Naqueles dias, o povo desfrutava de relativa paz, seja pela sensação que o alivio pós tribulação exprimia, quanto pela segurança em que usufruíam, lograda mediante tamanha manifestação de força e poder que vosso altivo rei demonstrara, qual por sua vez, aspirou em seus súditos o mesmo espirito que o inspirara.
Em meio aos festivais e o ébrio da fartura, Arkinarium consolidava-se no solo do coração de seu povo; passando a ser tida por terra áurea, a magna feraz, de gris a alva pelo brilho de sua glória.
Foi gozando deste esmero, que o povo ouviu um clamor ecoar; em sete cantos da cidade, simultaneamente, o gemido dos vates foi ouvido, e sob lamurias e lagrimas, lamentavam numa só voz:
Dentre esses que profetizavam, havia um na torre da universidade Arcana, um jovem que enquanto clamava erguia o Sacro Oráculo. Todo povo fitava inerte de assombro, das reações, houve aqueles que em desespero, lançavam-se em seus botes a fim de fugir, frenéticos, como acometidos pela cegueira do medo; outros, cerravam os olhos intentando conformar-se ao destino, ponderando com inexprimível pesar o terror que passaria a aguardar, além destes, havia ainda os céticos, os quais murmurando, davam de ombros e concluíam ser efeito de mosto ou quando não, tomavam o ocorrido por algum infanto ensaio dos jocosos.
O rei, em silêncio, ponderava as palavras, sem manifestar os seus pensamentos, a fim de não nutrir a balburdia ou alvoroço, mas no recôndito de seu coração, temia, e instigava-se ao afã de julgar como devaneio, mas quando não se convencia, tremia ao cogitá-la como verdade, e assim, entre medos e anseios, atormentava-se; estaria negligenciando uma advertência? Ou estaria vãmente dando crédito ao engano?
Em não muito tempo após, o rei encontrou-se acometido por enfermidade, e nada operou desde então, até que, sendo informado pelos curandeiros que pelo seu estado, o fim de seus dias estavam a porta, o rei apressou-se e ordenou aos magistrados que seu filho Hemidim, o mais novo, seria rei, e não Hatanatu (pois julgava-o inapto por natureza); pela ordem, todos assentiram, embora em secreto havia quem não consentira, mas operou-se segundo o desejo real.
O rei, Hamadi II, o Reformador, expirou seis semanas após a lamúria dos vates e a coroação de Hemidim, o Jovem, fora organizada para o décimo segundo mês, adiada a este tempo por luto a casa dos príncipes.
Daqueles inimigos do bem comum, expulsos na vigência do finado rei, puseram-se a vagar nos ermos, encostas e nas montanhas das terras do sul, até que dentre eles, Havad e Kahi, engodaram-lhes o desejo de vingança e uniu-os sob o mesmo lábaro, rumando-os a Leste, a fim de buscar auxílio na fortaleza fantasma de Hamazim.
Migraram por seis semanas, e ali, sobre a brumosa montanha de Al-lumatsank entre as nascentes de Drún e Brún, juraram e conjuraram lealdade a chamada irmandade sombria – nas crônicas, é a esse episódio que denominam “o pacto dos pandemônios”, ou “Sunúm-ekrat”, na má língua – invocada sob o juramento de Havad, o qual intitulou-se Abadom, o pai da morte; e Kahi, que por sua vez referiu-se como Apolium, filho da ruína; ali, ambos, prestaram culto ao ídolo de Sakratum, o amaldiçoado.
E deste, é quem os bruxos da seita aprenderam e aperfeiçoaram-se na arte da magia negra, além de arquitetarem maquinações, traçarem meios e fins para a prática de seus planos vis. Mergulhados em escritos nefastos, de escritores hediondos, fórmulas ominosas em má linguagem; chafurdavam-se a toda sorte de ensinos macabros sob o ébrio de fetiches. Havia entre eles, aqueles que entregavam-se a tortura, a ponto tal, de ao látego de açoites abrirem as entranhas, e ainda, sob efeito de narcóticos, devorarem suas próprias vísceras, encerrando-se sob o suicídio, ceifando a luz de seu ser; tudo sob o propósito de canalizar dor em ódio, a fim de que, quando necromanciados, pudessem transfigurar sua natureza envenenada ao planos dos mortos.
Tão funesta e execrável prática, não só corrompiam suas almas, como erradicavam a menor fagulha de bem que algum dia pudessem possuir; tornaram-se deuses de si próprios, e nada fitavam o que não desejassem macular, destruir, desolar ou controlar, dominar e subjugar a sua caótica maneira de reger.
Apolium, Abadom e seus bruxos, por seis meses sepultaram suas almas, tornando-se demônios; até que enfim, em seus mapas astrais, Abadom encontrou o dia exato para o rito do portal inferi, e os meios para obra-lo, ali se reuniram e planejaram como proceder; havia um grande jogo de interesses entre eles, e o trato fora selado; Sakratum lhes confiara a pedra d’alma de Hamazim, pois dali não poderia sair, até o dia em que erradicasse toda raça que lhe subjugou aquela prisão, e a pedra, tinha o poder para esse fim, de maneira, que ela fora cravada nos cajados de Apolium e Abadom para não somente investi-los de espirito suasivo, quanto conferir-lhes um meio para extrair a alma daqueles que aprisionara os malignos na montanha. Sakratum não tinha garantias, porém, nada tinha a perder, pois nenhum risco que tomava demonstrava-se pior que aquele o qual, já estava fadado a padecer.
Apolium e Abadom, por sua vez, selaram sob pena de tortura eterna um acordo, que tinha o propósito de seguirem como planejado, isto é, de se valer da pedra d’alma tanto para quantificar a luz astral, quanto levar a cabo a necromancia um do outro sem ceder a dor ou a malicia, em seus últimos leptos momentos, após o auto sacrifício, a fim de tornarem-se juntos e imortais.
E fora assim que ocorreu, por má sina, infeliz acaso ou por alguma vontade que não entendemos, o alinhamento dos planetas se deu sobre a montanha de H’onurfnum (montanha qual se encontra por perto de Arkinarium), na noite anterior a coroação de Hemidim.
E ali foram, a seita da irmandade sombria, sob a magenta luz da lua; ergueram sete altares no sopé da mal fadada montanha, e um a um, após recitarem suas fórmulas não lícitas de se mencionar, degolavam-se e seus sangues escorriam e corriam por canais, os quais, delineavam uma triquetra de tríplices seis no fusco solo, culminando numa pequena grota, qual tingida sua superfície, tornava aspecto de uma bacia escarlate.
Postando-se frente um ao outro, Apolium e Abadom tocaram as pedras d’alma de seus cajados ponta a ponta, e enquanto recitavam o Maledictus do Septimum Amartolon, uma nuvem negra, espessa e vazia era exalada de suas bocas e ventas, como rãs e serpentes que se direcionavam para as pedras que faiscavam centelhas anil, então, de repente, sobre o reflexo da eclipse planetária na poça de sangue, um filamento negro uniu os poderes das pedras d’alma, e uma explosão sem som, seguida de um lapso implodido e estridente, deu forma a uma esfera negra, escura como abismo, a qual, cresceu e engoliu ambos e os cadáveres, fazendo-se de cúpula até o pé dos altares, dispostos em um círculo.
Daquele fusco domo, principiou a sair, como quem se desvela de cortinas, criaturas femininas, de uma beleza tão extraordinária que se somam como expressões de feitio diabólico, tamanho ludibrie que acorrentava qualquer um que lhes admirasse. Todas, estavam trajadas com longos vestidos negros – essas são as chamadas Feiticeiras, que são acometidas com Vampirismo, das quais, posteriormente, foram tomadas por mulheres tanto pelos Elfos Negros e Caídos da seita de Abadom – hodierno Thardulks – gerando os Mormahats, quanto pelos Bruxos e Necromantes, dando fruto de cria a raça dos Vampiros – após essas, vieram seguindo-as uma horda imensa, inumerável de criaturas de aspecto vil e imundo, chamados de Orcs e Goblins, e de junto desses, vieram os Wargs, Ogros, Gigantes e monstros de toda sorte desvelavam-se e postavam-se frente ao pé da montanha como um exército em formação.
Conta-se que o portal ficou aberto durante seiscentos e sessenta e seis dias, e neste hiato, não houve um único momento em que hordas deixaram de adentrar este mundo; quando sentiam fome, saciavam-se devorando uns aos outros, algumas das bestas, vagavam aos derredores não muito distante, como se soubessem que por ali deveriam aguardar.
Findado os dias de sua abertura, o fusco domo encerrou de emanar criaturas, e dele então, por último, saíram aqueles dois primeiros que por ele foram engolidos. Apolium e Abadom, enfim, desvelaram-se da esfera, a qual, queimando, esvanecia em brasas e fumaça.
Ambos estavam de aparência cadavérica, e longos mantos negros velava-lhes a face e o corpo, estavam vazios e a penumbra os cercava, Abadom tornou-se um elfo deformado com um par de cornos curvos, e Apolium, tinha por rosto seu crânio seco e exposto, porém ambos, estavam mais altos e aspiravam temor e tremor em quem os contemplasse, frente a eles, uma multidão bestial enegrecia a superfície da terra até o limiar do horizonte, um mar de criaturas, sendo eles: Orcs, Goblins, Wargs, Ogros, Gigantes e além de seus sectários Bruxos, Thardulks, Vampiros, Feiticeiras, Mormahats e Necromantes, agora Desmortos, todos postados frente a eles, lhes fitavam, e então, os Necromanciados, ergueram seus cajados e toda turba alçou seus berros aterradores, e curvaram-se, prestando culto aos ímpios.



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