimétrica a direção da fronte da Aracnídea criatura. Qual caíra morta aos seus pés. Mas Malak não se deteve em cessar o movimento, mas com meia rodeada lançara o outro par de sua adaga contra a corda que pendia a jaula - que distava meio tiro de arco. Tal cedeu com estrepito, aprisionando a última besta com risco de ameaça naquela contingência, livrando do alvo uma Dríade, que por pouco, não fora contada entre as vitimas de rapto.
Foi uma sequência de movimento tão rápida de uma habilidade tão eximia, que para todos, ele venceu dois inimigos e salvou dois - agora amigos - simultaneamente. Fora apenas naquele dia, em toda história, que as dríades se apaixonaram por um homem.
Malak mesurou, e tomando a flauta, assentiu com a cabeça dizendo:
"Mesmo que eu nunca me tome digno do encômio de insuflá-la com meu fôlego, de vossa agnição me orgulharei até o último dia de minha vida, e saiba, que eu a portarei como diadema na fronte! Agora pois, amigo, recorrendo a sabedoria que provaste usufruir, rogo-te orientação da minha missão... Vistes ou ouvistes algo a respeito de quatro varões e duas donzelas, seriam guerreiros perigosos aos vossos olhos, estariam por essa banda?"'
Os Sátiros trocando olhares uns com outros, disseram:
"Pois bem" - disse Malak, indo até a criatura que se debatia na pesada jaula - "Prole do que desconheço! Ouça-me... para quê viestes? O quê procuras? Responda e por palavra de homem garanto-te boa vontade!"
"Para trás, criatura medíocre! - gritou a Aracne - de tua palavra nada quero, mas sua carne me é desejosa! Se não devoro a ti, as minhas devorarão os seus..."
"Muito bem - pensou Malak - ela conhece que há mais dos meus, e me informa que ainda não foram devorados, mas estão em risco deveras..." - neste momento, a Aracne começou a se debater, não com ira, mas com medo, tapou os olhos com as garras e berrava: "Salvem a mãe! Pomo leonino, lâmina de fogo, há dor pior que a morte!" - ao concluir sua ode, ouviu-se trovões rasgarem o céu ao sudoeste daquela terra, e Malak, enfim entendera dos sátiros:
Malak compreendera, mesurando e despedindo-se lacônico e atônito, se pôs a agradecer a todos, dizendo para consigo mesmo:
"Ao sudoeste! Meu senhor Leonadair, e não outro, está na teia do mal..."



Nenhum comentário:
Postar um comentário
~ Esta obra se encontra em desenvolvimento, assim sendo, é de prezada valia a opinião dos leitores. Colheremos todas as críticas, desde que tais sejam construtivas, no intuito de proporcionar melhor experiência de leitura. ~