Mulfalut brandia sua espada, quando testemunhou um silêncio sepulcral tomar todos os homens de súbito. De pronto notou a razão disto. Das muralhas elevavam-se sete magos, cuja presença fez soluçar muitos Dovaritas, os quais entregando-se as lágrimas, meneavam a cabeça indisposto a aceitar o que os aturdia. Eram os Eptarkas, os Sete Senhores de Dovarium, da Sagrada Oligarquia! Sábios dos Sábios, ou pelo menos, o que havia restado deles. Eram seus rostos, eram seus corpos, estavam com suas vestes e com seus cajados, mas uma agourenta áurea sobre eles, encarcerava a boa lembrança de sua memória. Um bruxuleio esmeraldino em seus olhos fulgurava no semblante irado com feição de aspecto hediondo, como se algum diabo se prestasse a aquele simulacro. Logo via-se pela janela de sua alma, que a mesma não se encontrava mais naqueles templos tão reverentes, mas alguém ou alguma coisa, havia dali se apossado.
Exibiam marcas de torturas severas, lacerações ainda estavam abertas, e delas e de seus ouvidos, narinas e boca ainda via-se fluir, verter e gotejar sangue, e sangue em mínguas. As alvas barbas, outrora imaculadas, agora estavam tingidas em tom carmim. Eram cadáveres, sem margem para dúvidas, e seus olhares fitavam um horizonte que não se podia expectar.
Era uma grotesca piada, que não se poderia porém, negar a eficácia de sua finalidade, todos Dovaritas, baixaram a guarda, por reação adversa a que se vira nos homens, os quais, se indignaram a tal ponto que partiam as cegas contra a muralha bradando iradamente toda sorte de maldições.
Mulfalut, recobrando-se do pavor que assistira, logo percebeu essas reações corresponderem ao propósito mal intencionado do inimigo, pois, os magos, abalados, negligenciaram o suporte que prestavam os homens, e os homens por sua vez, se portanto como bestas irracionais, avançavam não mais conscientes da desvantagem de sua força em comparação ao que desafiavam combater.
Mulfalut bradou: "Não avancem! Recuem!"
Tarde demais. Antes que finalizasse suas palavras teve-se de desviar de pedaços de corpos que voavam para os quatro ventos, uma linha de pólvora, matriz de fogaréu, agora se revelava circundando toda a extensão sob a falda da muralha. Qual incendiada no momento em que os invasores cruzaram, explodiu, convocando a inferir quem restasse, um campo minado com artificio de ardil mortal.
Da explosão, labaredas alastraram o fogo doente da feitiçaria, o mesmo em flamas púrpuras vieram a uma velocidade sobrenatural, devorando corpos e consumindo o campo com um afã diabólico. Muitos vislumbraram quem regia aquele fogo cruel. Os Eptarkas hasteavam seus cajados de ébano encimados com o busto de uma dragão com a bocarra escancarada para o céu, e com eles faziam o fogo dançar sob as suas orientações.
Muitos homens fitavam os druidas e magos proponentes, ansiosos por uma resposta de combate qual se fiavam, mas abateram-se pela frustração com o que se vira. E logo tornou-se claro a genialidade do plano inimigo. Os Dovaritas, a ultima esperança dos homens, pelos quais equivaliam a força da afronta, não lutariam. Todos os magos, de todas classes e ordens, estavam com um dos joelhos em solo, com cabeças baixas e apoiados em seus cajados. Era o sinal fúnebre de luto pelos pais.
Mulfalut, perspicaz como era logo inferiu: "É preferível a morte, a derrota, a desgraça que tão somente intentar o pleito contra seus pais, mesmo que sejam desses, tão somente seus cadáveres." E assim de fato o era, pois como reza o código dos magos: "Como deve ser: O principio axiológico consiste em devotar valor a quem precede, e isto entende-se por honra. Pois tudo o que sucede é sujeito aquele de quem tem procedido, pois se quem precedeu não houvesse, quem dele se segue não haveria. Assim o é como foi dito: Somente irmãos em nome da confraria ortodoxa se pode desafiar em prol do bem comum. Contra os pais, porém, jamais! E se a infelicidade por essa via acometer, basta aceitar a sina, pois é juízo!"
Era o fim, a ordem engolfou o destino de todos naquilo que entendia por sina de juízo, a erradicação dos homens por conseguinte, era inevitável. e isto foi assumido por todos, fato enfim, para ser consumado. As chamas os cercaram, a temperatura já tiravam dos homens, gemidos. Não havia esperança, mas apenas a expectação do fogo que urgia.
Mulfalut fechou os olhos, pensou em sua Ha'ad, e como se essa respondesse a seu pensamento, sua águia piou dos céus, e veio até seu ombro pousar, dizendo em atitude que estava, antes disposta ao vitupério do sacrifício, que viver sem aquele de quem não suportaria a falta. Uma lágrima correu de seu rosto, e a dor transpassou-lhe o coração.
Mas o crepitar cessou, a temperatura amainou. Havia silêncio e frio. Abriram os olhos, o fogo se extinguira, e nem calor no solo havia presente. Todos estavam despertos e estáticos, pois a cena que presenciavam, suspendia todos os sentidos, com a exceção da visão, que encarcerava-os naquele momento. Um estupor sem igual os havia acometido, e parecia ali encerrá-los.
Pois postado em frente aos magos ajoelhados, estava em pé, não outro, se não Akrivel. Barba alva, largos ombros e um semblante serenamente sábio. Seu manto azul de barra ornada em ouro, sua capa marrom de capuz longo e broche em bronze, seu livro de cinta pendido a cintura e seu cajado em nogueira com pomo leonino conferia naquela figura imponente a reverência que exalava.
Pareceu mais velho que aparentava - se isso era possível - demonstrava uma indignação sem ódio. Fechou os olhos, visivelmente lacrimejados, e de repente, do cimo de seu cajado viu-se um lampejo na pedra opala enclausurada da bocarra do leão de ouro velho.
E então, todos viram. Como que orientados a vislumbrar as figuras dos Eptarkas. O agourento fulgor nos olhos, da maculada oligarquia, esvair-se e se apagar. Espectadores sem fôlego assistiram os sete cadáveres desde os céus, em queda livre. Após a sequência impar de baque surdo, ali jaziam, enfim abandonados pela força que os dominava.
O som ocasionado pelo fim de suas quedas, tamborilou os corações, e um sopro gélido sob ar frígido, causou uma reação animosa. Dezenas de pássaros negros revoaram das muralhas, corvos, abutres, corujas, todos de aspecto cadavérico - segundo informaram alguém que disse os ter reparado.
Um jovem mago, empunhando o cajado bradou fitando a centena de criaturas aladas: "São bruxos! Protejam-se!" todos acataram seu comando, menos Akrivel, que os observando disse calma e fortemente: "Não temam! Eles se deram por desertores e pelo o que testemunharam, não ousarão desafiar. Não por agora..." - disse sombriamente Akrivel, enquanto os pássaros em revoada estavam em desordem, e desbaratavam-se para os quatro ventos da terra, e de modo tal, que em breve tempo, não viu-se mais movimentos nos céus. Orientando os olhos para a direção sul, Akrivel continuou - "mas quando o ímpeto do súbito amainar, então vos aconselho a se aterem nesta advertência: Protejam-se, pois não serão apenas bruxos e não haverão mais de desertar. Pois o fôlego destes está fiado em vosso último suspiro."
"O que isso quer dizer Mestre?" Inquiriu um homem da infantaria, sem a obrigação de saber que a um mago não se deve fazer repetir, mas cabe ao ouvinte, intentar desvelar as palavras pelo exercício da razão, ou caso esse não seja capaz, cabe ao "intérprete de figura" tal dever. Pois assim era o método de ensino dos magos.
Um velho mago fidirita, admirando a postura de boa vontade em Akrivel e sua disposição em responder, não o permitiu, apressando-se antes e dizendo: "Não se incomode, grande Mestre! Sou intérprete." pois é sabido pelo código que os velhos não costumam repetir, para não fomentar a impertinência dos pupilos, e não fazer vão os último tempos de fôlego que o mestre possui, fato que incubem os menores para essa presteza, isto é, cabe aos magos que sucede em ordem os Altos, este sinal de honra e de serviço ao interpretar seguramente o que se entendeu pela sabedoria, de modo que este, elevando a cabeça falou: "Assim disse Mestre Akrivel! Isto é... Que o inimigo virá e fará guerra novamente com maior poderio, pois são cônscios de que a existência deles depende de nosso fim. Sua consolidação só será garantida se formos erradicados, e devido este entendimento, no próximo embate, eles vão depreender toda a sua força, custe o que custar!"
"A nossa existência, fiamos a ti, Mestre Akrivel, Sumo Philít!" - Disse um jovem druida, sendo aquiescido por sua turma, que ostentavam o brasão da mesma ordem. Akrivel os viu e ouviu, mas não deteve-se a atenção, antes, desviando o olhar, os ignorou, pondo-se a fitar de longe os cadáveres. E então disse, sem demover da posição:
"Grato pela sua boa vontade, irmão intérprete. Mas permita-se ser ensinado pelas eventuais consequências que poderia advir de vosso fanatismo. Isto te ensino com peso nas palavras, pois foi a pouco, que isto aprendi. A sabedoria torna-se irracional, quando o nosso 'eu' é a única finalidade de nosso saber. Que não seja assim irmãos!" - começou Akrivel, elevando a voz - "atentem-se antes, a quantos pequeninos vós puseram em risco por orgulho de vossa suposta grandeza. Advirto-vos! Estejam dispostos a abdicar e renunciar qualquer compreensão de conceito ou percepção de sentido, quando outros menores que vós, dependem de vós o meramente existir. Cometeram um erro, como eu cometia, mas não mais. Pois estou farto! Desta minha doente consciência..." - e suspirou fortemente, como quem sente dificuldade de aspirar - "o zelo a vocação neste ministério é dispensável quando serve o próprio ventre, e o ministro é nocivo quando faz de si seu próprio chamado, somente uma formalidade é coerente na situação que nos acomete e creio que os mortos, quais por vós morreram, são dignos de serem honrados por ela. Sepultem seus irmãos..." - e virando-se para a direção e que jaziam os corpos dos Eptarkas, continuou - "Sepultem seus pais. E com eles, aproveitem em sepultar vossa vã formalidade, para que um amanhã, ela não venha sepultar os seu próprios filhos!"
O interprete enrubesceu, os jovens baixaram os olhos por visível vergonha. Mas quem poderia questioná-lo? Quem ousaria discordar daquele bom tino, agora reacendido em si mesmos? Sabido que nada se pode intentar contra a verdade e a mesma quando proferida, convence a todos, pois pela própria consciência dos ouvintes, é por fim atestada. Assim, todos os druidas levantaram-se, mesuraram e se puseram a recolher os corpos com auxilio espontâneo dos homens e homens-feras.


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