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Após alguns Orcs de Wargs verem a terra fender-se diante o velho, não se demoraram e de pronto se puseram a levar o ocorrido até Mubatur; decorreu-se a manhã daquele dia até cruzarem Invoer Cvet e Liek Hemerá; e a tarde para margearem a encosta sul de Mornuroz Wuglin; chegando a aldeia bruxa no velar do sol.
Quando Apolium tomou ciência dos fatos narrados, não se demoveu nem disse algo, antes, demonstrava-se pasmo e absorto nos pensamentos; ponderando e temendo o que as testemunhas evidenciaram: “Um velho de longa barba alva, túnica negra e manto marrom, com broches de capa, bronze em cruci-forme”; Apolium, percebendo que a descrição dos trajes recordava-lhe os hábitos acadêmicos de Arkinarium, e o broche referia-se a mais alta cadeira do terceiro poder, a supra posição de Kiriom, a qual somente Akrivel, havia se assentado; abalou-se de tal maneira que dispensou todos do salão em que se encontrava, e sob um único olhar todas as velas se apagaram.
Ali, engolido pelas sombras, atormentado pelas lembranças e pelo medo de ser quem julgava que era, Apolium, como uma aranha que tece suas teias no azo de tomar a presa, tal, maquinava seus planos a fim de aluir todos de seu desgosto.
Em meados da noite, Apolium convocou seus pássaros, sob a ordem de sobrevoaram toda a Skógur Kliringo, em busca de um velho homem que portava as características informadas, e quando o achassem, deveriam lhe entregar uma mensagem; e dali partiram, seis dezenas de pássaros de aspecto cadavérico (dentre os quais achavam-se Corvos, Corujas, Abutres e Falcões), todos no afã de consumarem o talante astuto de seu mestre.
Ao terceiro grau lunar, daquela mesma noite; um corvo avistou a cabana de Haletá, e desceu até os galhos de uma árvore próxima a janela frontal, e dali pôde ver o velho segundo as descrições.
Akrivel, naquele momento, encontrava-se debruçado sobre seus livros e punha-se a ler serenamente, sob um aspecto pacifico, assentindo com a cabeça de vez ou outra, como quem concorda com as palavras que lê.
Mas de repente, tal absorta leitura fora interrompida, quando a luz das chamas da lareira da qual ardia, sufocou-se pela penumbra, amainando o brilho a meia luz; as velas de menor flama, apagaram-se; os ruídos das galhadas e sopro do vento já não eram mais presentes; até que então, o tranco do feixe da porta estalou, a maçaneta girou e a porta abriu-se lentamente.
Akrivel fitava estático, e quando de todo a porta abriu-se, pôde ver não próximo, alumiado pelo brilho lunar, a silhueta de um homem curvado, como quem mesura, com capa de capuz negro e seu rosto não podia ser visto, este, com uma voz medonha em sussurro de timbre duplo, pavorosamente grave e execravelmente aguda, pôs-se a falar:
“Oh distinto entre os homens! Sob o nome venerável, que por ti há decoro, é por quem eu me ponho frente a ti, e daquele que diz: Ao meu amigo irmão, são as seguintes palavras: Kiriom, Mestre dos Mestres, deleitei-me na graça de saber que ainda o mundo goza de sua presença, e a terra ainda julga-se fortuna por ter tu como aquele que pisa sobre ela; venho a ti, alçando por estandarte a honra de nossa antiga e leal amizade, a fim de convocares a ater-se as minhas propostas a teu favor; quando quiseres, aguardar-lhe-ei em Hitsá, na clareira da Pedra, até mais ver, meu nobre irmão!”
E terminando as palavras, o homem transfigurou-se num instante em ave, e alçou voo; as flamas reacenderam e a lareira lançou o brilho de seu princípio; o vento voltou a soprar, as galhadas retornou aos seus bulícios e as folhas, seu farfalhar.
Akrivel então acordou, e em desnorteio se encontrava, pois não podia discernir se o que vira fora real ou ludibrie; tal delíquio impeliu-o ao descanso, do qual de súbito acometeu-lhe o sono; dali dormitou, até a pós aurora.
Em meados da tarde daquele dia, Akrivel meditava a respeito da experiência que teve, ponderava as causas e possíveis riscos, e objetava as reflexões que lhe insurgia, a fim de desvelar o propósito daquele intento, se em hipótese, julgasse como fato; porém, nada era claro suficiente para propor a natureza do evento, e desta maneira, a incerteza suscitou-lhe a sanar sua curiosidade, e sem aferir ao tino sensato, comprou o risco, e pôs-se a caminho de Hitsá; não muito distante dali.
Chegando enfim, no limiar da clareira sul, pôde contemplar o misterioso monólito milenar, o qual já conhecia de andanças d’outrora; mas Akrivel, não encontrou ninguém, e avançava em passos lentos, incerto de sua disposição; tudo parecia maravilhosamente bem, e a beleza do local extasiava o espirito; em determinada altura, frente ao monólito, quase ao centro da clareira, Akrivel, inspecionava de um lado a outro a procura de alguém, e nada encontrando, nem nada além do natural acontecendo, desdenhou da possibilidade do ocorrido, e riu, prestes a tomar-se por louco, por pôr-se a averiguar o que a mente sob o sono, em sonho propusera (assim julgou); mas de repente, Akrivel, ouviu como que no antro de sua mente um sussurro em língua inaudível, o sol escondeu-se por detrás de densas nuvens, um corredor de vento assoprava as folhas ao derredor da clareira, os pássaros calaram-se, e os sussurros aos múltiplos passou a ser ecoada por toda a clareira, o aspecto do ambiente envelheceu, as árvores perderam tom corado, o ar tornou-se pesado, e o monólito então enfuscou-se em tom negro, como se uma densa sombra o envolvesse; Akrivel suspirou profundamente e empunhando firme o cajado fitou a pedra; a qual desvelava uma insígnia na fronte, uma tríquetra composta por uma tríade de numerais 6, do símbolo, luzia um azul frio que tão somente vê-lo, entristecia a alma e roubava a vida, de modo que, conforme brilhava, as ervas e gramíneas ao derredor feneciam.
E então, das pedras ouviu-se uma voz, grave e profunda como o abismo, e conforme esta falava, os sussurros lhe faziam eco, e isto era o que dizia:
- Akrivel Kirion! Mestre de Mestres, [...Hutnak...] sou Kahi Apolum, Defensor do Conhecimento, sou aquele que nos tempos de glória, assentou a destra do alto poder, juntamente contigo, meu irmão; [...Sérifu...] e venho a ti agora tendo-me como o mais agraciado dos seres, pelo privilegio de possuir os teus ouvidos as minhas palavras; quero que tome ciência de meus pesares, saiba amigo, eu sinto suas dores, e me atormenta ver alguém de tão sublime presteza e de tão elevada natureza sendo olvidado pelos homens ingratos! Akrivel, quero oferecer-te a honra segundo a sua medida, quero conceder-lhe a posição que lhe cabe, aceite e assente na cadeira que mereces; tu sempre pregaste que os humilhados haveriam de ser exaltados, eis que venho a ti agora, dizer-te que o tempo de sua humilhação se findou, e o seu tempo de gloria enfim bate as portas! [...hu hurussus...] Tome o cetro e reine ao meu lado, como outrora fizemos sob o título e vocação magistral de Arkin; mas agora, não somente sobre a fonte do saber, não somente sobre um castelo ou cidadela, mas sobre toda Corlignum; é para isso que viemos ao mundo, esse é o nosso chamado! Somos deuses, e é posse dos deuses o domínio; [...hat hetrum...] subjuguemos agora essa raça desprezível que a tanto tempo lhe desprezou; é sensato que aceites, e bem sei que aceitarás, pois és sábio, e não deixará de perceber a natureza do poder que o Uno nos dotou, e da força que há em ti, veja e recorde as grandes obras que operamos, os milagres que obramos, as maravilhas que fizemos; oh, meu mestre! Responda a teu inquiridor, a fim de qual azo e por qual razão, o Uno nos agraciaria com tamanha força e poderio? se não fosse para usufruir disto em prol de sua glória, curvando todos esses ignorantes rebeldes que vivem segundo a mediocridade de suas vãs concupiscências contra aquele que é digno de toda veneração! Medite meu irmão, e verás! [...hararussus...] A missão já fora outorgada, e nosso talento desvela que a nós foi incumbida; sei que aceitarás, e para tomar posse desta glória, basta-lhe apenas tocar teu cajado na insígnia a sua frente, e tomar do sangue que da pedra escorrerá; e então será revestido com um poder ainda mais sobre-excelente do que aquele que possuis [...huksunuk...].
Akrivel, fitando a pedra, meneava a cabeça, após um breve desvio de olhar, voltou a encarar a insígnia que cintilava, e sob um timbre lento pôs-se a expor sua disposição, com autoridade de um espirito grave:
- Ó prole do diabo! Desvela-te estar cheio de todo engano e toda malicia, inimigo és de toda justiça, não cessarás de perturbar os retos caminhos do Uno? Digo-te que é em ingenuidade que intentas, enlaça-se no engano de teu próprio veneno em pensar ser capaz; pois revelo-te, tudo o que intentares, no fim, redundará para a glória daquele que tu se opões, as sombras em que tu habitas, ofuscou-lhe a verdade, as trevas que escolhestes, semeou o joio no teu coração; e a escuridão, que te afogastes, perverteu-lhe o siso; optou pela mentira, e mentistes para ti mesmo; raça de áspide, tua ambição seja contigo para a perdição, como pôde julgar que se logra tal sacro proposito divino pela vã e profana artimanha maligna; tu não tens parte, nem sorte nesta palavra, pois teu coração não é reto diante do Uno; arrepende-te, pois dessa tua iniquidade, roga ao Uno, para que porventura te seja perdoado o pensamento do teu coração. Pois vejo que estás em fel de amargura e em laço de iniquidade!
Encerrada as palavras, ouviu-se um alarido de vozes sussurradas, e um timbre irado ecoou da pedra:
- Escolhestes teu lado, miserável! Escolhestes teu fim, a miséria! [...h’irivev h’ut h’uknas!...]
Neste instante, um clarão estalou e como num piscar de olhos, tudo que se via retornou ao princípio; o víride da relva e os pássaros, e a leve brisa vindo das copas eram presentes. A pedra já não estampava insígnia, e seu tom eram o comum; diante tal súbito convalescer, a mesma sensação de dúvida, a respeito do ocorrido, acometeu Akrivel, pois recordava das palavras que disse e ouvira, como se rememora um sonho ou pesadelo.
Desta maneira, retornou meditativo a sua cabana, e pôs-se a esquadrinhar as maquinações do então desvelado, hostil impugnador. Além, de se pôr a perscrutar em seus livros, a natureza mágica daquela pedra, e a razão de sua disposição; e então, após extensa e intensa labuta, tomou a ciência que buscava de um códice Nerianor, o qual referia-se a pedra como uma chave de portal indestrutível construída pela extinta raça a fim de estabelecerem comunicação entre sacerdotes dos templos; estes, investiram nessa tanto poder, que através dela lograriam não somente a possibilidade de transmitirem a voz, como transportar o próprio corpo, porém, sob esta última concessão se dava somente a aqueles que tivessem em si, um portentoso espírito; condicionada aos capazes de aptidão moral, dos quais pelo mérito de serem dotados de virtudes supra elevadas, poderiam usufruir da suspensão, ou inoperância das leis físicas a seu favor.



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