Deitado sobre si mesmo, Phantom despertara e percebeu-se incapaz de se transmutar a imagem de homem, não tentou novamente altercar da figura daquele animal, pois não se importara por isso. Mas o que assombrava-o era escapar-lhe a força para responder a mente com o corpo, algum odor entorpecia-o. Se valendo de seu estado, viu-se oportuno tomar os aguçados sentidos por instrumento de sua averiguação, intentou e tentou, frustrou-se novamente, não pôde se localizar, porém, notou o que pensara ter notado, pois diante dele, havia algo que já não parecia aquilo que devia ser.
Viu raízes expostas sobre a superfície terrosa, que se retorciam e concentravam ao dorso do tronco de madeiro, uma árvore, ou o que era para ser, se julgasse sob bom tino, porém, não era a criativa imaginação pulsante como pensara, era de fato, tão real quanto ele mesmo, estava postado, gigante de braços cruzados, da casca discernia olhos profundos e de brilho hipnotizante, um nariz aquilino e uma boca cujos cantos se faziam do nó de sua textura, recordava o busto e a face de um homem, mas não era em nada um humano.
"Não pode ser, afinal..." - de repente, distante de sua memoria veio a tona a informação obtida de um passado há muito distante: "Isto é um... ent?" disse renitente, reflexivo, parecendo aos seus ouvidos, que suas palavras viera acidentais de um coração desvairado. Mas ouviu, aquilo que se o fosse, confirmara sua loucura:
Viu raízes expostas sobre a superfície terrosa, que se retorciam e concentravam ao dorso do tronco de madeiro, uma árvore, ou o que era para ser, se julgasse sob bom tino, porém, não era a criativa imaginação pulsante como pensara, era de fato, tão real quanto ele mesmo, estava postado, gigante de braços cruzados, da casca discernia olhos profundos e de brilho hipnotizante, um nariz aquilino e uma boca cujos cantos se faziam do nó de sua textura, recordava o busto e a face de um homem, mas não era em nada um humano.
"Não pode ser, afinal..." - de repente, distante de sua memoria veio a tona a informação obtida de um passado há muito distante: "Isto é um... ent?" disse renitente, reflexivo, parecendo aos seus ouvidos, que suas palavras viera acidentais de um coração desvairado. Mas ouviu, aquilo que se o fosse, confirmara sua loucura:
"Ent, então!
Bela fera, sabichão!
Sou fero ent, até que belo em vão!"
Bela fera, sabichão!
Sou fero ent, até que belo em vão!"
Verse-se comigo fera racional...
Pois razão tenho e quero provar-te se é mal"
Neste instante, involuntariamente, Phantom torna-se Daerowh, seu corpo queimou em reação lancinante, singrou o ar aquele mutante rugido felino enquanto findava num berro humano de dor atroz.
"Que é isto?" - gritava Daerown, testemunhando raízes atando-o como a grilhões. Estava cativo, correntes naturais aprisionou-o pelos membros inferiores. - "Com que autoridade, ó ser natural, em nome de quem ousa se levantar contra a lei que te é guia? Atando o corpo com suas raízes e violentado os sentidos com seu odor? Não podes e tu sabes, que lhe é vetado realizar isso sobre um mortal e a seu bel prazer?"
O ent, fitando-o com austeridade, disse sério e sombriamente:
"Ervas salvam, ervas matam,
Ervas ferem, ervas curam!
Com ela muitos fogem cativos,
por ela se encerra os altivos...
Com ela se liberta os feridos,
Por ela se acorrentam os perdidos...
Em que nome? buscas tu saber?
Ora, que hora disto dizer!
Loucura!
Não outra, se não pela tal mesma Natura
que te constituiu e a qual lhe curva!"
Daerown, disse rancoroso: "Nisto tenhais certeza, não verá maldade maior em mim que em tu não se faça presente, pois não subjugo ninguém ao suplicio por afã ao sadismo."
Viu-se, algo que parecia um sorriso zombeteiro na feição do Ent, que disse, lenta e melodiosamente:
"Pensas tu conhecer a mim, assim, a esmo?
Se nem ao menos poderia conhecer-te a ti mesmo?
Ditos são feitos, e um ato basta!
Porém quem em destemor se ajuíza, da sabedoria se afasta!
Veremos o que sou e por onde iremos,
Ouviremos para onde vou, e o que por fim seremos!
Ent então, bela fera sabichão!
Para tu e os teus, a mera lenha te indaga com seu perdão...
Com braço sem perna, raiz não imóvel
Carrasco afável, Protetor cruel...
Deveras toda sorte diante mim, opte... fel ou mel?
O que acaso beberias sob este venturoso céu?
"Escolho fel..." - respondeu Daerown, após buscar de um profundo suspiro, a aspiração de autocontrole. E então, fitando algo ao léu, o homem assentindo ao desafio, continuou, calmo e tranquilo como se estivesse em uma das saudosas conversas com Akrivel - "...Sim, escolho fel deveras, pois no que tange a galardão, o efeito é sempre contrário a causa empreendida, de modo que o afável é para aqueles que não ousam lutar, e eu... fiando-me a este principio, opto ao decurso onerar-me ao fel, para que ao fim do curso, aufira o dito celeste mel."
O ent, afilando com uma das mãos sua longa barba, enquanto com a outra velava as costas [como costumam os pensadores refletir sob um característico trejeito] respondeu:
"Pois bem, ditas palavras não me são estranhas... assinto com amém!
Se assim entende, talvez A Mensagem compreenda, prossiga comigo e vem:
Foi após sete que o primeiro despertou para morrer...
Foi em três, que o único despertara para vencer!
Tu és apenas um do primeiro?
Ou do único tu é o derradeiro?"
Daerown, emocionando-se, disse com os olhos fitando um céu velado com rendilho das copas:
"Como o primeiro não único outrora fui, como o único haverei de ser se permanecer derradeiro. Com três, por três e entre três, enquanto e além, sete por sete perdurar."
O ent, já via-se impressionado, mas não surpreendido, e disse indagativo:
"Pois três é um, e o um é sete!
Com apurada razão e antiga sabedoria, disseste!
Até agora, me parece leal...
Responda porém, sem julgar-me mal
Ódio ao diferente? em que sentido é real?"
Daerown respondeu, como recitante, apático, seguro, direto e objetivamente:
"Ódio ao inimigo real... e o inimigo não é outro, senão o próprio ódio mortal."
Havia avidez nos olhar daquele tronco falante, que disse com ambos mãos cruzadas a retaguarda [como um mestre que experimenta na arte dialética, seu versado discente]:
"Do supracitado galardão da virtude, abdicaria?
Se de via em via...
Visasse ao alheio o melhor?
Consumaria um mal sobre ti em prol do bem maior?"
Daerown, baixando a cabeça e esquadrinhando com o olhar seu leito, respondeu:
"Há nobreza no auto sacrifício... seja temporal ou eterno. Pois uma raça é investida de propósito, se manter-se a serviço de uma causa em comum... não que se caracterize como ato a consumação do propósito se efetivasse tal causa, mas o propósito vem se consumando em um processo, enquanto é empreendido. Isto é, é pelo meio, de via em via sob o bem maior que se garante o galardão da virtude, não pelos fins, na consumação do mal."
O ent, após um instante de profundo silêncio, disse:
"Negarias a ti para prover aos teus, então.
Sim, deveras, bela fera sabichão!
Mas decerto que disto se espera apenas as raças dotadas de razão...
As quais de moto próprio, optam entre toda opção, o nobre curso da mente e coração.
Mas penso naqueles que a isto submetidos são
involuntariamente, ao suplicio de serem desprovidos do galardão
Por raças egoístas, cujo propósito e causa é o próprio ventre, indigesta!
Sacrificam toda virtude e bem maior, para auto realização deveras funesta!
Mas enfim, prossiga sobre o assunto a criação decorrente...
Seguirias tu, prevenindo-se ao sábio curso da mente,
Ou o suplicante curso de um coração penitente?"
Daerowh, intentando perscrutar a que direção tomaria tanto inquérito, respondeu sem demonstrar ansiedade alguma:
"Honra-se o doador, exercendo o atributo que lhe foi doado, porém, louva-o sob devoção voluntária exercendo com excelência o dote que lhe é próprio. Toda a criação honra-o a nobre curso seguindo o coração - que denominamos 'instinto' - mas das raças pensantes, por sua vez, espera-se louvá-lo quando exercem prioritariamente sua razão - por isso são 'distintos' - nisto o valor da mente excede ao valor dos sentidos, pois enquanto o segundo é de graça especial, o primeiro é comum a todos."
O ent, então, direto e seguramente replicou:
"Haveria louvor no encargo natural da obrigação?
Ou apenas nesta voluntariedade encontra-se a real devoção?
Vossa raça é laureada com as graças de suprema potestade
Nisto não vos incorre a tal oneração de tamanha responsabilidade?
Fia-se total esperança...
Em quem confia toda herança!
Espera-se com justiça, o dobro de atividade,
Daqueles dotados de dupla identidade.
Oh! Que vos livre do juízo! Há sabedoria na relutância...
Copioso lamento de vã e infrutífera confiança!
Se não correspondem a mínima expectativa, mas agem com ganância...
Que amparem-se por fim, em sua tão devota ânsia!
Daerowh, mesmo que não coube a si tal atribuição diretamente, viu-se confundido, respondendo ainda assim sob a tentativa de escusar-se daquela acusação:
"Exercemos conforme requer a nossa sorte, apelamos para aqueles atributos que socorrem a identidade carente enquanto provada. Sentidos servindo a razão, mente ensinando coração, enquanto a razão aprende dos sentidos, a mente baliza o coração. Em uma guerra entre raças, a simbiose é a coroa da paz, cujo refulgir recorda o brilho da espada de duplo gume que a instaura."
O ent, então, assentindo a nodosa cabeça, disse em tom reflexivo:
"Atenha-se pois a ultima questão...
Em tudo discorreste com alta sabedoria, louvável exatidão!
Vejo em ti o que discerni do que ouvi, sim!
Discípulo feraz de um mestre dos mestres, enfim!
Pois agora dê-me deste dilema, oh pequeno sábio, tal resolução...
De racional sentido e sensível razão, porque vós subjugam os privados, então?
De pronto alvitre ou incumbência, porque sujeitam toda raça a extinção?
Propósito e coração, porque ignoram o real chamado pela falsa vocação?
Ó saudoso e extinto zelo amigo,
Agora voraz vilão entre todos, tal inimigo!
Eis que vejo assombrar tais dúvidas sobre o firmamento
Pois para quê a árvore tombam? Sufocam o rebento?
Pois para quê envenenam os rios e tornam todo animal sedento?
Pois para quê ardem em chamas, extinguem pela caça todo ser puro, oh que lamento!
Enxergando e ouvindo, tenho por Eras ponderado!
São os irracionais que enquanto rendem suplício, sentem seus machados!
Com sentidos suplicantes, expiram, sendo com violência brutalizados!
Enquanto os dito racionais, calcam os pés desprovido de toda sensibilidade,
Deleitam-se em regar com sangue e seiva inocente toda a sua crueldade!"
Daerown, intimamente traspassado com aquelas palavras, abalou-se, e disse com visível abatimento:
"Pois o caos é inerente em toda raça caída, de modo que só será o que realmente é, quando singrar no mundo seu caos, distintivo de sua queda. Do lapso de outrora, adveio tal perversão, vícios pontuados por ti agora! Sim, de fato... Ferimos pois estamos feridos, e não há argumento que nos escuse, como não há mal que nos farte, pois o mal nunca se saciará com o sangue de nossas mãos. Matamos pois estamos mortos, não sendo superiores, mas sentindo-se como tal, pois intentamos usurpar aquilo que nos foi vetado. Oh miserável raça que vê-se dotada de uma razão tão maculada... melhor nos seria se fossemos de todo privados desta! Ouça-me lenho velho... Se comigo amparas tu alguma esperança! Contigo aguardo o dito fim! Se em mim detém-te alguma graça, que saiba o que prometo sob pena de maldição, no que depender de mim, haverá de ver-me mitigar toda nossa desgraça, e assim o farei. Custe morte atroz ou dor algoz por toda vida, não me renderei a fuga em covardia! Nisto dou-te palavra e faço deste céu minha testemunha. Tu o verás assim consumar-me!"
O ent, com amistosa compleição, respondera a mesmo tom:
"Pois bem, sábio bicho, sabichão!
Boa providencia deu-lhe ensejo para receber minha aprovação
Possuis mente e valor,
Prova-te pois agora, em combate zeloso ardor..."
Finalizando isto, as raízes soltaram Daerown que num pulo, fitou o ent, que agora, imóvel, velou-se sob indistinção de seu aspecto, de modo que não podia ser mais distinguível das árvores. Neste instante, ouviu-se o brado órquico:
"O inimigo está aqui, sinto seu cheiro... procurem-no!"
Daerown percebeu, que os galhos, raízes e até troncos demoviam de lugar misteriosamente, como se estivesse a guiar um rebanho, que naquele momento, seria de orcs. "O ent fez desta clareira uma liça, e arrenda-me ao gládio contra os demônios, pois que assim seja..." pensara Daerown, que a instantes disso, contou uma dúzia de orcs, extremante grandes conforme a possibilidade de sua raça. Adentraram a clareira, e involuntariamente viram-se cercar um negro lince, que postava-se assentado e altivo.
"HOHO! - dizia animado um Orc - "Olhem só o que a boa ventura nos trouxe... um gato para sopa desta tardinha!". Outro em noutro canto reagiu: "Yahoo! Carne de gato e sangue quente!" disse lambendo a beiçola.
Dois em cada flanco oposto saltou sobre Phantom, que astuto de veloz agilidade, nem sequer fora resvalado, mas tocara para dilacerar um dos orcs, que urrando de dor, desembainhara sua machadinha.
O segundo assalto viu-se alvo de três orcs, o lince desvencilhou do abraço de um, escapou da machadinha do segundo e cravou as presas nos olhos d'outro terceiro.
Estavam ali, três, tão irados quanto aturdidos, enquanto os nove riam, enxergando naquilo, um esporte.
Entra mais um na liça, são quatro orcs contra Phantom, que ponderando nova estratégia, parou, se assentou, e aguardou sem apresentar perigo aparente, ao ponto de um dos orcs notar: "Vejam! Ele está tirando onda com nossa cara!"
Avançaram cautelosamente, cercando-os aos quatro ventos, até que de súbito, as quatro cabeças rolaram, os cadáveres decapitados caíram e não havia mais Phantom, o lince, mas Daerown, o espadachim.
Todos calaram-se a semelhança do silêncio sepulcral, após o estupor, cinco viera contra ele, antes do primeiro passo ser dado porém, dois destes recebera uma adaga voadora na traqueia, e outros dois, receberam um último golpe, cada um com o gume deslizante da espada em seus ventres, que deitaram a banha enquanto expiravam em agonia. O quinto deste assalto, abraçou o ar, pois Phantom entrara novamente em cena, abocanhando seu pescoço até este bater os pés pelo desespero do sistema nervoso. Transformou-se novamente em homem, havia agora três orcs restantes, que postavam-se com arcos entesados apontados para um alvo em comum, Daerown estava rendido, até que de supetão, um destes cede em um rasteira, tendo os pés puxados por alguma raiz de árvore, perdendo sua flecha, enquanto os outros dois porém, vibram as cordas disparando direta e simultaneamente contra Daerown, qual saltou rodopiando horizontalmente uma volta completa, a semelhança ao curso de um parafuso. Essa manobra garantiu o desvio do alvo enquanto se cruzavam além de serem defletidas, orientadas cada qual ao endereço de seu companheiro, agora destinatários. O silvo foi encerrado, dois orcs deitaram mortos ao leito, ambas flechas foram vistas no torax de cada um. Não perceberam que estando contrapostos na direção de um único alvo, esse alvo era a única defesa de seu tiro amigo, se tal alvo em comum desobstruísse o curso das flechas, elas atingiriam os atiradores opostos concomitantemente.
O ultimo orc, que a pouco tomou a rasteira, se levantou, e vendo os onze corpos no chão e Daerown, altivo, fitando-o como uma fera selvagem, seguiu o melhor conselho assoprado pelo temor, e correu para fugir. Mas as garras de Phantom o alcançara, e de suas costas veio sua morte abraçar-lhe.
Ouviu então uma voz a pouco conhecida:
"Bela fera, briguento sabichão!
Em ti há fero ardor, de mente, corpo e coração!"
Neste instante viu-se e ouviu-se o arrolar de um vento veemente sob as copas, folhas singravam seu caminho, o ent, suspirando e inspirando com olhos cerrados, diziam como para consigo mesmo:
"Assim me informa...
Boa ventura, pelo bem, tudo conforma!"
E então fitando Daerown, o ent disse em cordial compleição:
"Para o sul teus amigos,
Sujeito a perigos... Ceifarão!
Na cova de um mal antigo,
Voraz inimigo... Se encontrarão
Sob a densa chuva, te digo!
Vá sem mora, salve os teus então!"
Daerow seguiu o conselho, encontrando auxilio da orientação, e novo rumo ao sul seguiu, em prol de sua nobre missão.

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