Prophetheia - Capítulo X

    Rumo ao fusco horizonte, Farkas, em veloz cavalgadura cruzava os campos víride do Leste, sentindo o toque da brisa gélida que prenunciava uma noite ornada de estrelas; seu escudo posto atado ao dorso, como se despedindo do sol, refletia o céu magenta do Oeste esvanecer em sua face. Desta maneira fora que Farkas, mergulhando nos pensamentos de rememoria, recordou-se do rosto daqueles que amava, e dos tempos pacíficos de outrora, e assaltado assim, pela desesperança, consumiu-se de triste saudade, o que lhe fez minar as lagrimas sob uma angustia tão aflita, que tombando da montaria, pôs-se a chorar de joelhos; solitário em meios aos rasos prados infindos, donde encontrava-se perturbando sua própria mente com as incertezas. E aos soluços, olhou tenro ao seu cavalo, e como se esse o entendesse, Farkas exprimiu: “Decerto que morreremos – e virando o rosto a oeste, continuou já tomando um folego profundo – mas por eles devo tentar! Nem que eu morra antes de todos! Afinal, por qual razão devo viver, se não há pelo o que lutar? E se a vitória não está no resultado, mas no intento, já vencemos, mesmo que nosso fim seja iminente, pois lutamos pela causa correta”; ora, seu cavalo continuava deleitando-se no pasto sem parecer se importar, Farkas, baixou a cabeça e meditava alheio ao tempo apropriado, até que então, seu cavalo após um relincho fogoso, encostou com o fuço seu rosto cabisbaixo, Farkas, naquele momento, despertou, e foi apossado de uma coragem além do mensurável e alçando-se sobre a sela, o cavalo comungou-lhe o espirito e se pôs a cavalgar numa presteza admirável, consumindo um quarto de milha num mediato de segundo. 

    Porém, chegando na falda da crista rochosa, em seu sopé entre os braços sul da cordilheira, Farkas, contemplou a alva nevasca que abrupta, castigava as faces negras dos múltiplos espinhaço a sua frente, e temeu, mas não por si, mas pelo seu estimado cavalo, assim, afanando a crina deste, disse-lhe: “Não posso te pôr em risco por uma causa que nem sequer podes entender; mais provável sorte para ti será se retornares, sem conhecer o risco, do que avançar diante um risco visível; portanto, vá meu amigo! E se não encontrares alguém que zele o seu cuidado, seja livre.” O cavalo, desta vez, encarava-o estático, resistindo a ordem, mas Farkas o tocou com um brado bruto, velando um coração flagelado.

    Farkas então continuou sua empreita só, e após fitar o desafio adiante, cruzou a nevasca flagelante, ponderando os riscos do perigo. Quando estava próximo do braço norte de Khro Nogaak, observou acima das nuvens uma águia crocitando como advertisse algo, admirou, mas não se deteve, pois o afã de consumar a empreita o impelia. Após transpor entraves e cômoros soterrados pela densa alvura, pôde enfim ouvir, como se o sopro o trouxesse novas que esperava, um tilintar de ferro em pedra ecoando do Noroeste, Farkas sorriu, não deixando de manifestar seu alivio e então, guiando-se pelo tal ruido, deixou-se levar, e próximo do vivido som, se deparou com um montículo rochoso, não se demorando, o escalou; ora, quando alçou defrontou-se com o magnânimo monumento, ali, pôde contemplar a impressionante e imponente Oramar, a negra fortaleza dos anões, esculpida na face leste de Darastrix Verthicha.

    Pôs-se a toda pressa em achegar de fronte ao fusco portão, e numa distancia de um tiro de pedra, ouviu-se o que parecia o atalaia, um robusto anão ruivo, o qual sob um tom ríspido e rude, o tratou nessas palavras: “Ei tu! És muito alto para ser bem-vindo! Ordeno que pare e diga-me quem ousa postar-se armado frente aos portões do Império? seja breve, meu machado é impaciente e está sedento em partir cabeças!”, Farkas de mediato estampou no rosto um semblante descontente, mas respondeu de forma branda: “Sou Farkas, cavaleiro e súdito da terra aliada a vós Arkoudarium! Não porto lâmina para ofendê-los, longe disto, venho antes, a fim de convocar-vos a brandir conosco as vossas espadas pela paz, a qual é nossa e vossa causa!” o anão riu e respondeu num tom jocoso: “Não és um mensageiro percebe-se, pois vou dizer-te, e atente-se: não se diz à atalaia o que pretende tratar, sua anta! enfim, pouco me importa o que deseja, mas sei quem gostará de se importar... ordeno que aguarde!” – O anão então desceu o degrau e sumiu das frestas entre as ameias da muralha.

    Ora, Farkas era paciente, mas já passara a se pôr em controlar a ira de indignação contra todo aquele enfado. E assolado pelo hálito frigido, pôs-se a assentar ao lado de uma imensa pedra que barrava o sopro congelante; então, das muralhas ouviu-se e viu-se um movimento (Somente a ponta de um chapéu bordô podia ser visto cruzando as frestas), e do mesmo lugar que outro estava outrora, apareceu um anão de barba negra, de alegre aspecto gritando: “Feliz dia, amigo!” E quando fitou curiosamente Farkas, bradou em pasmo: “Pelas barbas de bode! Parece-nos muito alto para ser bem-vindo, mas mesmo assim, por acaso, se importaria de dizeres o que tu queres, amigo não bem-vindo?” 

    Farkas, já oscilando o tino pôs-se a dizer: “Venho rogar a vossa ajuda! O mal se alastra e o inimigo avança depressa, lute conosco pois...” – “Só um minuto amigo! – interrompeu-o o anão, e quando desceu o degrau ouviu-se o ruivo dizer: “Um está resfriado, outro dormindo, outro dançando e ainda outro de dengo, quem chamará?”

    “Ora bolas! o que resta!” – respondeu-o barba negra, o qual num lépido partiu de onde veio, correndo e dizendo em alta voz para Farkas: “Em lesto regresso amigo não bem-vindo!” 

    Farkas, ponderando um surto, suspirou profundamente; e após passar-se o dobro do tempo que dantes havia aguardado, apareceu dentre as ameias, um outro anão, este, era de elevado porte, e pendia-lhe uma barba alva; quando o tal fitou Farkas, disse para os seus: “Ele é muito alto, não abra os portões...” – e então elevando a voz dirigiu-se a Farkas – “Diga-me homem, a que vieste? Comigo é que deves tratar”

  Farkas, após mesurar, ao perceber que este era finalmente o superintendente, disse-lhe:

    “Senhor anão! Venho em nome dos homens suplicardes a graça de vossa força, pois temos sabido que outrora, como tem nos contado o passado, amolou vossos machados para trincá-los em nossa causa, agora, mais uma vez, rogamos o bem dessa aliança, da qual, se cumprirdes, não deixarão de serem bem honrados, recebendo a recompensa de vosso mérito, em infindos dotes para vossa glória”

    “Mas também é sabido, nobre cavaleiro – retrucou-o o anão mestre – que é por culpa dos homens que há causa em ser pleiteada, portanto, lutem sozinhos a própria guerra que começaram, e tratem de enterrar o inimigo que de vós mesmos nascestes, não levarei teus rogos a ciência do meu rei Thrummaz, filho de Dhrummaz, pois já nos preparemos para partir ao norte-além, esta terra tornou-se doente, após os homens aportarem o sul; nada pessoal cavaleiro, mas já estamos fartos de vossa raça; apodreçam no mundo que apodreceram!” – e quando virou-se para partir, parou, e retornou os olhos a Farkas dizendo – “Mas para não saíres considerando-nos de todo sem misericórdia, amanhã quando não estivermos mais aqui, esta montanha será um bom lugar para sepultar vossos mortos” terminando tais palavras, Farkas, como o ignorando-o, pôs-se a inquirir sobre o que a tempo matutava: “Tão somente mestre anão, sane uma questão que me aflige!”, o anão sem se demover concedeu sob um langor: “Diga”, Farkas sem demorar interpelou: “Onde dormita a fera de fogo? Sei que só vós sabeis”; os anões, após um mediato susto, cerraram os olhos e menearam as cabeças, o anão mestre sussurrou para os seus: “Será que eles não se fartam do caos?” – e suspirando fundo alçou voz respondendo num tom enigmático: “Frente o momento em que a estrela de fogo põe-se a dormir... dormita o pai do fogo; diante a falda do solo escuro, eleva-se a porta para o lar da escuridão”, como se tais palavras esgotasse suas forças, ao conclui-las, o alvo anão voltou deprimido, assolado por uma reminiscência velada aos alheios de si, desta maneira fora que adentrou um fusco portão esculpido numa rocha alvejada pela nevasca.

    Farkas desolou-se, e assentando-se em solo, meditava profundamente; até que fora interrompido pelo eco de passo breves, era o anão de barba negra, com um prato de prata e uma caneca de lenho, este, abrindo o portão menor da torre atalaia, veio de encontro a Farkas, e estendendo a ele a refeição comentou em um timbre como se aconselhasse: “Já que é vosso fim, e não tem jeito, que vá meu amigo de barriga cheia! Assim, poderá cerrar a última vez os olhos, encerrar o folego sem deixar de estampar no semblante um sorriso implacável!” e findando tais palavras, voltou breve como veio. Farkas perdeu-se num misto de sentimentos, não sabia se jugava engraçado, ou curiosa a atitude, de tal engraçada e curiosa criatura, ou se então, deprimia-se pelo recordado ou se animava pela agradável refeição.

    Como um lambaz, Farkas logrou os viveres num lapso; avigorando-se além da medida, visto que a sonolência lhe acorrentou ao afã de repouso; após o regalo, buscou um antro de uma cava para estribar-se, e encontrando-a, ali descansou.

    Em meados do transcorrer da noite, foi desperto, o que o encorajou a pôr-se na empreita do retorno. Farkas, demonstrava uma resistência e disposição além da razão, nutrida pela afetuosa lembrança de seus diletos; escalava e saltava margeando a encosta do flanco que resguardava do látego álgido, porém, o adverso lhe aguardava, visto que no limiar do alvorecer um tremor abalou os fundamentos, disso, as geleiras desprenderam dos pináculos, e Farkas, quando alçou o olhar a fim de fitar a queda que lhe sobrevinha, percebeu novamente o piar da ave, e cerrando os olhos, deixou-se sepultar pela densa alvura.

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