Foi no crepúsculo do dia Crucium do mês de Hudás, entre Dotem e Tridum que o inverno e a escuridão acometeram Arkinarium, a alta capital dos antigos homens. Não havia estrelas, nem lua, quando no horizonte se viu a horda com mar de tochas, e se ouviu o tremor da marcha e o furor dos berros. Da atalaia soou o sino e o brado da sentinela: “Inimigos, Inimigos!”.
Lamentos ecoaram após balburdia de desespero sobre as ruas de pedra lavrada, e entre as magnas paredes alvas. Não havia esperança, os soldados das ordens, abraçavam suas mulheres, filhos e os pais; e esses, arrastados por aqueles que resistiam a lamuria de seus corações a fim de fugirem. As naus partiam, deixando os que ficavam com a única expectação de uma morte heroica, muitos dos cidadãos quando aperceberam que as naus não seriam suficientes para todos os restantes, partiram a pé rumo ao norte pelas encostas a oeste. Os generais às pressas, arquitetaram seus estratagemas, os arqueiros deveriam flanquear sob os montes norte e sul em defesa do portão, circundado Arbodina; frente a entrada leste, a infantaria, por detrás dos piquetes armados, postava-se com sarissas arqueadas a fronte a fim de resistirem ao primeiro assalto; os alvos cavaleiros de Arkinarium enfileiravam-se, e entre eles e a muralha, havia um largo fosso, onde combustíveis foram ali lançados para nutrirem alto fogo; todos aguardavam seu rei.
Hemidim abraçava seu filho, Hemidel, e o confiou aos cuidados de sua ama, a qual ficou sob o encargo de velar o título da criança, a fim de proteger a sua identidade real, e fugir para o norte onde buscariam refúgio entre os Elfos; confiante que segundo a promessa da profecia, seriam lá recebidos e enfim salvos.
Antes de partir, porém, o rei retirou de seu próprio pescoço o Colar Real de Folha Prateada, insígnia da Casa de Arkinarium. O colar, forjado em tempos remotos, representava a união da família real — pois assim como cada folha compõe uma frondosa árvore, também cada herdeiro compunha a linhagem do trono. Entregou-o à ama, dizendo-lhe que o guardasse como testemunho do sangue real, e que, quando o menino atingisse a maior idade, o símbolo lhe fosse restituído. Assim se perpetuaria o legado dos reis, de pai para filho, até que a antiga profecia se cumprisse e o herdeiro do trono retornasse ao sul, para reerguer o glorioso reino.
Após reprimir a lancinante dor que as lágrimas o infringiam, o rei apeou a montaria e postou-se sob a muralha do portão; seu cavalo, era tão alvo e luzente que seu brilho compensava a falta da lua e das estrelas.
Os embaixadores foram enviados ao
inimigo, mas este rindo de qualquer tentativa de acordo, rechaçou-os, pois, seu
único e vil intento era erradicar a raça dos homens. Assentado sobre um único Wyvern, Apolium fitou o rei sobre a muralha e alçou voz:
“Havia um homem em Arkinarium,
seu nome era Zatani, seu pecado? Foi amar quem o amou; desse tão condenável amor
– segundo os seus supostos sábios; veio o fruto, Zimas! Meu pai, o qual foi sentenciado
a morte por fazer um favor a terra – desraigar o arrogante e soberbo Timas, que
tanto o humilhara, por gozar de um injusto preferitismo desses parciais
desgraçados! Condenado e frente a morte, meu pai se arrependeu, mas mesmo
assim, não o consideraram e fora ceifado; e vós consentistes diante disso,
portanto digo-vos, que sopesei na balança tais almas, e vi, que Zimas, Filho de
Zatani, era de maior valor que todos vós, deste modo, para redimir vosso débito
ao mundo, convém a mim cobrar a paga de vosso erro, hoje, sou vosso juiz pelo
poder e autoridade que o Uno me dotou, como bem vede no exército que logrei dos
céus, assim... vos condeno a pena de morte! Vede! Como tudo culminou a consumar
meu propósito, portanto não resistam, advirto-vos a não se enfadarem com a
falsa esperança e mera ilusão de escaparem do justo fim a que estão fadados; essa
é a vontade do Uno, vede como tudo cooperou a meu favor, não se façam cegos, enxerguem
o tamanho de vossa desgraça e contemplem o tamanho de meu poder! Eu sou o cão
do uno e estou a seu serviço, sua espada foi me confiada, e como seu porta-voz,
informo-vos que ele se arrependeu de vos ter dado esta terra, visto que me
impele a erradicá-los sob justa sentença.”
O rei sobre a muralha, ao ouvir tais
palavras irrompeu em furor, tomado de indignação bradou:
“Sacrílego vil! Profano
mentiroso! Não tome O Santo Nome por seu objeto, nem o ouse proferir nesta boca
imunda! Na vingança nunca operará a justiça do Uno! Nem tem ele parte com
idolatra!” – e após longo relinchar de seu cavalo, ao empinar, o Rei brandiu
sua espada e continuou – “Cavaleiros de Arkinarium! Hoje, não vos chamo de
servos nem servidores, mas de Irmãos! Pois vejo que esta guerra não é contra carne
e sangue, mas de um plano superior e não humano, é espiritual! E diante tais
trevas, somos hoje todos filhos da Luz! Isso é Guerra Santa, e como tal, quero
que saibam, que Uno está presente! E não determinará o vencedor pelo cor do último
lábaro que estará hasteado, mas qual, após o fim retiver comunicar suas
virtudes, e nisto já somos mais que vencedores, pois não lutamos com macula nem
por impiedade dos que adiante estão! Mas por zelo, amor e honra pelo que agora estão
rememorando nossos feitos! Por morte ou por vida! Atenham-se, o sucesso da fuga
de nossas famílias, dependerá do quanto resistirmos! Avante homens!” – E da
muralha partiu portão a fora, liderando seus sete paladinos, e o destacamento
da guarda real, rumo a uma batalha que todos sabiam, que não os daria retorno.
“Guerra” não exprime o que houve naquela noite, talvez o termo mais adequado seja massacre. Do exército inimigo somente as bestas e as feras foram o suficiente para se pôr ao pleito, os heróis foram aniquilados e a magnifica cidadela branca, devastada. Nos registros das guerras, chamam a queda de Arkinarium, de A Batalha das Feras, ou na língua dos inimigos, o episódio se preserva como “Ahúk tsáraf satan.”.



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