Não tardou aquele dia para que se apresentasse a comitiva necessária, cada qual segundo sua medida mas todos conforme o mesmo sentimento. Mulfalut recenseou após partirem naquele crepúsculo, 500 dovaritas sob o lábaro do dragão, 500 tarilanis sob o lábaro do lobo, 1000 legionários do Leão e 1000 do urso e na falange principal, 1500 ostentavam o rubro Touro do norte.
Os três magos se prestaram como os guias no deserto árido. Ao lado de Mulfalut, H'aad, Likusgar e Hulfgar.
"Parece-me pouco provável que tais possam guiar algo - disse o lobo, após perceber que os três magos andavam em tropeços e com dificuldade - Mal-e-má guiam a si próprio, mesmo sendo em três, como nos guiarão? Vetustos de mais para uma viagem tão longa, não sei se alcançam até Anatolium, e se chegar, será em ossuários." - disse para Likusgar, Hulfgar, o jocoso.
Mulfalut, o fitou com um semblante de visível censura e disse: "Eu conheço essa classe de anacoretas, fui por eles instruído na arte do eremitério, quando de Anatolium segui meu caminho... E julgo poder responder, que tais andam assim aqui, pois seus passos se habituaram com as areias do ermo. Para estes, o deserto é leito de descanso, pois assim o é para todos aqueles que se deleitam com sua solidão."
"Então saberão, sem dificuldade, guiar-nos com plena segurança... Assim pelo menos, espero, diante tal testemunho." - disse Likusgar, se convencendo das palavras de Mulfalut. O que este, completou: "Nisto te garanto... Quem lê ao alto, as estrelas, decerto que lerá as areias em tal baixa terra."
Não ainda finalizaram essas considerações, quando adentraram o portal das ditas areias que aqueles velhos pés ansiavam pisar.
Dali, se via o temível erg oriental. Diante tão desafiador terreno, ouviu-se o segundo dos magos suspirar e dizer: "Sim, oh minha alma... Como o cinturão se desfaz ao escapar de sua orbe, assim vi meu espírito em fragmentos quando errante estive longe do meu lar. Sim, oh minh'alma... chegastes em casa!"
Enquanto os 7 principais daquela comitiva, subiram juntos até o cúspide de uma duna sif, postaram-se diante o precipício de um sotovento de face sul. Permitindo todo exército assentar-se sobre o flanco dorsal de um vasto barlavento.
Daquela crista, se contemplava todo o ermo oriental. E foi dali, que se ouvira a voz lenta, rouca e carregada de anos, do mais velho dos magos: "O silêncio se afugenta no tumulto, como a paz de toda companhia... Ermo é inseguro aos seguros e seguro aos pacientes, desafia falanges e engoda solícitos, tragando multidões."
O mais novo mago, digerindo as palavras que ouvira, disse: "Sim, pai... disso ouvi e isso falo, o exército é demasiado numeroso para seguir o ghud, creio bom conselho, enfileirar uma dúzia de carreiras em tropas, distribuindo-as sobre as estrias que se orientam ao sul."
Rumaram ao sul, seguindo o traçado invisível do vento, que soprava em remoinhos sobre as dunas como se quisesse apagar seus próprios rastros. A comitiva movia-se lenta, disciplinada, cada estandarte oscilando como labareda sob o firmamento abrasado. Era o segundo dia no ermo, quando Aquilia, a águia mensageira, rasgou o céu em voo rasante. Pousou diante de Mulfalut, e ao tocar o chão, sua plumagem se dissolveu em clarões, e dela emergiu a mulher, envolta em véu prateado.
“Senhor — disse H'aad, arquejante —, vi subir do deserto, pela rota oriental, uma comitiva de Anatolium. Marcham ao norte, arrastando prisioneiros. São muitos, e trazem estandartes vermelhos com o selo do sol nascente.”
Mulfalut estreitou os olhos, buscando entre os vapores do horizonte o movimento das lanças. “Então Anatolium ainda guarda seus exércitos nestas terras,” murmurou, e voltou-se aos três magos. “O que dizem as estrelas a respeito disso?”
O mais velho ergueu o bastão e, fitando o zênite, respondeu: “Não há estrela que guie um homem que se desvia do caminho da compaixão. Onde houver cativos, haverá juízo.”
Assim ordenou Mulfalut que cessassem o avanço e dispôs o exército em ordem de vigília. Pouco depois, viram, entre as brumas de calor, o reflexo dos elmos e as sombras das caravanas inimigas. Era uma marcha de soldados orientais, trazendo dezenas de prisioneiros acorrentados, homens e mulheres exaustos, amarrados uns aos outros com cordas de linho.
Foi o bastante. O rugido dos estandartes ergueu-se como trovão. O Touro investiu primeiro, seguido pelo Leão e pelo Urso. As lanças se entrechocaram, e o pó subiu alto, cobrindo o céu de cinza. O Dragão e o Lobo correram lado a lado, fendendo fileiras. As palavras dos magos tornaram-se cântico, e muitos juraram ver luzes dançando sobre os corpos, como brasas em tempestade.
O combate durou até o cair da tarde. Quando enfim cessou, os estandartes de Anatolium jaziam no chão, e seus guerreiros, vencidos. Mulfalut libertou os prisioneiros e ordenou que lhes dessem pão e água. As tendas inimigas foram abertas, e delas vieram provisões, ungüentos e peles — o bastante para reabastecer todo o exército.
Um destacamento foi escolhido para conduzir os libertos até Fidirium, a Terra de Cura, sob o lábaro do Leão. Quanto à Aliança Real, seguiram o curso do vento, pois o ermo ainda lhes escondia muitos segredos.
As primeiras lufadas vieram mornas, trazendo consigo uma poeira leve, que se aninhava nas fendas dos elmos e entre os dedos das lanças. Depois, o céu se fechou, e o murmúrio se tornou rugido. A noite caiu com peso, e o deserto inteiro se ergueu em cólera.
Os três magos se postaram em círculo, suas vestes açoitando o ar como bandeiras. O mais novo lançou ao chão um punhado de sal e cinza; o do meio ergueu o bastão e traçou com ele o sinal das três luas; e o mais velho pronunciou o nome que não se repete — e o vento hesitou.
Das suas mãos irrompeu uma luz dourada, que se entrelaçou em espiral, formando uma redoma invisível. Um som grave percorreu o chão, e dentro do círculo da magia, o ar se aquietou. As areias, ao tocarem a barreira, dissipavam-se em faíscas.
Ali dentro, o exército encontrou resguardo. As fogueiras reacenderam-se, e os feridos foram trazidos aos cuidados de H'aad, que lavava suas feridas com vinho e areia sagrada.
Quando a manhã enfim se fez plena, o sol ergueu-se sobre um deserto que já não era o mesmo. As dunas haviam migrado como ondas de um mar esquecido, e sob elas jazeram os restos do acampamento. Lanças, escudos, tendas e provisões — tudo fora engolido pela areia mutável, que agora repousava sobre os despojos como manto sepulcral.
Os homens, desolados, cavavam com as mãos, buscando recuperar o que pudessem. O ar cheirava a ferro e suor, e o silêncio pós-tempestade parecia prenúncio de nova tribulação. Nenhum pássaro cruzava o céu, nenhum som se ouvia além do resfolegar dos exaustos.
As feras investiram — mas os lobos as encontraram com igual fúria. Hulfgar derrubou uma besta de escamas e a dilacerou com as garras; Likusgar abateu duas serpentes em um só salto. O barulho era o de trovões se entrechocando, e cada rugido fazia o chão estremecer.
Os magos, em volta, conjuravam círculos de luz, aprisionando as criaturas menores. Mulfalut brandia o estandarte do Touro como lança, e a cada golpe, o símbolo rubro ardia em clarão.
O combate durou horas. Homens e monstros misturavam-se num só pó de sangue e areia. Por fim, a última das feras tombou — uma criatura de juba flamejante e dentes de ferro — que Hulfgar, já manco e ensanguentado, rasgou ao meio sob o brado final de Likusgar.
Três dias marcharam rumo ao sul de Al-Nakeha, onde o deserto se curva em vales de pedra escura e ventos salobres. O sol, implacável, queimava o céu sem piedade; e a sede, essa antiga inimiga dos peregrinos, tornara-se o jugo de todos.
As reservas haviam findado. As peles de água secaram. As línguas tornaram-se ásperas como couro, e até os magos silenciavam sob o peso da fadiga.
Likusgar e Hulfgar, feridos dos combates, eram levados em padiolas improvisadas, cobertos com peles rasgadas e regidos por cânticos baixos de seus homens do norte. O hálito deles tornara-se raso, e seus olhos, turvos de febre.
Ao alcançarem uma formação de rochas, altas como torres, Mulfalut ordenou que cessassem o avanço. O ar ali parecia mais denso, e havia um rumor leve, como o de um rio distante — mas não se via rio algum.
A água, antes clara, tornou-se turva e amarga. Os que dela beberam sentiram o gosto de ferro e cinza. Um murmúrio percorreu o acampamento — e os magos despertaram, pressentindo o perigo invisível.
Mulfalut cerrou os punhos: “E como se purifica o que o mal tocou?”
O deserto se estendia como um mar de pó e luz. Nenhum presságio, nenhuma sombra de perigo os seguira naquele dia inteiro de jornada. O sol, tirano e dourado, curvava o horizonte em brasa, mas a esperança do oásis — H’Orihir, o refúgio prometido — mantinha-lhes a força e o passo. Segundo o cálculo dos errantes, estavam a menos de dois dias do destino.
Quando o entardecer tingiu as areias de cobre e lilás, decidiram repousar sob um penhasco de cristas escarpadas, onde o vento sussurrava entre as fendas um canto antigo e solitário. Ali, sob as rochas do La-Nit, armaram o breve descanso. Os magos, cansados, deixaram-se cair em silêncio profundo, como se a própria terra os embalasse.
Por algumas horas, nada houve além da respiração do deserto. Mas então — como se o próprio firmamento se abrisse em fúria — um raio partiu o cimo do penhasco. O estrondo que seguiu foi o bramido seco da morte. As pedras se romperam em cascata, rasgando o ar num rugido de avalanche.
Os três magos despertaram de súbito, atordoados. E, num gesto que parecia mais instintivo que deliberado, ergueram seus cajados de marfim — não para o alto, mas para o solo. Um som grave, quase inaudível, vibrou entre as rochas, e então algo impossível aconteceu: as pedras em queda pararam. Ficaram suspensas no ar, congeladas num instante de pura força arcana.
“— Corre!” — bradou um deles, a voz ecoando como um trovão entre as dunas.
O grito cortou o espanto dos companheiros, que fugiram para longe do despenhadeiro. E quando alcançaram distância segura, olharam para trás — e viram apenas os três magos, imóveis, sob a sombra do risco.
Um segundo depois, o encanto cedeu. As rochas despencaram como se o próprio tempo tivesse voltado a mover-se. O chão tremeu. A poeira ergueu-se em um véu espesso, ocultando tudo.
O silêncio retornou, pesado, quase fúnebre. Muitos se ajoelharam, certos de que os sábios haviam sido tragados pela pedra. Nenhum sinal, nenhum som.
Mas então — um clarão tênue rompeu entre as fendas do monte. Três silhuetas se moveram, serenas. Eram eles. Saíam ilesos, envoltos por uma aura de respeito e mistério. Suas vestes, embora empoeiradas, ainda cintilavam sob a luz do crepúsculo.
E assim, sob o eco do trovão já distante, retomaram o caminho ao oásis, levando consigo a certeza de que as provações estavam chegando ao fim — e que algo maior os aguardava além das areias.


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