Sabido que é próprio das atalaias transmitir aquilo que se atém além do horizonte aos que neles fiam o conhecimento, como compete aos pais instruir quanto a origem daqueles que lhe depende a existência, assim o Uno outorgou o dever de exercer a dádiva de sua benção, para aqueles que a destra divina conferiu a santa razão, devemos — por assim dizer, pela gratidão do dom — aplicá-la a aquisição do alto saber.
Tal mandato foi conferido precisamente após o segundo grande Panteclipse findar-se, quando as raças, recém-despertas à vida pelas Potestades, ainda contemplavam o mundo em sua primeira aurora.
Assim o foi, que, em Lythoiken, após Zyathar conceber do ventre da terra os Anãos, esses, como ouvintes reverentes, receberam do patronato o conhecimento elementar:
“Meus pequeninos! Quando o solo que pisais — ensinava Zyathar — se detinha na face de penhascos abissais, o Uno, Senhor de tudo que é substancialmente massivo ou poroso, escultor da própria matéria, que concebeu em sua sabedoria o próprio espaço e tempo, artífice mor, lapidou a carrancuda rocha, esta esfera, que a nossa vista perde-se no além fim. Dimensionou-a conforme lhe aprouve, entalhou as montanhas, minou-as com grutas, com seu sopro fez dos prados um solo feraz, picos gélidos, formações rochosas de toda sorte e espécie, vastas, profundas e extensas bacias, para receber a substancia que gerou os mares, a gota de seu suor e lágrima — não porque se cansasse ou sentisse fraqueza, mas para que incorporasse na criação, incutisse na criatura, o exemplo da labuta e piedade — sob infinda misericórdia, achou graça em fazê-la berço para meus irmãos e eu, para sermos participantes do atributo de sua natureza, exercer o que nós foi exercido, domínio e criação, O Rei fez-nos então, de súditos e primogênitos, príncipes da ordem sobre o caos. Não porque necessitava de servos, mas mera e simplesmente, porque conceder a vida era bom a seus olhos.
Foi então, que habitando eu sob essas montanhas, desejei segundo a sua imagem, criar-vos no eco do érebo, a fim de animar porções do que é perpétuo, vossa mãe é a matéria que vos rodeia, eu as reuni, e pelo meu rugido, a matéria urgiu transubstanciar-se, vosso espírito pois, provém do meu sopro, mas vossa consciência, daquele que foi meu autor. Vós sois potentes segundo a semelhança de onde habitam, vós sois selvagens segundo a imagem de quem vos fala, que a disposição indômita, e face bravia, que a intrepidez e a força do Urso Pardo, vos zele o espírito até o fim de seus dias, onde haverão de serem recolhidos para serem não mais meus filhos, mas meus irmãos. Que a solidez de Sátshi, que a fluidez de Okráz, que a vivacidade de Myótri, curvem-se com reverência diante seus martelos, picaretas e machados.”
Juntamente com este, Yu'zakrás de Corkrúm, empreendeu o exercício de sua missão. Quando reunidos todos, os Manthorns ouviram o portento rugido de seu pai, seguido da majestosa palavra paternal:
“Meus leõezinhos! Que a partir de vosso nascimento até o fim de seus dias, exerçam com excelência hábil talento, que consagrem a isto vossa existência. Que Owazith, vossa implacável mãe e habitação os instrua em nome daquele que vos gerou, assim diz seu pai! Quando no mundo não havia presa, quando havia apenas Sátshi e Okráz era encerrado a imobilidade. Quando Edarók era ainda uma tenra semente, quando Myótri era um mirrado embrião, quando não havia centelha em Dókar nem sopro em Hantsá, fui gerado e como vós eu era, e o fui até que por vós agora, me torno aquele que vos gera! Porém, vim daquele que sempre foi sem nunca ser gerado, até que decidisse o ser. Despertei-me diretamente mediante a palavra daquele que detém em si toda majestade e que é digno de louvor pelos séculos dos séculos.
Criei-vos desta nevasca, para que na semelhança desta, sejais invencíveis quando vier A Noite, e que sejais puros, como a brancura do vosso leito No Dia radiante. Que a impressão desta seja em vós impressa, e que diante vossa raça trema e estremeça todo coração. Que a graça do Uno, esteja convosco, que da terra e das águas nunca vos falte viveres.
Inclinem vossos sentidos para me ouvirem e sentirem, o solo em qual deita sua sombra, é imenso e necessitaria de vossas sete vidas para cruzá-lo de todo — e isso sem se desviar — e ainda quando chegassem ao fim, veriam que tão somente estaria de onde partiram, assim é que estende-se para mais do que seus aguçados olhos podem enxergar, quando o explorarem haverão de ver, que o seu horizonte sempre finda em declive, isso se dá, pois é tão esférico quanto o príncipe da noite, e como os tais, há outros príncipes que regem o céu, e orbitam ao derredor de seu regente da luz, um mapa de suas posições muito se assemelharia a complexidade dos flocos, o que hão de antever sua marcha quando entenderem seu curso. Notarão que o mesmo, é sempre cíclico como tudo o mais que é dotado de propósito. Assim o mundo é, e só o foi e será se o Uno mantê-lo em movimento. As estações e os períodos naturais, detém sua força do hálito divino, assim como seu decurso depende de sua destra. Tudo delimitou, pôs limiar ao domínio do frio e o denominou inverno, ordenando seu tempo ao lado de outras três estações, que logo havereis de conhecê-las e nomeá-las.
Assim foi que Uno, tudo fez, e perante Ele, entendam que o rugido do mais forte é um mero mio e vossa balburdia vociferada é miadela, a caça mais excelente é imperfeita, o despojo mais farto carece de sabor, a pelagem mais densa enregela-se, a presa mais afiada é cega. Que não haja loucura que ouse concorrer com o verdadeiro monarca, rei de reis, da selva mais densa das mais densas selvas, do deserto mais árido, dos mais áridos desertos, do céu mais extenso do mais vasto céu, da mais baixa terra da terra mais profunda, aquele cuja coroa resplandece da mais alta cidadela sobre tudo e todos. Ouçam todos os que a este devem servir!”
Do quinto continente, Cor'eremen, o Vizir dos Desertos, Ekasemus, a Naja, mergulhando sob rasa superfície da areia, desprendeu-se de seu velho invólucro, e sobre este velado no monturo áureo, injetou ao derredor do tecido soterrado, sete gotas de sua tóxica substância. A areia foi tingida, de um tom escuro que intensificava e expandia-se, assumindo em sua textura, a semelhança de visgo barrento. E de suas escamas, despontaram a eclosão reptiliana dos Nerianors, estes, desenterraram-se, e arqueados fitavam suas palmas, já cônscios de sua condição, destes ouvia-se resmungos indagativos, feitas não um ao outro, mas cada qual a si próprio, assim ficou até serem silenciados pela curiosidade de aterem-se a uma voz sibilante que reteve a atenção de todos.
“Meus filhos! Desejo que vosso saber seja tão vasto quanto os grãos deste deserto, e tão extenso quanto esta celeste cúpula, ergam-se sobre as altas dunas e elevem seus olhos as estrelas, que céu e terra sejam vossos tutores. Que o Uno, ao qual este que vos fala, deve a existência, tal qual como vós devem a mim a vossa, seja-vos favorável, como o foi a mim e aos meus irmãos! Que O Soberano vos agracie dilatando as fendas dos vossos olhos para perscrutarem as profundezas de tudo aquilo que se dediquem em contemplar!
Os fiz de minha velha escama, para que a sua semelhança herdem a experiência de muitos dias, oh minha sapiente raça, que a sabedoria anciã vos guie! Vos conferi sangue com meu veneno, para que tenhais o antidoto para toda Myótri, oh sagaz progênie, que seus dons envolvam toda terra! Que Sátshi e Okráz vos abrace e nutra em toda as suas fases. Agora filhinhos, sentai e escutai o que me compete ensinar.
O solo qual pisais detém a forma de uma esfera, tal esfera no principio dos tempos era como o corpo celeste que em ardor de fogo vos ilumina. O Uno, qual vos falei, com grande amor se enrolou nesta esfera e amainou com seu abraço sua chamas. A matéria enfim esfriada, tornaram-se essas areias que se estendem perante vossos olhos. O Uno determinou então o tempo, para que os ciclos reinassem cada qual mediante os luminares diurno e noturno. O Uno então assoprou a fim de que as areias se concentrassem em uma medida, denominando-o Sátshi, Ele também adensou o ar e o fez Okráz, desta, viera a substancia necessária para eclodir todo ser vivente, dando luz a Myótri por sua vez.
Este é o conhecimento elementar de vossa sabedoria, que a partir dela e da diligente observação possais esquadrinhar e edificar sobre os fundamentos de vosso saber, para que de luz em luz, de preveniência a previdência, esclareçam-se para enfim descobrirem não somente os fatos que sucederam, quanto o que haverá de suceder.”
Em H'udatur, Hipalus, o Corcel dos Mares, prestando-se ao mesmo impulso e anseio, arrancou das mais distintas espécies de algas dos seus domínios, e intentando estender a jurisdição de suas futuras criaturas, rogou a Hanuktum que o fornecesse de seu território as algas oceânicas. Após recolhidas enfim, as rubras, tropicais e os sargaços pardos, Hipalus, exultante, levou-as todas para as fendas abissais e aguardou ansioso três ciclos lunares, até que irromperam os Sereianos dos ventres submersos, e eram de toda sorte de cores, brancos, gris, negros, pardos, rubros e ruivos. Todos o rodearam com singela reverência e admiração, assim, tendo o foco impressionado de seus espectadores ávidos em contemplá-lo, falou o Paladino das Águas:
“Senhores e Senhoras, é com imenso prazer que me apresento como vosso pai, mas não o único, há um maior que eu, do qual sou também filho, e esse me comissionou a instruir-vos no que tange a criação do mundo. Assim pois, transmito a vós aquilo que entendi do que a mim fora transmitido.
No principio, havia o abismo, as águas não se moviam, nem dormiam, pois não havia sono nem despertar, não havia nada sob ela, nem acima dela que se movimentasse, ou assim poderia se pensar se víssemos com olhos terrenos, pois havia alguém, alguém que sempre existiu, antes ainda da própria existência, este era o Uno, e seu sopro pôs em curso as águas primordiais, e o brilho de seu olhar incendiou o luminar. Definiu os ciclos lunares, e trazendo das fendas da terra os elementos, delimitou sua limítrofes e conferiu potestades para o domínio das porções. Desta classe faço parte, e dos trópicos é meu reino, e vós sois, meus súditos. Com a graça que me vedes, verão a vós, pois com benção de minha destra, vos comunico meu pendor. Vão, e encantem como eu vos encanto.
Que o Uno vos abençoe, nunca estacando o movimento das águas, e que a graça da vida sempre esteja convosco. Que Okráz, vosso palácio, nunca se macule, que Sátshi reconheça seu domínio, e Myótri compreenda a sua força.”
Na terra de Oykopúr, dentre todos canais para o antro da terra, via-se o maior vulcão e de mais longeva atividade, qual encontrava-se já havia muito encerrado em descanso. De si, emanava tão somente lembranças de um ontem esquecido, mas sua inatividade supostamente perpetua — conforme entendia Anképhre era dissonante da opinião de Kelrók, qual a julgava como sendo meramente aparente. Este ultimo, perspícuo como era, anteviu os sinais de seu eventual despertar, e de pronto, o tomou por ensejo para a execução de sua obra. Rogando insistentemente ao companheiro, auxilio, o mesmo, a principio resoluto, acabou por ceder e assentiu por fim. Gerou e girou uma imensa esfera de esterco, qual Kelrók, após injetar sobre ela mediante suas garras, a substancia de seu próprio veneno, ambas potestades, lado a lado, a orientaram-se até depositar aquela colossal massa úmida e fétida para o epicentro do antigo vulcão, e ali, enquanto Anképhre a abandonou, Kelrók, aguardou.
No momento que Kelrók tomou por exato, invocou de Dókar suas chamas, convocando do sono o grande vulcão, as fissuras deram vazão as lavas de sua erupção, que em lépidos instantes imergiram o esterco de Anképhre, e quando de todo velou-se ao manto refulgente, Kelrók submeteu a ígnea rocha ao sopro de Hantsá, as chamas amainaram a medida do resfriamento da magma, até que não se viu mais luz das espadanas e dos veios, o silencio sepulcral caiu sobre o manto gris do fusco ambiente. Por entre as nevoas, Kelrók ansioso e Anképhre duvidoso, fitavam a reação de uma remota possibilidade.
Do solo, trincas surgiram, e erosões se formaram, não involuntárias, mas ocasionadas por aquilo cujo os olhos impedem de se enganar, um desenterro em massa de inúmeros ciclopes, de aspecto aterrador, dotados de uma força evidenciadas pela sua morfologia. Esses, postando-se eretos, desceram a saltos da alta crista vulcânica, e diante de Kelrók e Anképhre, ajoelharam-se semelhante a moda dos cavaleiros.
Kelrók, admirado, dedicou-se a instruir:
“Meus magníficos! Que terra e teto, solo e sol nunca esqueçam deste dia! Que Dókar sempre arda em vossos corações, e que nunca deixe de inflamá-los com sua centelha motriz. Que a potente força dos vulcões concorra com o que em vós há presente, ouçam agora, o que a mim fora confiado transmitir.
No principio havia o érebo, e antes deste, o oblívio de toda memória, mas sobre estes, havia Aquele que sempre existiu e precedeu toda mente, pois este era a Mente que tudo gerou e pôs a girar, de modo que tudo o que se move e passa deve a este sua permanência e ausência. Este é o chamado Uno, e sua chama criadora deu luz a esfera inerte, e fez do mundo, o que hão de ver.
Sabe-se que Ele amou tanto o que pela presciência concebeu, que chorou de alegria, e suas lágrimas correram como rios, que fizeram no mundo, os mares. Ele os assoprou e deu ordem ao seu movimento, ele coloriu o mundo conforme lhe aprouve, entalhou as montanhas, cordilheiras, cristas e penhascos, dividiu os mares das porções terrenas e definiu os biomas, estações e períodos. Foi Ele que ansiando principados auxiliadores — mais para que gozassem de sua presença do que realmente necessitasse — fez nós, Anképhre, eu, e todos os demais conforme haverão de ouvir em breve tempo. Assim se deu o que diante de nós faz presença! Assim haverá de ser enquanto a razão estiver presente! Que gozem o prazer da forja, e que a forja vos molde e que nunca se afaste de sua mãos o martelo e o fole.”
Pela primeira vez em muitos eras, Anképhre assentira em todas as palavras de Kelrók, e finalizou completando:
“No que depender de nós, intercederemos a graça do Uno, para que a mesma, sempre os mantenha em viço vossa natureza, vigor na labuta, labor infatigável e disposição incessante até a consumação dos dias. E que de vossa memória nunca se aparte, mas que se cunhe a essência do que são: Força, Poder, Fogo e Vitória!”
Em Rytaia Adavi, bosque do extremo leste de Corlignum, encontrava-se Adiastikus, este, solicito quanto a forma de suas criaturas e competitivo como era, ansiava laureá-las com distinta beleza e de tal impressão, que se possível fora e como cogitava, teria por efeito disso um dom letal. Neste afã, buscou inspiração no bosque de Vuds Pivnak, a oeste não muito distante de seu palácio. Ali, os Elfos da Flora e da Fauna lhe haviam dedicado um templo, e este, grato pela devota homenagem, abençoava de sempre aquela raça e local, de modo que insuflava propriedades farmacológicos e fitoterápicas em todas as fontes que naquela contingência manavam, transformando o templo em uma botica muito prestigiada.
Durante as horas noturnas, rastejava em derredor do edifício, velado sob as folhagens, contemplando tudo em que corria seus olhos sob azo de ser realmente impressionado por algo, até que de súbito, se deparou com uma cena que encheu-lhe de graça e entusiasmo.
Sob a luz das arandelas, ao centro de um coreto a margem do rio cristalino, entre as flores e ervas medicinais que pendiam de beirais e parapeitos, havia uma bela Elfa — e diga-se que a mesma era dotada de uma singela beleza tal que notava-se acima até do padrão Élfico. Ela estava rindo, e seu sorriso a fazia ainda mais radiante. Não estava só, estava com víboras de pequeno porte de tom azulino, e brincava com elas, e elas de igual modo, parecia-lhe retribuir o gesto de igual maneira, se encaracolando entre a vasta cabeleira Élfica da donzela, intentado, ao que parecia, fazê-la um nó. Enquanto duas se divertiam, uma estava sendo orientada com zelo e delicadeza pela Elfa para um propósito evidente, extraindo com gentileza, deitava seu veneno em um recipiente comumente usado pelos Elfos para um dispensário de antídotos, uma ânfora de prata, cujas as alças recordavam um caduceu.
Quando a Elfa finalizava, a segunda e terceira vez aquelas extrações, as víboras se voltavam pelos seus braços, subiam até os ombros produzindo cocegas, e embrenhavam-se a todo gosto em seus sedosos cabelos dourados. Sua beleza, seus gestos, suas gargalhadas, ornava a um aspecto tão impressionante que desafiava a realidade da própria dimensão, isso tocou Adiastikus profundamente, pois assim ele considerou.
O Príncipe das Selvas, hipnotizado pela sublimidade do que testemunhava — a simbiose em harmonia plena — retornou a toda pressa para seu covil no leste, com receio vencido de encerrar tal estupor, não porque se fartara daquela contemplação, mas porque fora prevalecido pelo entusiasmo de empreender o curso de sua ideia.
Ali, Adiastikus correu para interior de uma gruta, cuja portal velava-se com uma densa cascata. No recinto, desprendeu-se de seu envoltório ainda recém formado, o que lhe custou dolorido sacrifício. Saiu dali, deixando o invólucro de sua carcaça envolta em seu próprio sangue na escuridão da gruta, e postou-se ao lado de fora. E de fronte a alva cascata, assobiou, com boa harmonia, suaves acordes, cujo arranjo era inspirado na cena que vira, de modo que podia, por seu talento, descrever e ilustrar eventos, seres e locais com a música sibilante de sua bifurcada língua.
De repente, da cascata, pouco a pouco, saiam altivas, porém sob gesto delicado, muitas daquelas que se denominariam Górgonas. De rosto e busto dotados com exuberante beleza, mas de garras e cauda com terrível aspecto. Detinha a sublimidade da feição feminina Élfica, porém seus cabelos, eram vivos. Bem aquém da verdade, não se tratava de cabelos, mas sim feixes de víboras tais quais se moviam de moto próprio, eriçando-se ameaçadas. Do umbigo para baixo, via-se um corpo cilíndrico de crista dragônica na cerviz. As Górgonas, rastejavam-se a maneira das serpes.
Adiastikus encantado sobremaneira, fitou-as, e pôs-se a instrui-las com visível orgulho e satisfação:
“Filhas, sou Adiastikus, uma serpe e vosso pai. Vos criei segundo admirei da graça do que é belo, e as comuniquei conforme um divino atributo que a mim, semelhantemente fora exercido. Dado isto, as devo, por aquele que me trouxe a existência, instrui-las quanto a Ele e sua obra.
No alvorecer dos tempos, antes ainda de existir a própria aurora, o Uno contemplava seu próprio poder, e lhe aprouve estender sua boa graça, pois por sua benevolência, desejou que outros gozassem da mesma satisfação.
Para isto, criou todas as coisas que vem e ainda verão, segundo sua palavra, associando ao tempo seu ritmo e ao espaço bela harmonia! Qual de tom em tom, modelava o mundo na sintonia que lhe apraz. Finalizou essa esfera terrestre após edificar múltiplos e diversos cenários, que se explorarem, conhecereis. Sobre cada cenário, constituiu príncipes. Os principados que são privados de razão, como Sol e a Lua, regem toda criação privada de mente, como as estações e os períodos. E as Potestades dotadas de razão, governam aqueles que cuja mente são avidas a viver. Desta última classe, faço eu parte por vós.
É sob os auspícios deste Criador, que tudo é regido, pois ele detém o controle de todo alvitre, e deste é a motriz de toda motriz, nutriz de toda nutriz, pois ele foi matriz de toda matriz. Que Este vos abençoe e as faça participante de todo nobre gozo sob o céu.”
Ainda em Corlignum, porém em Al-kumahá, entre os cânions orientais, um Elfo cavalgava explorando por mero prazer da curiosidade, a vastidão da terra. Orghoy, o Senhor do Deserto, o sentia e observava, quando este partiu de seus domínios, Orghoy meditou por várias vigílias, até que julgou a hora de empreender o curso de sua missão.
Erigindo-se das dunas, fitou as rubras e carrancudas facetas das formações rochosas, e de seu próprio corpo foram emitidos pulsos de ondas, pelas quais o solo pulsava em resposta. As areias demoviam com tremor, as rochas trincavam, fendiam-se e desmoronavam-se a queda livre com grande estrondo. Quando o pó descansou sobre o solo, e a parda nevoa dissipava-se, descortinou a vista uma imagem esculpida de algo estranhamente criativo. Do umbigo para cima, busto de biótipo mesomórfico e rosto Élfico, porém de delicadeza subtraída, de feição severa. Seus cabelos desciam a semelhança das crinas, em crista, pelas costas, cernelha, dorso e garupa até fundir-se com uma cauda, correspondendo ao que havia abaixo do umbigo, um imponente tórax seguido de um antepeito equino. Era um aspecto que evocava majestosa brutalidade. Haviam em quatro cores, albino, baio, negro e pardo. Foram denominados primeiramente de Hipocentauros — abreviando-se a posteriori na forma de Centauros.
Orghoy, após chamá-los pelo nome, baforou o hálito de sua bocarra sobre as estátuas, as quais inspirando, tomavam o fôlego de vida. Quando fez-se no olhar o ascender da consciência, fitaram Orghoy com reverente admiração, bradaram a sonância do relincho, empinaram e mesuraram com gravidade. Curvando-se, ouviram como que sob um eco de sua própria mente, uma sábia voz em grave tom:
“Oh raça forte! Que subjuguem tudo sob seus cascos, que neste deserto donde vosso guia é o mapa celeste, possam dominar sobre todos e zelar uns aos outros. Que sobre as dunas e além delas, estendam vosso domínio e ouçam seu clangor. Agora pois, ouçam, inclinem seus ouvidos e abram vossos corações e atenham-se em vossas mentes, minhas palavras, pois para isto criei-vos e por isso fui criado. Cabe a mim instruir-vos sobre aquilo que bem entenderão.
Há o Uno, e ele é o escultor de tudo que está no mundo e fora do mundo, ele é o tempo onde a eternidade foi gerada, ele é o espaço onde a infinidade foi concebida, ele é, por sua própria natureza digna de ser reverenciada por tudo que é natural, sobrenatural, preternatural e supranatural. Com sua sabedoria e pela sua palavra, o globo veio a existência, com sua palavra todas as estações, biomas, e astros, receberam sua designação e ordem. Pela sua sabedoria, todo princípio elementar, fundamentos materiais fora magnificentemente estabelecido. Pois sua palavra é lei, todo Sátshi e Myótri, recebe sua existência direta ou indiretamente, pois nada se compõe se não o aprouver, sua lei é amor. Tudo pondera e nada o discerne, pois seu amor é justiça. Que o amor e a justiça sejam vossa lei, atem-se como joia ao diadema esses atributos comunicados em vossa fronte. E se um dia afastarem-se disso, que caia o cavalo e cavaleiro e que as areias sepultem vosso broquel e lança, e que ao pó retornem sob a ruína. Vão filhos, e sejam irmãos, recordem, vossa mãe é a razão, e desejo que desposem a sabedoria, pois digo-vos, que sempre estarão diante O Pai de vosso pai.”
Finalizando isto, Orghoy, imergiu-se sob o solo.
Por sua vez, quedava Drakata, como um rei ao trono sobre Darastrix Verthicha, conjecturando em sua sabedoria sob qual o momento e sobre qual natureza traria a luz aquela prometida raça, que lhe responderia ao chamado. Deu-se a vagar sobre o céu, buscando constatar o que de virtude havia de conferir e o que de vício havia de ater-se em mitigar a vazão na constituição daquele novo séquito. Tudo dependeria da matéria que se valesse.
Em uma densa noite, avistou um assentamento Élfico sob seus domínios, pousou velado entre as rochas e observou a altivez daquelas criaturas. Esquadrinhou cada feição e planeava, perscrutou cada movimento e planeava, estudou cada classe e ofício entre eles, e se dispunha a planear. Dentre todos, tomou noção do arquétipo que concebeu empreender, os ferreiros e os pastores de gado foram os que mais lhe reteve atenção, em particular, duas cenas. Na primeira, vira a hábil arte da metalurgia, dobravam em fogo o ferro ardente, com robustez, ímpeto e precisão. Isso lhe causou a impressão, seguido a esta, notou que quando faltava-lhes força, empreendiam o uso do jugo taurino.
Disto, inferiu o uso pela necessidade auferida, e o limiar da medida inata. Ao de força lhe era vetado autonomia, enquanto o independente, a fim de consumar sua empreita, se valia de racional argucia, se sujeitando a dependência de alguma força a ele subsidiada. Assim o fora, que aquilatando virtudes de onerações, e ponderando consequências de privilégios, concebeu a forma que correspondesse ao equilíbrio entre utilidade e nobreza, uma raça fruto do cômputo de dotes e cômpito de valor — a sua semelhança, enfim, concebeu algo de imponente majestade sob o brutal aspecto bestial.
Em sua gruta, amontoara uma imensa pira de tronco de ébano, e com seu hálito ateou chamas sobre elas. Arderam e formou-se ainda um elevado monturo de pó gris, tingido pelo negror de tições já não mais fumegantes. Drakata lançou pela segunda vez chamas, e as linguetas de fogo luziram em tons cerúleos e esmeraldinos. A transubstanciação começara, os acidentes de tal matéria transmutara, o fogo cessou e das cinzas se viu erigindo-se criaturas de terrível compleição.
O busto havia alguma semelhança do corpo Élfico, porém, de robusta mesomorfia donde toda musculatura revestia-se de uma curta, mas densa pelagem, sua cabeça, era bovina, com longos cornos afilados de cimo agudo, seus membros inferiores, eram pernas de alta patela, longa tíbia e metatarsos que findavam em cascos de falange distal.
Todos arruavam, berravam, bramavam e mugiam de uma só vez, longa e tão poderosamente, que a montanha estremeceu diante tal sinal de portento. Drakata sorriu, pôs-se altivo diante deles e disse com gravidade:
“Poderosos servos! Que vossa força seja testemunha de minha graça, que versem-se na aura que lhes é próprio a natureza, unam-se e serão resguardados. Que vossos membros sirvam a boa ordem que o Uno estabeleceu. Vós sois servos de um servo, pois é a Este quem sirvo e a quem deveis o vosso fôlego, pois ao tal, devo o meu, e assim como vós fostes por mim criado, este foi quem me criou para arte da vida e me guiou na arte do saber. Não só por mim, e não somente eu quem deve-lhe a execução de toda atividade cognitiva, mas a todos os quais, dotados de razão, consagram o exercício racional sob devoto louvor. Não somente esses dependem dele seu dote, mas absolutamente tudo, e o absoluto de todas as coisas, visíveis e invisíveis, reais e irreais, sob os sentidos ou sobre a mente, sobre o que há de ser e o que não foi, sobre o que não é e sobre o que haverá de ser, sobre o que não será e sobre o que haveria de vir, é a este que se curva tudo e todos. Tudo para ele se principiou e tudo detém nele sua finalidade.
Assim é, pois, que sob sua ordem, devo vos conferir tal conhecimento, e que estejam cônscios que este reconhecimento é sabedoria. Que no princípio havia o caos, e antes desse o abismo, e antes desse, a eternidade, e antes dessa, o Uno. No princípio do princípio havia trevas, e antes dessa o espaço, e antes desse, o infinito, e antes desse, o Uno reinava. O caos foi ordenado pela sua palavra, e por sua palavra as trevas foi subjugada pela luz. A ordem foi estabelecida pelo decurso dos astros, os quais, por sua vez, foram demovidos pelo seu sopro. Do brilho de seu olhar, incandesceu com centelha divina os luminares, que enfim foram coroados de luz, quente e fria.
Por príncipes pôs os que irradiam luz. Os súditos dos espaços são os chamados príncipes elementares, e os súditos do tempo são os denominados fenômenos naturais. Sob esta lei existe tudo o que se vê e tudo o que se sente até que tudo o que vê ou sente foi por fim criado, e assim designados para zelar de seus domínios, cada qual seu território outorgado. Assim foi, assim é, os que foram e são pelo que foi, é e sempre haverá de ser. Que assim seja conforme lhe aprouver, pois não há nada que não se demova conforme lhe apraz.”
Assim o foi que as raças aprenderam e, pela reflexão do que ouviram, cresceram em um conhecimento que legariam a toda posteridade. Encerra-se, portanto, a primeira era de Arlathil, conhecida em Elvic, como Aratik, “A Era da Criação”.


Nenhum comentário:
Postar um comentário
~ Esta obra se encontra em desenvolvimento, assim sendo, é de prezada valia a opinião dos leitores. Colheremos todas as críticas, desde que tais sejam construtivas, no intuito de proporcionar melhor experiência de leitura. ~