Gritos de jovens mulheres ressoavam, e os bruxos subiram com elas, na passarela da muralha, e as exposição entre os vãos das ameias. Eram todas de luz virgem, suas feições rubra de terror e semblantes pasmo, instauravam o senso de urgência dos espectadores. Feriam o coração de todos, tal cena de lhaneza sob vitupério. Quando os homens esperando o pior, perceberam que os bruxos empunhavam adagas negras paralisadas nos pescoços das vitimas, tomaram o suspense por ensejo de proposta, o que fez-se, pelo principal dos generais, o qual, lançando a espada ao chão, elevou a voz declamando:
"São tolos! Porque matariam essas viventes, se em nada vos proverá vantagem? Vossa derrota é inevitável! E se matarem, nossa sede de justiça suscitada pela comiseração dos inocentes, rugiria em nós uma força implacável de vingança! Que não seja assim, antes porém, por prova de nossa piedade, sugiro uma proposta! São capazes de ouvir?" - Disse o general, enquanto ganhava a aprovação de muitos homens empertigados.
"Sim, nobre medíocre! E esteja cônscio, que há centenas dessas entre nós!" - Disse uma voz rouca e velha dentre um fileira de bruxos que amordaçavam as jovens.
"Pois bem! Proponho um acordo, libertem essas inocentes, e consideramos consumada nosso propósito, pois salvamos as vidas dos injustiçados e isso nos basta a empreita!"
O bruxo, sorrindo, gritou: "E quem é que dá essa palavra? E a quê fia o crédito de sua promessa?"
O homem, cheio de si, respondeu com elevado espirito:
"Sou Balanak! Domus da primeira força legionária da aliança real, general dos generais, e acima de minha patente, além dos reis, só um há e este aqui não se encontra! Portanto, digo, que combatente de maior posição deste campo, não repousarão seus olhos. Por garantia de minha palavra, ponho a comodato, até a execução da ordem, algo que vós não tem, minha alma!"
Os bruxos gargalharam, e com sorrisos jocosos, ouviu-se de um dos mais velhos: "Isso basta! Gozaremos por hora de sua alma!"
Um dos magos ao lado dos homens, gritou indignado ao observar a reação dos bruxos: "Balanak! Você está louco? Não vês que estão blefando? Isto é ardil para nos enredar em uma sórdida desgraça!"
Quando os bruxos ouviam isto, enfureceram-se, e das virgens expostas, foram degoladas e lançadas das ameias as pedras do solo.
Ver aquilo, perturbou tanto o espírito dos homens que não houve alma que deixou de se abalar, menear a cabeça e comover-se, Balanak, por sua vez, fitando furioso o mago ao seu lado, imprecou: "Seu infeliz! Calado! Não vês o que fizestes? Que o sangue dessas virgens inocente lhe seja requeridas!"
O mago comoveu-se, envergonhado, cedeu aos joelhos, rogando consigo, perdão ao Uno. Sob lágrimas de pronto.
E então, o general gritou em direção ao bruxo: "Não ponha a prova minha benignidade, criatura vil! Ergueremos nossas escadas para descê-las, ou abrirão os portões? Quanto antes libertá-las, tanto antes suspendemos o assédio!"
O bruxo, sinistramente com sorrisos, olhou para o seus, e assentiu com a cabeça, dando as costas para o exercício dos homens. E então ouvia-se a ordem do segundo, aparentemente, de maior posição que aquele: "Lancem-nas as águas da fossas, de pares em pares em cada ameia da banda norte e oeste."
Os homens consternaram-se de pesar, e apreensivos, fitaram a cena sem poderem demover-se, dezenas de mulheres, eram lançada de consequência em sequência e consecutivamente, todas cariam nas águas profundas, mas morte não se fez presente neste ato. A ordem não precisou ser dada, centenas de homens, a toda disposição, puseram-se a resguardá-las e recebê-las, retirando-as das águas, levando-as com zelo e envoltas em grossos gibões até as suas tendas.
Eram todas, de uma feição e singela beleza estonteante. Não havia entre os homens, algum que não se deixava ser consumido de paixão pelas donzelas. A princípio, em suas prosas, inquiriam sobre suas origens e suas famílias, todas foram respondidas com mesma semelhança, isto é, que não se lembravam de onde vinham, pois o suplicio que padeceram lhe minaram a memória, algumas no entanto, revelavam seu histórico demonstrando muito esforço dizendo: "Creio, que viemos do sul, mas não sabemos como, nem por onde." Não tardou, e todas estavam engolfadas de afetos, uns pelos outros, de modo que, até ciúmes passou a surgir no meio das grandes tendas.
Os únicos entre os homens, que não se deixaram encerrar em afeto desmoderado pelas jovens, foram os eunucos entre os magos, inclusive foram estes, que tendo proposto a evasão de pronto, viram-se rechaçados contra outros, a que diziam: "Tolos capados! Não veem que as donzelas estão sem vigor para empreender viagem tão longa? Ficaremos pois por agora, para que eles se convalescem de todo."
Os eunucos, por sua vez, ponderavam em seus corações todos essas coisas, e pouco afeto gozavam das donzelas dado a isto. Ficaram ali três noites, até que ouviu-se rumores, e as sombras de suspeitas invadiu os corações, perpassando como sombras aqueles que tendiam sua orientação a sensatez. Dentre alguns eunucos, começaram a surgir mortos, pendurados nas árvores. Os magos velhos responsáveis pelos seus aprendizes, começaram a inquirir entre todos; na vez das donzelas, nenhum omitiu ou absteve-se de testemunho, antes, em um só pensamento, diziam que viram os jovens eunucos, adentrando as floresta com as cordas em mãos.
Isto bastou para confirmar a suspeita de embuste daquelas virgens, pois é sabido entre os sábios, que magos não se suicidam, e quando se submetem a isto - por um desespero insuportável, ou possessão - não se pode encontrar seus corpos após a auto execução, o corpo se desfaz em cinzas logo após o ato, algo que não ocorreu com aqueles versados. Diante a fronte tal urgência, os magos puseram-se a prosseguir com a obra que maquinaram para desmascarar aquele engodo diabólico do inimigo.
Para a elaboração desta receita, tomavam a cada seis côvados, um komer de terra do solo, de modo que no sétimo, soma-se um hophen de um palmo sob a superfície, tais oito punhados então, foram diluídos em um bato de água de mananciais, retirados enquanto as estrelas refletiam-se no seu véu. E assim o fizeram.
O candidato que melhor adequava-se a empreita era o mais velho eunuco dentre eles, qual pôs-se a invocar o Uno, e sem demora, tomou um gole da sagrada água e a solidificou como pedra de cajado, e assim portando-o, adentrou na "tenda das resgatadas" tenda a qual, que naquela altura, curiosamente, já assemelhavam-se mais a um harém ou bordel, que a residência temporária de mulheres refugiadas, pois todas as virgens encontravam-se dispendiosamente adornadas a tal modo, que desafiava a limítrofe da realidade. A beleza de seus rosto intensificara-se com a fartura a elas concedidas, e assim o era de um tal teor, que até o eunuco, quando deixou-se despretensiosamente, corresponder os olhares da atenção devotadas por elas, abalou-lhe o espirito tão ferrenhamente, que os pulsos faziam-se visíveis no latejar. A paixão insurgia-se, e demonstrava-se portento o suficiente para tornar cativa a mente mais casta, e subjugar o espirito mais resoluto dos que fazem voto de abstinência absoluta.
O velho, fechou os olhos, pois nutrir a mente com a imagem fomentava a cobiça que tendia a acender dentro de si. Sentiu o hálito de loucura naquele ambiente, a impressão era como se demônios dilacerassem sua mente, suas entranhas remexiam-se, por um lapso do tino, como centelhas da experiência e da sabedoria de muitos anos lhe garantia reação apurada, o velho soube sem necessidade de declaração da mesmas: "São bruxas, não há dúvidas, estrelas de honurfnum! Filhas do diabo!" O mago então, compreendendo que não poderia abrir os olhos sem pecar, tão somente, estendeu a sinistra e fez sinal cruzado, e deu três toques com a extremidade inferior do cajado sobre o solo da tenda.
O feito do mago causou tanta impressão nas bruxas, não somente pelo sinal administrado perfeitamente, mas principalmente por nunca outrora, sob este céu, alguém ter ousado resistir a paixão por elas, que a frustração de seus tentames somado a eficiência daquela espécie de exorcismo o foi tão efetivo, que abalaram-se, de modo que começaram a dar-se ao berros e gritos hediondos de terror, enquanto seus véus se esvaneciam. Uma por uma, transfigurava-se em bruxas, agora declaradamente malignas de feição diabólica.
O mago, abrindo os olhos, apontou o cajado, mas foi tarde de mais, todas avançaram sobre ele e o devoraram. Assim tombou Arnix Partenus, o mais velhos dos magos combatentes, pai da santa ordem dos imaculados. Qual a memória de seu nome perpétua hodiernamente entre os chamados "escolhidos", os solitários magos anti-bruxos e exorcistas.
Os homens entraram a toda prova, e fitando-as por um momento, desembainharam suas espadas, e o embate começou, seus poderes eram terríveis, homens vomitavam as próprias entranhas, quando não viam-se inertes, incapazes de ferir aquelas criaturas. Não havia homem capaz, páreos diante a força diabólica das bruxas, e os magos por sua vez, pleiteavam a todo vigor, porém, quando enxergavam o mais velho ancião morto, abalavam-se e se enfraqueciam, pois as lágrimas que lhe brotam dos olhos minavam o contato visual para o pleito contra as feiticeiras.
Os homens tombavam, e os magos recuavam, o senso de derrota pareceu tomar a atmosfera para si, até que ouviu-se os uivos, e das sombras das árvores irrompem os lobos Likusgar e Hulfgar com sua matilha voraz, contra animação, pouco ou nenhum efeito surtiu os bruxos, sua sedução e era vã pela natureza adversa, e suas palavras de ordem e influência não fazia-se compreender as feras. As bruxas eram dilaceradas, e seus rostos eram o alvo das presas.
Venceram aquela batalha, mas a guerra parecia distar de seu fim, após a última bruxa tombar, a inércia e a o luto apoderou-se dos corações, Balanak não foi encontrado, nem entre os vivos, nem entre os mortos. Os homens estavam sem um líder para orientá-los, e os magos em desalento, ponderavam abandonar a causa, como é bem próprio na mente dos sábios, não resistir o inevitável.
Foi neste contexto, que Mulfalut, tomando de compaixão pelos homens arrependidos e de indignação pelas ponderações dos magos, que levantou-se e disse:
"Irmãos de sangue e terra! Ouçam-se, pois o desencadeamento dos eventos que sucederam fez-me vislumbrar, algo, que pelo que enxergo, está velada aos nossos olhos. Percebam o que até agora não tem nos resistido, compreenderam a magnitude de nossa força! Este é o vigor de nossa comunhão! Pois eis que vi, o mais terrível dos exércitos sucumbiram sob o céu dos homens! Pois eis que vi, a fortaleza mais impenetrável trincar diante a nossa face! Pois eis que ainda vi, a sedução mais irresistível ser frustrada em terra dos homens! Se isso, não é prova o suficiente que uma força maior que os exercidos, mais forte que as fortalezas e mais poderoso que o melhor ardil do inimigo, não luta nossa causa, então o desvario tomou minha mente, pois para mim, isto é tão certo quanto a própria existência! Isso me infla de tal fôlego, que diante minha frente não desejo nada mais que ver esvair a vida desses demônios, os quais, tão covardes o são, que enviaram suas próprias mulheres para o pleito, pois sabido, que contra nosso braço não nos podem vencer, e então apelam para a fraqueza de nosso coração. Pois eis que agora, atormentam-se de vergonha, pois até em nossa fraqueza, somos mais fortes que eles! Vejam irmãos, sim vejam a sangue frio e encarem a verdade enfim como fato! A cada batalha, a afronta é mais forte e nosso número reduzido. Já não éramos para sermos erradicados? Pois encarem-me, estou de pé, e com nosso lábaro as mãos, e as mulheres desses vermes estão agora aos nossos pés. Isso é testemunho de que quanto mais sangue nosso deitar a terra, mais influi em nós a força advinda da memória de nossos irmãos tombados, de modo que a alma desses somasse a nossa, e nossa lâmina, corresse, empunhada por muitos ao mesmo tempo. O sangue de nossos irmãos é a semente de nossa reino! E que saibam o que já é evidente, quanto mais tentarem resistir, por menos tempo resistirão. Quanto mais nos matarem, mais vida haverá em nós para combatê-los!"


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