Prophetheia - Capítulo III

    Os quatro guerreiros partiram, descendo o campo de Veld Arklys, margearam o lago de Severní Lych até a nascente, e atravessaram a floresta de Skógur Kliringo, até a clareira leste e em seguida, rumaram para Haletá, a clareira da cabana. Era fim da noite, e o céu mostrava-se em tons caramelos na borda do horizonte, como vieram do leste da clareira viram-na a frente do campo e próximo das arvores, as luzes estavam acessas, Malak disse a seus colegas:

    - Eis a cabana que vos disse, não abordemos de maneira inamistosa pois demonstrou para comigo ser um senhor de elevada cortesia. 

Leonadair complementou:

    - Sim, de fato, considerando sua alta posição de onde veio, é um cita de valor nobre.

Lydia indagou:

    - Sendo o que era, o que o fez abandonar certos privilégios e parar aqui? – Farkas deu-se a responder: - Talvez fora banido, por motivos que minha curiosidade anseia descobrir.

    Quando então todos eles com olhos fitos na cabana admiravam-na, pela incúria da retaguarda, Akrivel “surgiu” por detrás deles e passou entre eles, com o cajado a mão esquerda, o livro preso na cintura com uma corda o pendendo do feche, com seu braço direito abraçava retendo um feixe de galhos secos, e em passos lentos caminhava rumo a cabana, e disse sem se deter: 

    - Pois bem! Em nada agregará em vossa vida conhecer a minha, mas os entreterá um pouco de história até esquentar o chá da manhã.

    Todos em um salto, assombrados de susto, envergonharam-se ao perceberem a falta de vigilância que se encontravam, emudeceram e sem jeito seguiram o velho; Malak, alegrou-se em revê-lo, pois essa era a impressão que Akrivel gerava em todos que o revia, talvez pela feição simpática e pelo carisma de sua natureza; não contendo-se, Malak quebrou o silencio da curta caminhada.

    - Trouxe uns amigos para verem que é real os contos que cantavam de ti quando crianças ouvíamos.

Akrivel o responde enquanto abria a porta da cabana:

    - Amigos, Cantos e Crianças; são palavras muito belas e bom pressagio é ouvi-las nesta manhã meu caro jovem, venham, entrem, e se acomodem como bem vos parecer, não recebo visitas a anos, e a última que tive foi a de uma pequena aranhinha.

    Todos estavam absortos de admirar aquela realidade tão impressionante; adentrando a equilátera cabana viram que havia duas janelas ao norte, duas janelas ao sul e uma ao oeste ao lado da porta; na parede leste (a qual era a primeira que se via ao entrar) havia uma extensa, porém baixa estante e empanturrada de livros, uma mesa escrivã estava à frente da estante, e uma cadeira de encosto alto ficavam entre esses dois moveis, no canto noroeste havia a cama, no seu pé rumo ao Sul havia um baú de roupas, na parede norte ao lado da cama tinha uma pequena mesa refectória (acima desta localizava-se a primeira janela norte), e ao lado desta um armário alto e fechado, em seguida no canto nordeste da cabana tinha uma lareira de pedras não lavradas e com duas poltronas posicionas em cada banda da lareira (entre o armário e a lareira estava a segunda janela norte).

Leonadair, recuperando o sentido do êxtase do encontro, apresentou-se para o vetusto:

    - Sua presença aspira elevada estima, bom velho, agradecemos a honra de sua hospitalidade – fazendo uma mesura, continuou – sou Leonadair, Capitão mor da alta guarda de Liontarium; estes são Farkas, meu escudeiro da província de Arkoudarium, o reino do norte, Lydia, a Comandante da tropa arqueira de Aquilarium, e Malak de Fidiurim, nosso atalaia, patrulheiro das terras do sul – e todos eles acompanharam a mesura conforme foram apresentados.

O velho sorriu, mesurou e disse:

    - A honra é minha em recebe-los, os títulos e as posições inclusive, são louváveis, mas o que realmente tem valia é o serem chamados amigos; e quanto a sua pergunta curioso Farkas, não fui banido, mas me bani; os motivos? Meus amigos e aqueles que eu chamava de irmãos enamoraram-se do que é contrario ao bom alvitre; e o mal que ataram no coração os traiu e enredaram-se o preço da ambição e se condenaram a escuridão, pois a cidade ruiu com as almas que eu estimava, e deles não há canto, mas somente lamentação. – Neste momento Akrivel colocou água no buli e o pendurou na haste acima do fogo da lareira, e notaram algumas lagrimas correndo de seus olhos, mas então inquiriu tranquilamente – a que devo a vossa visita crianças? – e riu olhando brevemente para Malak. – Sentem-se visitantes, vamos! nada é meu, e a cabana é vossa.

    Malak ajeitou-se na poltrona do lado leste, Leonadair na do Oeste, Lydia e Farkas ocuparam os ambos assentos da mesa refectória, Akrivel sentou em sua cadeira de encosto alto, e encarava o fogo; Leonadair, elevou os olhos ao velho e discorreu sobre os assuntos do império:

    - Á três noites atrás, nossos batedores estavam fazendo a patrulha próximo a floresta de Rytaia Adavi, ali, surpreenderam um acampamento Órquico, e havia um com eles, o qual parecia ser um mensageiro, que tomaram para inquérito, este falou sobre Thardulks, e uma tal de arma, que disse que havia acordado, mas o Orc logo morreu nos deixando mais dúvidas, com este, havia um fragmento de pergaminho com algumas inscrições, o qual segundos os sábios de Dovarium, a quem recorremos para sanar algumas questões, disseram que está em um idioma muito antigo, não mais vivo, e que somente Akrivel e alguns bruxos de Mubatur, habitantes das florestas do leste, podem lê-lo, e nos aconselharam a vir ter contigo, pois segundo eles apenas tu pode nos oferecer a compreensão deste, sem malicia, julgamos ser alguma mensagem dos Thardulks requirindo ajuda dos Bruxos, ou algo desta natureza, e nos pomos a desvendar temendo maquinação inimiga – Leonadair, tirando um diminuto relicário, abriu e o estendeu para Akrivel, que lentamente tomou o fragmento de dentro, e admirava-o como se já o conhecesse, perpassou com o olhar suas linhas letradas e em um suspiro, pôs o fragmento sobre a mesa, fitou os olhos de Leonadair respondeu:

    - Sim, está em minha antiga língua, hoje morta, a Arkin, o idioma de Portuária, a cidade em que fui Mestre-mor no Alto Conselho de Sábios de Arkinarium, estive lá quando isto foi escrito e assim é lido:

    Do sono levantará,
Aquele que diante de ti tudo fenece;
Dos quatro ventos se ouvirá,
O brandir daquela que adormece;
Da negra água virá,
O que sepulta quem o sol escurece;
A noite não mais ferverá,
Em tempos de parto, a mãe padece...

    Assim encerra esse fragmento, pois parcialmente foi transcrito, porém, tenho em minha memória o último verso desta canção:

    Ouça! Ouça filhos da aurora!
O rebento, o renovo, o ultimo clarim escutai!
É chegada a hora, rumo a nova era, marchai!
Tocaram a orla do tempo, vinde e adentrai!

    Leonadair, interrompeu: - É só um poema? Alentado então estou, vão era o que inimigos intentavam! Quem o escreveu?

Akrivel, seriamente continuou:

    - Não somente um poema; isto é um Epifanum, um artificie que obram os profetas a fim de atestarem a legitimidade de sua predição; as letras se ocultam sete anoiteceres depois de escritas, e de fato, contemplamos a tinta na face do couro se esvanecer como as estrelas se apagam no breve amanhecer, e voltam a se manifestar sete dias antes de seu augúrio consumar; quanto ao autor, não informou-nos seu nome, mas era um vate, poeta profeta, e o vimos escrever, ele estava em êxtase e tomado por uma intensa luz nos olhos, nos entregou este oraculo, nos exortou a vigilância, e nunca mais foi visto desde então.

    Todos estavam pasmos de assombros com o instigante relato, e em múltiplas perguntas com atropeladas palavras, dessintonizavam entre si: 

    - Como assim voltou a aparecer? E o que então significa? É o fim do mundo? O que aconteceu com ele? Pelas barbas de meu bode! – em meio ao furdunço ouviu-se por fim de um deles com um desfalecido animo – o chá tá pronto? – era Farkas esverdeado de fome com as mãos sobre a barriga.

O sábio respondeu de forma calma:

    - Serenem-se apatetados, duvidas surgem da impaciência de ouvir; sirva-se o chá jovem Farkas, há pão no armário, sacia-se, e com ele juntamente vocês, tomem e comam enquanto sano suas questões na medida que posso; enfim, continuando, quando dele recebemos o augúrio, empreendemos o intento de interpretar antes dos sete dias, pois como éramos mestres, nossa posição incumbia-nos a responsabilidade de apresentar a resolução concernente a qualquer mistério de importância pública, e profecias turbava a todos; enquanto nos pomos a meditar sobre suas palavras, alguns de nós tiveram a audaciosa ideia de rescrever o texto, e todos assentimos, porém, não percebemos a tolice de nosso equivoco, por um acaso, que julgo providencia, o simulacro que transcrevemos inflamou-se e foi consumido pelas chamas que emanavam de si próprio, assim entendemos nosso desvario, pois não há como burlar os meios sujeitos a leis maiores que nós, é impossível reorientar o desígnio da sina que o Uno pré-estabeleceu, me arrependi da falta quando a mensurei, desenlaçando-me de uma atroz desgraça; após consultar em meu coração o que deveria fazer, pus-me á memorizar o Epifanum antes de este velar-se, mas nada falei a ninguém, em silencio empreendi e em segredo mantive desde então, foi assim que gozei da graça de interpreta-lo, mas somente em mente pude decifra-lo, e após exaustivo escrutínio, perscrutei os caminhos da história, entendendo suas confluências com outros prognósticos de elevada natureza, assim a entendi: 

    A estrutura do oraculo é uma fórmula, um mal augúrio seguido de uma providente sentença, isto é, o problema e sua resolução e o que nos indica é a sintonia silábica das estrofes, assim enxergamos que: 

    Do sono levantará, trata-se de antiga besta do norte, que segundo os patriarcas adormeceu após conversar com os primeiros habitantes da terra, ela foi a ruína de nossa raça. 
Diante dela tudo fenece, se deve ao fogo que pode exalar de seu hálito.
Agora, inicia-se um novo par silábico indicando o juízo: 
De quatro ventos se ouvirá um brandir, trata-se de uma lâmina Élfica, 
Dos quatro cantos de Corlignum, é onde encontramos as substancias que embebedam a lâmina.
Da negra água virá, é o leviatã do mar sul, que segundo entende-se pela sina da besta proferida por um antigo vate, “sua irmã te matará”.
Sepultará, é o ato contra a besta que tal criatura obrará.
Sol escurece faz alusão a fumaça negra que sobe dos incêndios, e a noite não ferverá se deve ao fato de que seu terror a noite não mais assolará, 
Em tempos de parto, a mãe padece é uma expressão profética que diz respeito a aflita tribulação que precede o gozo triunfal.

    A última estrofe sinaliza um galardão, e é diante desta, que sustento minha esperança, pois nos revela um porvir melhor, assim, não digo o fim do mundo, mas um novo início, um recomeço de paz com amigos eternos, crianças alegres e cantos de pós vitória!

Leonadair encarou com olhos fitos ao fogo, e indagou:

    - A arma é a besta, e os Thardulks se valerão da ruína que ela traz consigo como vantagem contra nós, temos de achar tal lâmina e a enterraremos na fera, mas antes devemos marchar contra os bruxos a fim de desmantelar o apoio da retaguarda, levantemos irmãos, há muito o que fazer – todos se levantaram, e Akrivel aproximou-se da janela sul, admirou-a o horizonte nela estampado, juntou as mãos para trás de si, e disse quando todos se aprontavam para partir: 

    - Se posso vos sugerir um conselho, se atentem; sobre a lâmina, os Elfos de Coraar, vos informarão onde encontrá-la; sobre o leito da besta, os anãos a apontará; e contra os bruxos, somente Dovarium poderá vencê-los.

    - Entesouraremos seus conselhos mestre Akrivel – respondeu Leonadair já saindo a porta, e continuou. – Que o Uno lhe conceda o que mais seu coração preza, meu valoroso amigo.

Akrivel assentiu com a cabeça, todos em seguida se despediram e agradeceram a hospitalidade, montaram em seus cavalos e partiram. Já era meado do percurso do sol daquele dia, e a banda norte além das cordilheiras, estava curiosamente avermelhada.

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