Propheteia - Capitulo XXIII

 Arketon despertou, e bem acamado numa bela botica do palácio de Fidirium. Retomado a consciência, que segundo sua impressão, muito velou sua memória. Empreendeu seu recobro através de múltiplas perguntas e questões, e até questiúnculas, que com avidez submetia a todos os enfermeiros. Os quais, de bom grado nunca deixaram de correspondê-lo, se alegrando pela convalescência de tão amado irmão.

"Lutastes bravamente a ponto de custar-lhe a vida!" Estava respondendo um Druida, quando foi interrompido por Arketon: "O quê? Eu estou morto? Então assim é o cenário de nossa esperança?" Os druidas riram de gracejo e o principal destes continuou: "Como poderia se encontrar em além vida ainda sendo assombrado por tais dúvidas? Não é certo, que após o fim, o que é em parte conhecido o deixará de ser a fim de ser plenamente reconhecido?" Arketon, deitado reflexivo descansando o antebraço a fronte respondeu: "Ah! Sim, é verdade! Disseste uma verdade, há este principio!" Disto eles riram ainda mais, pois acharam singela a graça de sua inconsciência, uma vez que ninguém ousaria confirmar o ensino de uma druida-mor como ele fez, pois é sabido que é próprio dos sábios apenas assentir com o silêncio o que os sábios dos sábios lhe ensinam. 

Mas Arketon continuou: "Pois então, se eu morri e agora vivo, a que se deve meu retorno? o que me requere esta existência?" Os druidas, agora fitando-o, dado a surpresa da disposição, atentaram o mais antigo responder: "Dado que em sua vida, nunca deixaste de semear o dom da amizade pelos teus irmãos. Nós,  rogamos por ti. E por benevolência, o Uno agraciou em corresponder a súplica de tantos sinceros, e lhe concedeu algum tempo ainda para o gozo destes. Porém, no diadema desta graça, algo é inscrito e confiado a ti, pois enquanto ainda encontrava-se morto, nossos velhos sonharam, e nossos jovens tiveram visões, e neste, viram um leão branco rugir em seu rosto. Eu, retentor de mais anos dentre nós, não vi como eles, mas ouvi o que não ouviram: "Este é Arketon, e a ele comissiono ao auxilio daqueles que uma vez já salvou, vá! sem cajado, nem alforje,  pois do sinal hei de testificar-te com minha providência, já atuante em sua hábil mente!"

Quando finalizou de contar-lhe, Arketon temeu e tremeu, e em um salto, se levantou, abraçou-os a toda pressa, e cingia-se e tomava a capa enquanto perguntava:  "E para onde as razões de meu fim e recomeço foram? Devo encontrá-los!" Alguns jovens druidas, amigos seu de infância responderam: "Impelidos pela esperança de resgatarem os que já se perderam, formaram um sodalício, e foram rumo o sul já a dois dias, atalaias informaram que adentraram Skogur Kliringo, e considerando o tempo e a necessidade, o senso comum aponta que devem acampar em alguma clareira na próxima noite. Se forem sábios, seguirão o Liek Shnell. Antes que se vá, farte o ventre conosco, de nada servirá assombrado pelo mal estar do apetite."

Arketon, após tomar alguns pães asmos, saiu em disparato como um desvairado: "Onde estão vós Hammardzak e companhia?! Valei-me Dodekas pois tive de morrer para encontrar o propósito de minha vida!"  Como todos muito bem conheciam o animo preternatural de Arketon e como, sábios como eram, se amparavam sem sombra temor ao cuidado do Uno, riram encantados e cheios de esperança, e o glorificaram pelo novo ensejo dado a aquela amada alma. Quando atravessou o portão sul de Fidirium, gritou a um amigo que detinha um cavalo de boa fama, por ser veloz: "Eleatzar! Emprestai-me-o, se eu morrer, ressuscito para devolver-te!" e saiu rindo, enquanto Eleatzar respondia jocosamente: "Não deixam matar-me o cavalo, ele não goza desta garantia!"

Arketon cavalgava, com mantos terracota sobrecapa azul e alva túnica, cingido com um cinturão de couro, estando sobre o cavalo malhado, alvo com manchas marrons selado com adornos em couro e anil, não podia-se imaginar que combinavam-se sem pretensão. Cruzando Nuvio e Ren em poucas horas, chegou as margens de Liek Dzoná, ali soltou o cavalo, qual mansamente retornou a galopes rumo ao norte.

O tempo escurecia, esmorecia o clima refulgido, som de gotas alvejavam as miríades de folhas, cada qual ao acaso de seu tempo, de submetida desordem, que mesmo apesar de sua lei natural, não deixava de entoar sua melodia contemplativa, selvática, porém, ainda assim harmoniosa. Foi assim, sob a musica da chuva, que Arketon, deixou a margem esmeralda de Liek Dzoná para adentrar as sombras de Skogur Kliringo.

Mesmo sendo Skeilag, a arte dos Beeird foi pelo druida aprendida habilmente, de modo que demonstrara sagacidade em sua leitura de rastros, interpretava o ambiente, como se este fosse um livro de saber já esquadrinhado. Pelo canto dos pássaros, pelo sopro do vento, pela espécie das árvores guiava-se atendo a tudo que estava alhures a ordem natural. 

Julgou Vidurá, uma clareira, potencialmente elegida para um descanso, pensando: "Há grande possibilidade desta, uma vez, que diferente dos riscos de Vaterá, por essa dista pouco da limítrofe de Vuds Lykainen e apesar desta não enviar suas selvagens criaturas além rio, os dias estão mudados, e se há alguém no sodalício que conheça quão traiçoeiro é a sombra das arvores, lá não detiveram, e Vaterá, depois desta, é a única que põe-se no decurso da empreita, provendo segurança sem desviar-se muito.

Porém, Arketon, quando adentou a clareira pela banda setentrional, frustrou-se, pois não se deparou com quem ansiava ver e averiguou ao derredor da imensa árvore que postava-se no centro do anel gramado, buscou ali vestígios de acampamento ou rastros de passagem, porém, nada encontrou.

Assentou pensante: "Se não aqui, somente Vaterá poderá acolhe-los" o chuvisco continuava e Arketon  absorto, aguardava ansioso sob a copa o ânimo para seguir a recém decisão. Porém, enquanto fitava o ocidente, como se intentasse enxergar além da densidade de miriades de arvores. Pôde, as costas, ouvir sussurros femís, virou num lapso, mas sem sombra de empertigação, e notou que da banda oriental vocava algo ou alguém.

Percebia que a falta de clareza em ouvir vozes, se dava pela falta de cajado, uma vez que tal detinha a propriedade de acurar os sentidos quem o portava. E temeu, pois é sabido entre os druidas o seguinte provérbio: "Se da natureza teu nome ouvires, não ouse ignorá-la, mas se a ti não diz respeito, cuida a curiosidade não prestares, pois a natureza tem seus assuntos, e não poucos são maquinações contra nós" 

Recitando várias vezes essa ultima parte, temeroso de sua possibilidade, Arketon deu alguns passos até meados da banda leste do anel, quando de repente, ouviu-se um estridente ribombar, e num breve instante os fundamentos pareceram-se abalar. Era trovão que como ricochete de um chicote lançou seu raio na grande árvore. Ela brilhou e lascas voaram a jardas de toda distancia e direção. Arketon julgou-se cego, e intentava fitar a árvore, que sob embotada vista parecia-lhe queimar. Uma arvore monumental, ardia em chamas. A chuva intensificou-se, e o druida passou a mão aos olhos pois a luz lhe feria a vista. Quando ali de joelhos velava o rosto entre as palmas. Passou a assombrar-se, pois percebera que o crepito e a chuva cessaram-se no mesmo momento, de súbito, e ouviu, infanta voz dizer-lhe ao ouvido: "Pegue e ouça, pegue e ouça!"

Arketon em um salto, abriu afoito os olhos e os corria empertigado a procura de alguém, mas nada vira, se não um bastão do tamanho de um homem, com inscrições cunhada a fogo, estava logo a frente de seus pés. A derredor se via lascas, galhos, qual sabia, adveio do assalto celeste sobre a árvore, que assombrado a contemplou, agora intacta. Arketon sorriu, pois tal manifestação de poder só poderia proceder de um único e portento Ser. E o druida, ferido de emoção sabia quem era.

Quando em jubilo sob lágrimas nos olhos, tomou o então cajado, lhe feito sob medida, um sopro intenso o acometeu, de modo, que arredou alguns passos, mas fitando o que empunhava firmemente e leu a inscrição: "Lança-te em terra, a serpe vencida". A principio não entendeu o que significada, mas não deixou de notar quantas implicações essa sentença evocava, todas segundo o que se aprende no Sacr'Oraculo. 

Acordado fora então do êxtase de seus pensamentos, por sussurros agora discerníveis, que convocava-o: "Skeilag, Skeilag!" quando então, de pronto pôs-se a ir rumo as vozes, percebeu pela vista agora aguçada, um velho com longas galhadas no cimo da mais alta montanha ali visível, que ainda não velava as nuvens. Enquanto caminhava fitando-o, disse para consigo mesmo: "Berggeists! Sim, eles poderiam me dizer onde encontra-se os amigos"

Mais uma tarde esvanecia, agora encerrava-se em seu tom rubro, dourando aquela vasta floresta. Arketon ainda seguia as vozes, que nesta altura já estava de todo convencido de que estas convocavam-no a clareira de Huaná. Nome o qual, deu som aos lábios: "Huaná, clareira das flores" quanto isto proferiu, as vozes cessaram. E a isto interpretou que a natureza julgou desnecessário prosseguir o que já havia sido compreendido. Desta forma, testificada a percepção, resoluto apressou-se o curso, agora convicto de seu destino.

Ao adentrar pela face leste a mais olente das clareiras, ascendeu seu animo, o eflúvio singularmente adocicado que como balsámo deste sentido, alenta e acalenta os que se deixam amortecer. Mas, Arketon não estava sozinho, pois da banda meridional desvelava-se, vindo a mesma velocidade, porém de cabeça baixa e absorto em seus pensamentos, Akrivel, o Sakriven Imastun. Arketon ao vê-lo, gritou a tal tom, que não houve passaros a milha que não revoasse: "Wow! A cada segundo que vivo, mais persuado-me a crer que morri, pois vivo as graças que nem em sonhos se poderia conceber! Akrivel, o lendário... Akrivel, o mitíco! Akrivel, o admirado por Arketon, aquele que reconhece e aprecia o real valor dos seres! Permita-se apresentar-me, sou Arketon, o mais apaixonado admirador de vossa pessoa"

Akrivel se deteve, estático, fitava-o arisco - como os animais postam-se frente a um ruído não conhecido - era grave e seu tom austero e inquisitivo podia intimidar qualquer um que arriscasse contempla-lo, mas não o "mais apaixonada admirador daquela pessoa". Qual, quem o visse, o consideraria a a relação uma amizade longeva e profunda, em existência e essência, por parte é claro, de Arketon.

"Filho..." - responder o velho, após receber um caloroso abraço não correspondido - "Não mais faças tal, há bruxos entre nós,  e não é sabido que estes podem transfigurar almas que ansiamos ver?" Arketon respondeu como em um ensaio: "explodiriam se ousasse o fazer a vossa semelhança! Aposto um cavalo que não é meu nisto!" Akrivel continuou ignorando-o: "A simplicidade é digna de louvor, porém se descambá-la a ingenuidade, enredarás a laços imerecidos a ti e aos seus. Se o que pensas de mim mana de um coração sincero, sou grato, mas devo-lhe instruir-te, o homem nunca corresponde a medida que é estimado. Pois se há glória que irradia sua silhueta quanto este vem a ti, se assim o contempla aquele que se admira, é porque este, em antítese tem suas costas a luz e por conseguinte, sob sombra de suas próprias trevas guia-se seus passos."

Arketon, boquiaberto fitava-o absorto Akrivel, como um discente imerso na ilustração de seu mestre. Sorriu e disse: "Sabedoria e modéstia! Por acaso poderiam coexistir? Sei que é provérbio, que um escusa a falta d'outro, mas em ti, há os dois!"

"Por graça mestre-aprendiz! - retrucou Akrivel, agora visivelmente incomodado - não há verdade no provérbio que aprendemos quando este diz: 'o louvor dos amigos deturpam a alma soberba e doente, e a censura dos inimigos apuram a alma sã e humilde'? - "Sim" respondeu Arketon e continuou: "Isso é Aurélium de Agur" Akrivel assentiu e continuou: "Sou assim envenenado pela minh'altivez e febril está minh'alma! Se por mim há consideração que diz possuir, acate a ordem de meu falso altruismo: a humildade que em mim vês é depreciação, e a sabedoria que em mim destacas é na verdade uma loucura incompreensível"

"Se assim propões condição em manifestar minha estima a ti, - mesurou dizendo Arketon - pois então provo-me a submeter-te a fim de creditar-me e encerro trazer a luz que penso quando nesta questão!" após estas palavras, o jovem druida, endireitando-se desviou o olhar sob analise da clareira, arriscou uma pergunta, sem deixar de dar tapinhas no ombro de Akrivel: "Mas enfim, o que te trazes aqui?" Assim mesmo perguntou, lívido, como se estivesse oculto a memoria de sua real missão.

Akrivel, que empunhava seu cajado de cimo felídeo, portando a cintura preso em cintas de couro, o Sacr'Oráculo, acompanhou a analise respondendo: "Julguei ter ouvido sussurros advindo daqui até serem sufocadas com as suas bem presentes - e sorriu com uma olhadela - pois não penso ter confundido os sussurros feminis com seus gritos gralhados"

Arketon, a olhar de espanto disse: "Sim, sim! Comigo o mesmo... vozes feminis me convocavam enquanto eu pretendia encontrar os meus amig..." - e então recordou, e o que estava por dizer quase mecanicamente, agora foi entoado em solicita urgência e animo radiante - "...Minha nossa! Se minha vida dependesse da resolução de meu propósito, estava a muito estirado como um cadáver novamente! Pelas barbas de Akrivel que posta-se a minha frente! Devemos ir Akrivel, meu fiel amigo! Agora!" e virando-se para o leste, começou a caminhar, perguntando, em tom despretensioso: "Diga-me Akrivel, o sábio modesto, que chá amas provar?.. - e virando-se pois obteve por resposta um solitário silêncio, viu que Akrivel, rumava calmo para o sul, Arketon, assustado pôs-se a gritos novamente: "Akrivel! Akrivel!" e correu gralhando: "Onde vais? temos de auxiliar nossos amigos!"

Akrivel se deteve, suspirou fundo e respondeu ameno: "Como aparentemente já deves ter testemunhado, fiz o que estava a meu alcance por três vezes, e tenho enfim percebido que não há sabedoria, nem mesmo uma ínfima razão, em resistir o que está fadado a ser consumado!" 

"O Sacr'Oráculo, pendido a tua cinta..." - Arketon replicou, apontando o livro a cintura de Akrivel - "nele se diz que 'o conhecimento infla mas é o amor quem erige!' Hoje vejo não somente esta verdade, mas também que a sabedoria endurece, como disse um sábio em sua loucura: 'Ei tu que sabes! porque és amargo como fel?"

Akrivel, o fitou sem se demover, mas sorrindo e admirado respondeu brando:

"Muito bem filho! Sabes algo que sei, e conheces o que também conheci! Agora porém, rogo, não incorras naquilo que me encerro. Sê melhor que o velho a sua frente, como bem estás fazendo. E antes de encorajar-te no caminho a ti confiado, suscito um assunto que exorto-lhe refletir. Veja essas magnificas folhas que deitam-se a nossos pés? Cada uma tem sua beleza própria, tem seu odor singular, sua propriedade farmacológica única, umas matam, outras curam, outras ao menos servem a vista, enfeitando a realidade com sua formosura, mas nenhuma desta é desprovida de função, por mais pequena que seja, e mesmo que não sirvam a todas as espécies, pelo menos a insetos oferecem-se como abrigo. Ainda assim, me valendo da linguagem analógica do Sacr'Oráculo, não diz que toda erva haverá de secar? E ainda não diz que 'como uma nébula que breve aparece, e logo se esvanece assim é todo ser'? Seres os quais, a quem toda essa ilustração diz respeito. 

Arketon retrucou: "Sabes que não há valor probatório essas analogias?"

"Mas há em cunho elucidativo, como bem já conhecestes. Pois o principio que aponta é probatória em si mesmo, pois trata-se da verdade. - replicou Akrivel, e continuou - Entenda filho, onde há sabedoria ter por fim o serviço, se nós e aquilo que servimos tem fim? Onde há ciência se o que aprendemos não é apreendido, antes, desprende-se, uma vez que estamos encarcerados a carecer perpetuamente? Onde há razão de abrirmos os olhos no alvorecer, se após o breve crepúsculo havemos de encerrá-los? Mas é evidente, que seja lá qual sorte, em toda qual for, há certezas com as quais podemos contar, o Uno conhece os seus,  e a estes sempre ampara e provê, mesmo quando empenham-se a uma batalha já perdida."

Arketon, inspirando indignado proferiu cordialmente: "Pois então, o Uno que se presta a amparar e prover o que é necessário, não lhe dirá respeito o que é o ideal auferir? E mesmo se a realidade corresponda a sua pessimista sentença, e se o ideal não for a vitória, mas resistir mesmo frente a derrota?"

Akrivel treplicou: "Há uma linha muito tênue entre coragem e obstinação, e confundem-se, alguém poderá ser obstinadamente corajoso e corajosamente obstinado!"

"Assim como há uma linha tênue entre pretexto e a escusa, - murmurou Arketon - se não o for um o véu d'outro, pois por escusa se tece o pretexto, bem aparentado. Ou por suposto pretexto escusa-se o covarde!"

Akrivel fitou seu cajado, e respondeu: "Já tenho cumprido o que mim foi confiado, agora porém, vejo que a outro, o sumo, tem designado" e ao dizer isso, fitava a inscrição no cajado de Arketon, qual indagou: "Como deduziste este feitio?" Akrivel respondeu: "Essas palavras: 'Lança-te em terra, a serpe vencida' soam a voz d'Ele, e a voz d'Ele é inconfundível"

"E não seria, Akrivel - retomou Arketon - a obstinação que tanto reprovas, resistir em face dessa voz?"

Akrivel respondeu fitando-o austero: "Quanto a essas sentenças, não se enfade, minha diligente consciência tem se encarregado disto! O ópio qual teci com 'irracional raciocínio' pouco cauteriza o que é imarcescível" Assim disse Akrivel, brandamente e reflexivo, fitando a vastidão meridional.

"Por piedade Akrivel, venha conosco, eles estão em Vaterá!" Rogou o jovem druida, havia urgência em seu tom.

Akrivel, sem se virar respondeu: "Não estão, não mais, se beberam as águas encontradas, a fonte encantada os levou como folhas em ribeiro a se perderem. Elas eram irresistíveis a peregrinos, foram transladados para Vuds Lykainem. E se preza a sua vida como diz, não há conselho sábio em segui-los!"

"Não prezo minha vida mais que a deles" retrucou Arketon. Akrivel assentiu sorrindo e continuou:

"Seria de fato impiedade deixá-los a sorte daquilo que os aguarda, tendo em teu favor tamanho poder, em tuas mãos está o Havdos'Tutel, enquanto ele empunhares haverá vigor e boa sorte consigo!" 

"O que? Esse é Havdos'Tutel? O cajado das lendas? Pelas minhas barbas! Como dignifiquei-me a empunhá-lo?" Inquiriu Arketon absorto.

"Somente quem viu a morte, e dela foi estornado, somente quem segue o propósito, sem frente ao perigo ser abalado!" - Recitou Akrivel, e continuou Arketon em mesmo tom - "A queda da serpe, a serpe de fogo perece, quando em chamas vier a serpe negra que nunca fenece! Sim, sim... agora faz sentido! Mas não reza a lenda, que quando 'Havdos'Tutel da árvore se forjará, Humat'Tael do monte rugirá?"

"Sim... - respondeu reverente Akrivel - Esse que está em minhas mãos, é Humat'Tael! E chegará esse dia! Por acaso outro poderia fazer o que este fez?"

"Não deveras! Com a pedra opala, a própria alma de Yusakrás, Santo Uno! Valei-me, pois o vi sem me definhar!" Respondeu admirado Arketon, e continuou - "Vamos pô-los juntos Akrivel, tão somente agora, para livrar os amigos! Não disseste contra ti 'Seria de fato impiedade deixá-los a sorte daquilo que os aguarda, tendo em teu favor tamanho poder'? Pelas barbas de todos os sábios desta terra, não está em tuas mãos Humat'Tael?" 

"Eles não exercem tão proficientemente poder se aquele que o empunha não encaminha-se em teu propósito! O uno deu-lhe, creio, o suficiente, que tal poder não mine sua honra. Vá com toda minha boa sorte! O Uno é contigo!"

Arketon riu, e respondeu meneando a cabeça: "Não o culpo, sabe Akrivel, se o que reza as lendas é verdade, o Krivoterion, tu, tens quinhentos anos! E nestes tempos, não é dificultoso esmorecer a  esperança, meio milênio testemunhando a consolidação do mal torna até o mestre dos mestres que sustenta alguma esperança, tolo e cego se persistir em uma ilusão, seria utopia inalcançavel. Seria contrário a todos os seus dotes agir nisto com tal disposição. Mas por favor Akrivel, se não tens a esperança que tua ciência o priva, não pleiteie contra a minha, pois para mim ela é o eflúvio da existência, é o que enfeita em cores a minha realidade. Enfim, é para mim compreendido a postura dirigente de sua volição, não ousarei envolver-te, pois bem, apesar da graça incumbir o dever ao agraciado de compartilha-la, não é dos circunstantes feitos de pó e loucura requerer-te o que se espera. De certo modo então, por mim não poderás ser obrigado, talvez disto tenha-se convencido. Mas não entendes quão vão foi então pleitear essas três vezes contra o inimigo? Uma vez que segundo a verdade inquestionável do nosso amado livro, o Sacr'Oráculo, que não é diferente do ímpio aquele que contra ele não combate? Mas enfim, tão somente esta vez, me auxilie a encontrá-los. E não o importunarei outra vez, nutra essa minha esperança, mesmo que ilusória, comisere-se de minha condição. Sei que sabes, que apresenta-se contra o saber. Rogo-te!"

Akrivel, o fitou, correu os olhos ao derredor, e então ambos perceberam, irrompia das sombras sob árvores do flanco oriental, na banda leste da clareira, nevoas, que tornavam-se densas e revoltas, de modo, que enquanto essas bruxuleavam, delineava um figura espectral, era um Berggeist, qual olhando-os, fitou Akrivel e assentiu a cabeça, mas logo, esvaneceu e a névoa recolheu-se.

"Vá!" disse Akrivel atendo-se ao chão, Arketon suspirou desolado, Akrivel continuou: "Vá! Chegarei antes de você em Vaterá, terei antes de recolher alguns sedativos, pois em longas viagens, minhas costas doem!"

"Há!" gritou Arketon, pondo a revoada mais uma vez todos os pássaros de Corlignum, e sem hesitar, adentrou a densa floresta rumo ao oeste.

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