Prophetheia - Capítulo XXXV

Não tardou aquele dia para que se apresentasse a comitiva necessária, cada qual segundo sua medida mas todos conforme o mesmo sentimento. Mulfalut recenseou após partirem naquele crepúsculo, 500 dovaritas sob o lábaro do dragão, 500 tarilanis sob o lábaro do lobo, 1000 legionários do Leão e 1000 do urso e na falange principal, 1500 ostentavam o rubro Touro do norte.

Os três magos se prestaram como os guias no deserto árido. Ao lado de Mulfalut, H'aad, Likusgar e Hulfgar.

"Parece-me pouco provável que tais possam guiar algo - disse o lobo, após perceber que os três magos andavam em tropeços e com dificuldade - Mal-e-má guiam a si próprio, mesmo sendo em três, como nos guiarão? Vetustos de mais para uma viagem tão longa, não sei se alcançam até Anatolium, e se chegar, será em ossuários." - disse para Likusgar, Hulfgar, o jocoso.

Mulfalut, o fitou com um semblante de visível censura e disse: "Eu conheço essa classe de anacoretas, fui por eles instruído na arte do eremitério, quando de Anatolium segui meu caminho... E julgo poder responder, que tais andam assim aqui, pois seus passos se habituaram com as areias do ermo. Para estes, o deserto é leito de descanso, pois assim o é para todos aqueles que se deleitam com sua solidão." 

"Então saberão, sem dificuldade, guiar-nos com plena segurança... Assim pelo menos, espero, diante tal testemunho." - disse Likusgar, se convencendo das palavras de Mulfalut. O que este, completou: "Nisto te garanto... Quem lê ao alto, as estrelas, decerto que lerá as areias em tal baixa terra."

Não ainda finalizaram essas considerações, quando adentraram o portal das ditas areias que aqueles velhos pés ansiavam pisar.

Dali, se via o temível erg oriental. Diante tão desafiador terreno, ouviu-se o segundo dos magos suspirar e dizer: "Sim, oh minha alma... Como o cinturão se desfaz ao escapar de sua orbe, assim vi meu espírito em fragmentos quando errante estive longe do meu lar. Sim, oh minh'alma... chegastes em casa!"

Enquanto os 7 principais daquela comitiva, subiram juntos até o cúspide de uma duna sif, postaram-se diante o precipício de um sotovento de face sul. Permitindo todo exército assentar-se sobre o flanco dorsal de um vasto barlavento.

Daquela crista, se contemplava todo o ermo oriental. E foi dali, que se ouvira a voz lenta, rouca e carregada de anos, do mais velho dos magos: "O silêncio se afugenta no tumulto, como a paz de toda companhia... Ermo é inseguro aos seguros e seguro aos pacientes, desafia falanges e engoda solícitos, tragando multidões."

O mais novo mago, digerindo as palavras que ouvira, disse: "Sim, pai... disso ouvi e isso falo, o exército é demasiado numeroso para seguir o ghud, creio bom conselho, enfileirar uma dúzia de carreiras em tropas, distribuindo-as sobre as estrias que se orientam ao sul."

Rumaram ao sul, seguindo o traçado invisível do vento, que soprava em remoinhos sobre as dunas como se quisesse apagar seus próprios rastros. A comitiva movia-se lenta, disciplinada, cada estandarte oscilando como labareda sob o firmamento abrasado. Era o segundo dia no ermo, quando Aquilia, a águia mensageira, rasgou o céu em voo rasante. Pousou diante de Mulfalut, e ao tocar o chão, sua plumagem se dissolveu em clarões, e dela emergiu a mulher, envolta em véu prateado.

“Senhor — disse H'aad, arquejante —, vi subir do deserto, pela rota oriental, uma comitiva de Anatolium. Marcham ao norte, arrastando prisioneiros. São muitos, e trazem estandartes vermelhos com o selo do sol nascente.”

Mulfalut estreitou os olhos, buscando entre os vapores do horizonte o movimento das lanças. “Então Anatolium ainda guarda seus exércitos nestas terras,” murmurou, e voltou-se aos três magos. “O que dizem as estrelas a respeito disso?”

O mais velho ergueu o bastão e, fitando o zênite, respondeu: “Não há estrela que guie um homem que se desvia do caminho da compaixão. Onde houver cativos, haverá juízo.”

Assim ordenou Mulfalut que cessassem o avanço e dispôs o exército em ordem de vigília. Pouco depois, viram, entre as brumas de calor, o reflexo dos elmos e as sombras das caravanas inimigas. Era uma marcha de soldados orientais, trazendo dezenas de prisioneiros acorrentados, homens e mulheres exaustos, amarrados uns aos outros com cordas de linho.

Mulfalut adiantou-se com um pequeno destacamento, levando o estandarte do Touro. Detendo-se diante da hoste de Anatolium, ergueu a voz:
“Peregrinos ou guerreiros, declarem seu intento! O ermo não é domínio de senhores, e quem nele trafega sob o jugo da injustiça será tragado com a areia!”

O comandante oriental, montado em cavalo negro, riu e respondeu:
“Nem o deserto se atreve a desafiar o sol de Anatolium. Estes prisioneiros são o tributo da guerra — e quem és tu, que ousas julgar o tributo dos reis?”

Então Mulfalut disse, com voz grave:
“Sou aquele que viu reinos ruírem por menos que uma alma cativa. Liberta-os e serás livre também.”
Mas o oriental, desdenhoso, ordenou o avanço.

Foi o bastante. O rugido dos estandartes ergueu-se como trovão. O Touro investiu primeiro, seguido pelo Leão e pelo Urso. As lanças se entrechocaram, e o pó subiu alto, cobrindo o céu de cinza. O Dragão e o Lobo correram lado a lado, fendendo fileiras. As palavras dos magos tornaram-se cântico, e muitos juraram ver luzes dançando sobre os corpos, como brasas em tempestade.

O combate durou até o cair da tarde. Quando enfim cessou, os estandartes de Anatolium jaziam no chão, e seus guerreiros, vencidos. Mulfalut libertou os prisioneiros e ordenou que lhes dessem pão e água. As tendas inimigas foram abertas, e delas vieram provisões, ungüentos e peles — o bastante para reabastecer todo o exército.

Um destacamento foi escolhido para conduzir os libertos até Fidirium, a Terra de Cura, sob o lábaro do Leão. Quanto à Aliança Real, seguiram o curso do vento, pois o ermo ainda lhes escondia muitos segredos.

Antes de partirem, o mais jovem dos magos falou, olhando o horizonte avermelhado:
“Todo encontro é juízo, e toda vitória, lembrança. Que Anatolium saiba: há reis que reinam, e há reis que servem.”

E Mulfalut respondeu, voltando-se para o sul:
“Pois o caminho dos que servem é o único que o deserto reconhece.”

O terceiro dia amanheceu sereno, e o vento, que outrora soprava com leveza, parecia enfim conceder trégua. As tendas foram erguidas sobre o dorso de uma vasta planície de areia fina, que se estendia até onde o olhar se perdia. Ali, Mulfalut ordenou repouso.
Os homens, exaustos da marcha e da recente batalha, largaram as lanças e se assentaram em torno das fogueiras. As sombras dançavam nas paredes dos abrigos, e o silêncio do ermo parecia retomar seu antigo domínio.

Mas quando o sol se pôs e o crepúsculo se dissolveu num horizonte de cobre, um murmúrio profundo ergueu-se do leste — como o bramido de uma fera antiga. O chão tremeu sob os pés.
Os magos se entreolharam, e o mais velho murmurou: “O vento se revolta contra o homem que ousa decifrá-lo.”

As primeiras lufadas vieram mornas, trazendo consigo uma poeira leve, que se aninhava nas fendas dos elmos e entre os dedos das lanças. Depois, o céu se fechou, e o murmúrio se tornou rugido. A noite caiu com peso, e o deserto inteiro se ergueu em cólera.

“Tempestade!” — gritou Likusgar, enquanto as tochas eram tragadas pela escuridão.
O ar tornou-se lâmina, cortando a pele e arrancando o fôlego dos soldados. O vento urrava, e as dunas pareciam mudar de lugar. Muitos tombaram, buscando abrigo, e parte das fileiras se desfez em desespero. A areia, impiedosa, esfolava a carne até o sangue, e os gritos se perdiam sob o clamor do vendaval.

Mulfalut, de pé entre as tendas que se desfaziam, ergueu o estandarte do Touro e clamou:
“Magos! Se vossas artes podem erguer muralhas, ergam-nas agora! Pois este deserto não quer apenas nos provar, quer nos sepultar!”

Os três magos se postaram em círculo, suas vestes açoitando o ar como bandeiras. O mais novo lançou ao chão um punhado de sal e cinza; o do meio ergueu o bastão e traçou com ele o sinal das três luas; e o mais velho pronunciou o nome que não se repete — e o vento hesitou.

Das suas mãos irrompeu uma luz dourada, que se entrelaçou em espiral, formando uma redoma invisível. Um som grave percorreu o chão, e dentro do círculo da magia, o ar se aquietou. As areias, ao tocarem a barreira, dissipavam-se em faíscas.

Ali dentro, o exército encontrou resguardo. As fogueiras reacenderam-se, e os feridos foram trazidos aos cuidados de H'aad, que lavava suas feridas com vinho e areia sagrada.

Lá fora, contudo, o deserto rugia como se quisesse vingar-se.
A tormenta durou toda a noite, e cada rajada que batia contra a redoma soava como o golpe de um martelo contra escudo. Mas os magos permaneceram imóveis, sustentando o feitiço com os olhos cerrados e o rosto voltado ao vento.

Quando enfim a aurora rompeu o horizonte, a tempestade se dissipou como fumaça. As dunas estavam redesenhadas, e onde antes havia caminho, agora havia abismo.
Os homens, ao saírem do abrigo, viram o ermo transformado. Nenhum sinal da antiga trilha restava.

Mulfalut ergueu o olhar e disse, em tom grave:
“Não há jornada sem esquecimento, nem vitória sem prova. O deserto nos apagou, para que aprendamos de novo a ser encontrados.”

E o mais velho dos magos respondeu:
“Assim é o desígnio do vento — ele apaga os rastros dos que marcham, para que apenas os que têm destino encontrem o caminho.”

Quando a manhã enfim se fez plena, o sol ergueu-se sobre um deserto que já não era o mesmo. As dunas haviam migrado como ondas de um mar esquecido, e sob elas jazeram os restos do acampamento. Lanças, escudos, tendas e provisões — tudo fora engolido pela areia mutável, que agora repousava sobre os despojos como manto sepulcral.

Os homens, desolados, cavavam com as mãos, buscando recuperar o que pudessem. O ar cheirava a ferro e suor, e o silêncio pós-tempestade parecia prenúncio de nova tribulação. Nenhum pássaro cruzava o céu, nenhum som se ouvia além do resfolegar dos exaustos.

Foi então que H'aad, que andava à frente da linha de escavação, estacou subitamente.
Do flanco de uma duna fendida, ouviu-se um bafo quente e grave, como o sopro de um fole.
As areias estremeceram — e delas emergiram olhos.

Um rugido quebrou o horizonte.
Das grutas recém-expostas pela tormenta saíram criaturas de formas disformes: chacais de peito largo e presas curvas, serpentes de crinas negras, e bestas quadrúpedes de pele escamada. Suas sombras, longas como torres, cobriram os homens.

O pavor correu entre as fileiras. As armas, soterradas, eram poucas; muitos empunharam paus e lâminas quebradas. Mulfalut ergueu a voz:
“Firmem-se! Não é o deserto que nos prova agora, mas as bocas que dele saíram!”

As feras avançaram, e o chão vibrou sob a corrida.
Likusgar e Hulfgar, os irmãos do norte, se entreolharam — e um brilho antigo lhes acendeu os olhos.
“É chegada a hora do sangue dos lobos,” murmurou Hulfgar.
“Então que o norte se lembre de nós,” respondeu Likusgar, rasgando o manto sobre os ombros.

E ali, diante dos magos e das falanges, ambos tombaram de joelhos, tocando a areia com as mãos. O vento girou em espiral, e o ar se tornou frio. De seus corpos se ergueu um vapor branco, e os ossos rangeram como madeira em chamas. Quando o nevoeiro se dissipou, dois lobos colossais se puseram de pé, de olhar ardente e presas cintilantes.
O exército, tomado de assombro, bradou o nome deles como cântico: “Os Filhos do Inverno!”

As feras investiram — mas os lobos as encontraram com igual fúria. Hulfgar derrubou uma besta de escamas e a dilacerou com as garras; Likusgar abateu duas serpentes em um só salto. O barulho era o de trovões se entrechocando, e cada rugido fazia o chão estremecer.

Os magos, em volta, conjuravam círculos de luz, aprisionando as criaturas menores. Mulfalut brandia o estandarte do Touro como lança, e a cada golpe, o símbolo rubro ardia em clarão.

O combate durou horas. Homens e monstros misturavam-se num só pó de sangue e areia. Por fim, a última das feras tombou — uma criatura de juba flamejante e dentes de ferro — que Hulfgar, já manco e ensanguentado, rasgou ao meio sob o brado final de Likusgar.

O silêncio que se seguiu foi sepulcral. O vento cessou, e o deserto, saciado, voltou a dormir.
Os irmãos-lobos, cambaleantes, voltaram à forma humana. Suas peles ardiam, e o suor misturava-se ao sangue, mas o olhar de ambos conservava o fulgor de quem venceu a morte.

Mulfalut se aproximou e disse-lhes, em voz grave:
“Não há fera maior que o homem quando se lembra do que é. Vós a domastes, e com ela, domastes o deserto.”

E o mais velho dos magos acrescentou:
“O vento os provou, a areia os sepultou, e as feras os reconheceram. Agora, o ermo não vos temerá — mas vos seguirá.”

Então, ao cair da tarde, ergueram-se as fogueiras novamente.
Os corpos dos caídos foram honrados, e os sobreviventes repousaram em silêncio.
Sobre eles, o céu do oriente cintilava como espada nua.
E Mulfalut, olhando as constelações, disse apenas:

Três dias marcharam rumo ao sul de Al-Nakeha, onde o deserto se curva em vales de pedra escura e ventos salobres. O sol, implacável, queimava o céu sem piedade; e a sede, essa antiga inimiga dos peregrinos, tornara-se o jugo de todos.

As reservas haviam findado. As peles de água secaram. As línguas tornaram-se ásperas como couro, e até os magos silenciavam sob o peso da fadiga.

Likusgar e Hulfgar, feridos dos combates, eram levados em padiolas improvisadas, cobertos com peles rasgadas e regidos por cânticos baixos de seus homens do norte. O hálito deles tornara-se raso, e seus olhos, turvos de febre.

Ao alcançarem uma formação de rochas, altas como torres, Mulfalut ordenou que cessassem o avanço. O ar ali parecia mais denso, e havia um rumor leve, como o de um rio distante — mas não se via rio algum.

Então o mais velho dos magos adiantou-se, apoiado em seu bastão de marfim. Tocou a rocha e, em voz que parecia vir de outro tempo, murmurou:
“De toda pedra que dorme, há um coração; e do coração, flui o que vive. Desperta, rocha do ermo, e dá de ti o que nos foi negado!”

Golpeou-a três vezes.
Um som profundo, como trovão abafado, percorreu o chão. Da fenda aberta, jorrou água cristalina, espumante e doce.
O exército prorrompeu em clamor. Os homens caíram de joelhos, bebendo com as mãos em conchas.
Mulfalut aproximou-se das padiolas e, com as próprias mãos, deu de beber a Likusgar e Hulfgar. A água tocou seus lábios e, de imediato, a febre cedeu. O brilho da vida lhes voltou aos olhos, e os lobos do norte ergueram-se, renovados.

Durante o resto do dia, o acampamento se fez em júbilo. A sede cessara, e todos se banharam sob o filete sagrado que brotava incessante.
Mas à noite, quando o sol se ocultou e o deserto se cobriu de frio, algo mudou.

A água, antes clara, tornou-se turva e amarga. Os que dela beberam sentiram o gosto de ferro e cinza. Um murmúrio percorreu o acampamento — e os magos despertaram, pressentindo o perigo invisível.

Reuniram-se junto à rocha. A luz das tochas tremia, como se repelida por algo oculto. O mago mais jovem falou:
“Há poder estranho nisto... não é corrupção natural, mas malícia. Alguém, ou algo, segue nossos passos no ermo.”

O mais velho abaixou-se e tocou a água com a ponta dos dedos. O líquido fumegou sob o contato.
“Sim... há sombra que se oculta no invisível. O mesmo que moveu o vento contra nós e libertou as feras. Agora tenta o coração de nossa sede.”

Mulfalut cerrou os punhos: “E como se purifica o que o mal tocou?”

O mago respondeu com voz cansada, porém firme:
“Com o que é mais puro entre os impuros — o sangue voluntário.”

Então, sem hesitar, o ancião ergueu o punhal cerimonial, cortou a palma da mão e deixou cair três gotas sobre a fenda da rocha.
A terra gemeu.
A água escureceu ainda mais — depois, clareou, cintilando com luz própria.
De repente, o ar se agitou, e um sopro frio desceu do firmamento.

Era Aquilia, a mensageira.
Veio em voo rasante, e ao tocar o chão, novamente se fez mulher. Em suas mãos trazia pequenos ramos verdes, colhidos de um oásis distante.
“Trago vida — disse H'aad —, a primeira que o deserto permitiu crescer.”

Ajoelhou-se ao pé da rocha e, com os ramos, aspergiu a água. O sangue do mago, que ainda fluía, caiu sobre as folhas, e o contato produziu clarão súbito.
A fenda resplandeceu em luz escarlate, e a água, enfim, tornou-se doce e salutar. Um perfume leve, semelhante ao do mel e da terra molhada, espalhou-se pelo ar.

O ancião, exausto, tombou de joelhos, mas sorria.
“Agora o ermo conhece o sabor da graça,” disse, com voz fraca.

Mulfalut colocou a mão sobre seu ombro:
“Teu sangue não se perdeu, velho mestre — ele se misturou à rocha, e agora corre nas veias do deserto.”

E H'aad, olhando para o céu estrelado, completou:
“Quando o sangue e a água se tornam um, até o mal se curva e aprende a ser puro.”

Na manhã seguinte, brotaram, ao redor da rocha, pequenos rebentos verdes — os primeiros sinais de vida desde que o exército entrara nas areias de Al-Nakeha.
E os magos compreenderam: aquele era o marco da transição, o sinal de que o deserto fora vencido não pela força, mas pela entrega.

O deserto se estendia como um mar de pó e luz. Nenhum presságio, nenhuma sombra de perigo os seguira naquele dia inteiro de jornada. O sol, tirano e dourado, curvava o horizonte em brasa, mas a esperança do oásis — H’Orihir, o refúgio prometido — mantinha-lhes a força e o passo. Segundo o cálculo dos errantes, estavam a menos de dois dias do destino.

Quando o entardecer tingiu as areias de cobre e lilás, decidiram repousar sob um penhasco de cristas escarpadas, onde o vento sussurrava entre as fendas um canto antigo e solitário. Ali, sob as rochas do La-Nit, armaram o breve descanso. Os magos, cansados, deixaram-se cair em silêncio profundo, como se a própria terra os embalasse.

Por algumas horas, nada houve além da respiração do deserto. Mas então — como se o próprio firmamento se abrisse em fúria — um raio partiu o cimo do penhasco. O estrondo que seguiu foi o bramido seco da morte. As pedras se romperam em cascata, rasgando o ar num rugido de avalanche.

Os três magos despertaram de súbito, atordoados. E, num gesto que parecia mais instintivo que deliberado, ergueram seus cajados de marfim — não para o alto, mas para o solo. Um som grave, quase inaudível, vibrou entre as rochas, e então algo impossível aconteceu: as pedras em queda pararam. Ficaram suspensas no ar, congeladas num instante de pura força arcana.

“— Corre!” — bradou um deles, a voz ecoando como um trovão entre as dunas.

O grito cortou o espanto dos companheiros, que fugiram para longe do despenhadeiro. E quando alcançaram distância segura, olharam para trás — e viram apenas os três magos, imóveis, sob a sombra do risco.

Um segundo depois, o encanto cedeu. As rochas despencaram como se o próprio tempo tivesse voltado a mover-se. O chão tremeu. A poeira ergueu-se em um véu espesso, ocultando tudo.

O silêncio retornou, pesado, quase fúnebre. Muitos se ajoelharam, certos de que os sábios haviam sido tragados pela pedra. Nenhum sinal, nenhum som.

Mas então — um clarão tênue rompeu entre as fendas do monte. Três silhuetas se moveram, serenas. Eram eles. Saíam ilesos, envoltos por uma aura de respeito e mistério. Suas vestes, embora empoeiradas, ainda cintilavam sob a luz do crepúsculo.

O mais velho entre eles ergueu o olhar para o céu, e disse apenas:
“— O penhasco testou nossa fé, e a fé sustentou a queda.”

E assim, sob o eco do trovão já distante, retomaram o caminho ao oásis, levando consigo a certeza de que as provações estavam chegando ao fim — e que algo maior os aguardava além das areias.

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