Prophetheia - Capitulo XXX

    A brisa assopra úmida no rosto recém desperto de Malak, os raios de sol matutino, listravam-se com as sombras a dentro de uma jaula, onde o jovem batedor se encontrava.

    O desespero quis lhe abater, percorria com inquiridor olhar, as amarras de seu claustro. Controlou-se, e a maneira de Malak, assaltado pela imprevisibilidade, achou graça de si mesmo em desespero. Seus captores logo apareceram os terrivelmente admiráveis Sátiros - como eram denominados pelos Homens. Vinham empunhando maças rústicas, e com eles, as conhecidas Dríades, tão curiosas, que logo estavam sob a gaiola fitando sua presa. Todos estavam com feição surpresa, e olhares duvidosos. Sabiam que se tratava de algo que pouco conheciam, e isso, os instigavam.

    Dentre os Sátiros, o mais alto, após grunhidos, disse aos seus, em uma língua bem inteligível — o que impressionando-o, atou a atenção de Malak:

“Desta raça de barro, pouco conheço...
Dúvidas nublam mente, que disposição ofereço?”

    Ao que outro replicou:

“Pergunta-lhe qual natureza, e assim há de ver!
Pois contigo, a este, todos queremos conhecer...”

    E então, em uníssono, de todos se ouviu como de uma só voz:

“Oh! Criatura, de onde vens tu e o que há de ser?”

    Malak, suspirando e se intentando ajeitar-se a uma maneira apresentável  da melhor maneira que pôde, disse:

“O que mereço? Ser ou convencer?
Decerto, padeço! Donde fui me meter?”

    As criaturas coçaram suas cabeçorras peludas e ouviu-se uma das outras:

“Vejam! Sempre vos disse que não estávamos sós!”
“...Eis que vejo, deveras ele canta como nós!”  Completou outro Sátiro estupefato.

    Dentre eles, aquele que parecia principal dentre os Sátiros, tanto pelo seu porte de maior robustez quanto pela maneira como outros o olhavam, disse: 

“Temerariamente precipitam-se em julgar
Os tempos mudaram e como nós, qualquer um pode falar
Veremos seu espirito: Ei tu! Podes nos entender?
Ou não queres nos responder?”

    Malak, fitando-o atentamente, respondeu sonhador:

"Se este é o caminho que me concederá enfim descer
Vos direis com prazer!
Mas se a resposta encomendar-me a morte, o que hei fazer?"

Havia entre os Sátiros, um do tipo esguio, que parecia segundo vossa espécie, um mancebo. Tal disse algo despretensiosamente que todos o reprenderam, das palavras, Malak discerniu:

"Que então saibam todos os detidos! 
Zelamos tudo o que é belo aos sentidos..."

Deste furo, um ensejo. Malak entendera. E então teceu:

"Pois então alentem-se seus espíritos,
Atentem seus ouvidos! 
Emprestam-se tal flauta e fitem pelos sentidos...
A musa lírica dos campos floridos!"

O chefe Sátiro meneou seu rosto de longa barba e disse ríspido:

"Teu aparente engodo revela-nos o que em ti há dentro
Nego a ti, o uso de qualquer instrumento
Que garantia há de que não se valerá de feitiço, lamento!
Que recorra a sua própria natureza, teu suposto talento!"

Malak, intentado velar seu espirito empertigado, manteve-se em postura e retomou:

"Não temo peleja, mas se há equidade em ti, ouça! Pois que assim seja!
Se eu impressioná-los, dirá enfim: Ganho entre os homens, um amigo!
Se eu aborrecê-los, não há de encontrar outro, se não um ferrenho inimigo!"

O Sátiro mancebo, prevendo que o único meio de expressar o talento seria, naquelas circunstâncias o canto, disse jocoso:

"Do pássaro virá um canto! E como pássaro este for!
Que ironia! Pois se encontra onde os homens sempre os intentam pôr!" 

Todos os Sátiros riram maliciosos.

Malak, ignorando-os, ajoelhou-se naquela gaiola, encerrou os olhos se permitindo ater-se ao farfalhar das folhas, o afanar da brisa, o odor da relva úmida. E então, tomando de sua antiga memória, um canto que em uma de suas incursões ouvira na floresta, arriscou sob a inspiração dos sentidos, assobiando acordes tão bem harmoniosos, que a magia do que é belo fora evocada, e invadiu cada coração que ali estava, rendendo de todos o espirito.

Não havia entoado meia dúzia de notações, Sátiros escumavam com olhares em longa jardas, e Dríades adormeciam extasiadas.

"Grande espirito! Este não é outro se não o pássaro do antigo mito!" - disse um dos Sátiros. Que foi por outro continuado:
"Como dito: Eis um Pássaro dos verões.
Com coração cantarolava, e arrolava em seu canto os corações!"

O principal dentre eles, fitando Malak, com mais dúvidas do que outrora manifestava, disse consigo mesmo:

"Ninguém pelo espírito fará maldição ou dirá: Maldito! 
Da mesma forma que não será venturado e não declarará: Bendito!, senão pelo espírito.
Se segundo Steingeists, este canta e anda...
Conhecido destes e com a benção deles, este anda e canta!"

Malak, duvidoso de tão inesperada reação, disse: "Tão somente porque entoei é que acrediteis? Por acaso não há entre vós quem entoe de maneira mais excelente?"

O jovem Sátiro, completa, porém, não mais em tom jocoso ou inocente, como sempre parecia alternar, mas agora com uma autoridade que lhe conferiu admirável e distinta gravidade: 

"Não porque tu entoastes, mas porque não há entre nós quem ouse entoar o que tu tens entoado
Enfim, deveras que nos venceste, tens nos impressionado!"

Então, por fim, ouviu-se a imperiosa voz do principal:

"Libertem, tal filho de homem!" - disse para os seus, antes de indagar a Malak: "Para quê viestes e em nome de quem?"

"Eu, venho em prol dos que clamam socorro, os meus irmãos... 
Eu venho em nome de nosso Pai, o Uno, qual detém tudo em suas mãos!"

Diante de tal nome, não houve Sátiro, Dríade, árvore e vento que deixara de se calar por temor e reverência.

"Pois bem, caro homem..." - Começou o principal, mas fora interrompido! Pois Aracnes invadiram os salões naturais sob as frondosas árvores, Malak correu - mas não para desertar, como alguns supuseram ao vê-lo reagir de súbito - mas para livrar o jovem Sátiro, então estático de susto, da reta de ataque da invasora, isso fazia, ao mesmo tempo que agilmente desembainhava uma adaga oculta de sua botina, pouco antes de lançá-la com precisão milimétrica a direção da fronte da Aracnídea criatura. Qual caíra morta aos seus pés. Mas Malak não se deteve em cessar o movimento, mas com meia rodeada lançara o outro par de sua adaga contra a corda que pendia a jaula - que distava meio tiro de arco. Tal cedeu com estrepito, aprisionando a última besta com risco de ameaça naquela contingência, livrando do alvo uma Dríade, que por pouco, não fora contada entre as vitimas de rapto.

Foi uma sequência de movimento tão rápida de uma habilidade tão eximia, que para todos, ele venceu dois inimigos e salvou dois - agora amigos - simultaneamente. Fora apenas naquele dia, em toda história, que as dríades se apaixonaram por um homem. 

"O dote provou o herói novamente e por fim! 
Vá com nossa paz, e se no caminho encontrares dentre os nossos, se apresente por mim!
Entoe nesta flauta o que já provaste conhecer, e todos enfim o reconhecerão, 
Os amigos a vossa amizade, e os inimigos a vossa autoridade, mormente então!
Eu, Hamerlin, outorgo a ti, pela louvável presteza...
O benquisto título de Flautista Mágico, amigo-da-natureza."

Malak mesurou, e tomando a flauta, assentiu com a cabeça dizendo:

"Mesmo que eu nunca me tome digno do encômio de insuflá-la com meu fôlego, de vossa agnição me orgulharei até o último dia de minha vida, e saiba, que eu a portarei como diadema na fronte! Agora pois, amigo, recorrendo a sabedoria que provaste usufruir, rogo-te orientação da minha missão... Vistes ou ouvistes algo a respeito de quatro varões e duas donzelas, seriam guerreiros perigosos aos vossos olhos, estariam por essa banda?"'

Os Sátiros trocando olhares uns com outros, disseram: 

"Não vimos, nem ouvimos, mas não ficará sem respostas quanto a isto,
Pois a sorte é contigo, visto que dentre todas as criaturas, aquela aracne é sinal disto, 
Temos certeza... 
Pois sua empreita nessa banda, não é próprio de sua natureza!
Venha e se valha da sutileza, e algo encontrará 
Decerto que de sua incomum visita, algum vestígio te dará" 

"Pois bem" - disse Malak, indo até a criatura que se debatia na pesada jaula - "Prole do que desconheço! Ouça-me... para quê viestes? O quê procuras? Responda e por palavra de homem garanto-te boa vontade!" 

"Para trás, criatura medíocre! - gritou a Aracne - de tua palavra nada quero, mas sua carne me é desejosa! Se não devoro a ti, as minhas devorarão os seus..."

"Muito bem - pensou Malak - ela conhece que há mais dos meus, e me informa que ainda não foram devorados, mas estão em risco deveras..." - neste momento, a Aracne começou a se debater, não com ira, mas com medo, tapou os olhos com as garras e berrava: "Salvem a mãe! Pomo leonino, lâmina de fogo, há dor pior que a morte!" - ao concluir sua ode, ouviu-se trovões rasgarem o céu ao sudoeste daquela terra, e Malak, enfim entendera dos sátiros:

"O mal teme a ameaça, e sobre si, curva o próprio tempo,
Está apreensivo, e ao seu inimigo, próximo, está atento!"  

Malak compreendera, mesurando e despedindo-se lacônico e atônito, se pôs a agradecer a todos, dizendo para consigo mesmo: 

"Ao sudoeste! Meu senhor Leonadair, e não outro, está na teia do mal..."

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