Ali, um cavaleiro se deparou com uma clareira, à qual chamava-se Haletá, de súbito seus sentidos se abalaram ao então ver que a lenda era real; hesitou, recordando as histórias de um tal mago muito hostil; absorto em suspense mas resoluto, e impelido mais por curiosidade que por senso de dever, desembainhou a espada e desceu de seu grande cavalo, temeroso, lentamente avançava rumo a humilde moradia, quando estava a distância de um tiro de pedra, uma impressão o acometeu, o farfalhar calou-se, a brisa que antecede o vento cessou, o cavalo afastou-se em silêncio, e o sol nasceu, os primeiros raios tocou a lâmina da espada e essa reluziu chamando a atenção do cavaleiro que a empunhava, neste instante, logo de trás, sob as sombras das árvores da banda sul da clareira ouviu-se uma voz, era grave e mansa, potente mas gentil.
- O brilho da lâmina encanta! A fim de qual propósito pretende manchá-la com um sangue velho? Por acaso não temes o juízo que vem sobre todo aquele que obra o mal contra quem foge da aparência do mesmo?
O hábil batedor em um ato veloz virou-se como uma serpente em bote e encarou a figura daquele que proferiu as palavras, era Akrivel, o Krivonterion, dos mitos contados às crianças, estava em pé e de túnica marrom e manto negro, capuz e cajado a mão esquerda, o qual apoiava de maneira a vontade, e na mão direita tinha um grande livro fechado de cor preto com feixe dourado; o cavaleiro ignorando a pergunta do velho, inquiriu em nome do reino que servia:
- Quem és tu? e o que fazes na terra do alto rei?
Akrivel, lentamente assentando-se em um toco largo de tronco, e apoiando o notável livro sobre a perna direita e encostando o cajado em um galho menor, recolheu a mão esquerda e a colocou sobre a capa do livro; e desviando o olhar para a sua cabana, logo a frente, respondeu, em tom pensativo:
- Quem sou? proponho-me um dia descobrir, mas o que sei te digo, sou aquele que nasceu sendo velho, sou quem admirou a última folha desta floresta tocar o solo, sou quem contemplou o primeiro desabrochar das flores desta clareira; sou aquele que tem atado por sina, aquilo que todos temem sofrer; sou aquele que fez da solidão uma companheira, e das companhias uma memória a esquecer; sou Akrivel, o ninguém, dantes mestre de mestres, isto é o que precisa saber, mas o que já dizem sobre mim pode te responder; quanto ao que faço? perscrutei em desvendar, mas ainda não encontrei; faço o que outrora fui, porém hoje, sou discípulo do saber e por mestre tenho o conhecer. E sobre a terra do alto rei, inquirir-te-ei eu, como pode a terra ser dele, se da terra ele proveio e a terra tudo lhe provê? E se a origem de ambos é a mesma, o alto não é ele, mas a terra e ele é do alto.
O cavaleiro, embainhou a espada, e retrucou rindo em desdém:
- Dizem de fato que és louco, mas tagarela metido a poeta? Gostarão de saber. - Akrivel, abaixou os olhos direcionando-o ao livro e sorriu meneando a cabeça, neste momento, o batedor o inquiriu novamente, curioso diante um ser tão peculiar: - Diga-me velho, o que te fez escolher esse tipo de vida?
O Barba gris, voltou-lhe os olhos e respondeu de forma branda:
- Pesei na balança os caminhos, e julguei que este o qual intentei seguir é mais vantajoso, pois mesmo cobrando-me o preço de sepultar os títulos, privando-me de vãs estimas, agraciou-me com paz inestimável e um coração cheio de valiosa alegria.
O cavaleiro refletiu, e fitou os olhos naquela realidade que surpreso não deixou de admirar, e por um momento, aliviado por ver que o incerto que dantes temeu era somente alguém inofensivo mergulhado em sua própria filosofia, pelo velho elevou a consideração. E despediu, já montando no cavalo:
- Pois bem ancião, devo ir, cuide-se! e de minha parte aconselho-te procurar lugar mais seguro, pois há rumores que criatura hediondas do Sul maquinam contra nós, uma maligna era se levanta dizem nossos sábios, e os dias são negros, patrulhas dos homens hão de vir, mas nada farão a ti, passar bem!
E assim tocando o calcanhar apressou o cavalo que num salto iniciou a jornada de retorno. O velho assentiu com a cabeça, e meditou nas palavras vendo o cavaleiro cavalgar rumo ao norte, e falou em sussurro para si mesmo:
- Sim, meu nobre jovem, a noite há de vir, e é necessário que venha, pois a hora do dia mais admirável de se contemplar é da manhã, de quando o brilho do sol vence a escuridão da noite; não há eterno gozo que preceda uma temporária tribulação. - Neste momento Akrivel se levanta, toma o cajado e apressa o passo até adentrar a cabana, coloca o livro sobre uma escrivaninha, o abre, e após folhear algumas páginas, toca a ponta do dedo em uma página amarelada de muito uso e o corre pelas linhas letradas. - Sim! está escrito, e é profetizado que uma glória de excelsa luz há de raiar em nossos dias antes do fim, mas não antes que a sombra austral encubra os quatro ventos da terra.
Rumando a direção do olhar a janela, uma nuvem tempestuosa cobria o sol recém-nascido, e uma chuva leve e aconchegante acinzentava a visão de fora; uma sensação de segurança sobe ao coração do sábio; acende a lareira, senta-se na poltrona; toma fôlego e empreende um estudo.

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