Quando o Rei Hadamá fora acometido por moléstia insanável não tardou em ordenar seu filho Hamadi I ao trono; todo o povo alegrou-se nutrindo afável esperança, mas não deixaram de se abater pelo mordaz sofrimento do justo rei; que num breve tempo expirou, enlutando a todos.
E fora sob o reinado de Hamadi I, que os portos e portões foram abertos para batedores, o que de pronto, inflou e inflamou o coração de muitos aventureiros para a exploração; os Sábios igualmente não deixaram de considerar elevadas expectativas em novas empreitadas, e passaram a traçar rotas em potenciais para outros povos conforme os batedores atualizava-os através do mapeamento das redondezas; isto os Sábios faziam com um ardente propósito de levar e proclamar a “Palavra do Uno” às almas em Corlignum, porém, “não podiam se pôr a cuidar de outras ovelhas abandonando as do próprio aprisco” como diziam; assim, julgaram de bom alvitre ordenarem sucessores capacitados para o magistério; neste talante, avaliaram em laborioso escrutínio os candidatos mais aptos para ocuparem tais posições, dos quais se requereria tanto ser de natureza sublime, quanto haveria de ter um proceder ilibado. E destes seriam eleitos os mais hábeis de sua arte; cinco foram eleitos da ordem “Legislativa”, o maior, Lufus, o “Conselheiro de Reis”, intitulado Parakleton e os outros quatro: Nikanum, Hókurum, Faimenas e Tehus os quais eram os “Juízes do Povo”, intitulados Diakletons. Além destas posições havia duas cadeiras oferecidas para os destaques na “Arte do Saber”, e nestas assentaram-se o Teólogo Arcano Akrivel, intitulado de Kirion, o “Mestres dos Mestres”; e o Alquimista Místico Kahi, intitulado de Apolum, o “Defensor do Conhecimento”; ambos com tais títulos lograram a direção e coordenação da Universidade Arkin e dela tomariam posse quando os Sábios se ausentassem.
Akrivel havia vivido 40 primaveras quando fora ordenado para o cargo.
Em determinado dia, os Retóricos de Eruta organizaram um debate a respeito do uso de “Magia”; e para enriquecerem os aprendizes convidaram Akrivel e Kahi para contribuírem com seus pontos de vistas.
Akrivel de bom grado aceitou, e sentiu-se impelido a elaborar um extenso ensaio sobre os perigos do uso da Magia diante a lei do Uno; com ardoroso zelo labutou na arguição do certame em prol da imaculada verdade.
Quanto a Kahi, julgou o convite como um oportuno para seus finórios intentos e não tardou em confirmar presença, considerando favorável o evento a fim de persuadir os ouvintes a somar apoio para a legitimação da Magia, visando abrir portas para uma eventual nova casa na Universidade.
Chegou então o referido dia, e fora no alto átrio que todos se reuniram. O embate começou; e como paladinos em liça, Akrivel e Kahi digladiaram-se em palavras de saber, protagonizando um caro e valioso diálogo de alto grau de eloquência que ali, em prestígio, fora esculpido e lapidado. Todos ponderavam as postas e contrapostas arguições fastosas; os ouvintes, encontravam-se absortos diante a maestria esmerada de tão primorosos oradores.
Akrivel era sagaz perspícuo e sob a ótica do Uno expunha suas argumentações segundo a sinceridade de sua fé, corroborando com longas citações do “Sacro Oráculo”, ora aludindo aos provérbios de vates, ora a instrução da lei, patenteando-se de autoridade em fatos irrefutáveis.
Porém, Kahi era astuto suasivo, e melindrosamente ornava suas palavras com falsa doçura, pois travestia o maligno intento em suposta benigna intenção, a fim de sua voz entoar elevada o suficiente para penetrar os corações de incautos, enredando vítimas a sua malicia; desta forma ele se valia, pois sabendo que proferindo o que os ouvintes gostariam de ouvir os ataria a sua posição, e faria do alvo proponente um antagonista; plantando por conseguinte a semente da repulsa contra as palavras de seu adversário, enfraquecendo assim a recepção do discurso de Akrivel.
“Por que não usar ‘Magia’?” — Inquiria Kahi — “Por que não? Vos pergunto, ela nos lograria um poder além do que já possuímos, e tornaria palpável o impossível e possível o impalpável de maneira branda; pergunto que mal há em desejar o melhor para nós? Pergunto a ti Mestre Akrivel, eres tu contra o progresso? Por acaso temes que os grimórios fará de qualquer homem maior que tu? Sugiro-vos a refletir e ponderar, quanta glória, riqueza, fama e não somente, mas bem-estar em suma não alcançaríamos, se nos valêssemos do sobrenatural? Que a meu ver, segundo proponho, não deixa de ser legítimo desde que não seja usado contra meu próximo, mas isto é, como digamos, armas, vejam bem, usadas para nossa proteção e respectivamente nossa paz e ordem no império; diga-me, Ó Kirion, não se faça inimigo da nova era, medite e verás que nenhum mal dela veio ou virá.”
Todos estavam fitos no certame, e já havia os que empossados do sentimento de Kahi, permitiram-se germinar a maligna semente de má suspeita em seus corações, e passaram a encarar maliciosamente Akrivel; julgando-o em seus íntimos, como um velho retrogrado com ideias obsoletas. Akrivel percebeu ao notar alguns olhares o veneno destilado nos ouvintes, e que alguns, já estavam de alma manchada. Porém, mesmo se condoendo pelos efeitos catastróficos da malicia orquestrada, respondeu resoluto:
“A Magia é má em sua essência, e tão maligna que somente em aludi-la já pode naufragar alguns; mesmo usada para fins supostamente justificáveis ela corrompe e crava sequelas irreparáveis na alma; pois é visto que não rara as vezes ela se vale do desequilíbrio de índole, seja pela escassez de virtude ou excesso de vicio, com fins de aferir poder mediante ira, rancor, ambição em prol de vingança, altivez e tudo sob um mau juízo; pois sua administração fere, usurpa o autocontrole e apoderasse do ser; sendo ela assim de natureza desmedida, quando usufruída para operar vingança anseia punir além da medida justa. Quanto ao grimórios, Kahi, estes não tornam os homens maiores, mas sim mais soberbos e enganados; o ‘Sacro Oráculo’ sim, torna os homens maiores em humildade pois eleva-os aquele que os ensina a serem humildes e de fato justos.”
Kahi não se demorou e antes que os presentes considerassem as palavras do Kirion, inquiriu-o em tom ardil:
“Conjecture em mera suposição que fossemos atacados por alguns que se valessem disto, que tu temes referir, a magia, não estaríamos por acaso em desvantagem? Tendo em vista que o suposto inimigo gozaria em possuir tal magnânima força por meios sobrenaturais?”
“Não...” — Respondeu Akrivel, ouvindo vulto da celeuma de estranheza dos espectadores inconquistados pela resposta — “Não, pois o mal cobra o seu preço — continuou — e este é uma eternidade em lágrimas; mas quanto a nós, perceba que gozamos de maior graça, pois temos em tempo de necessidade o favor providencial, o qual sendo uma força sobrenatural mais elevada e efetiva, nos logra além de auxílio, o aperfeiçoamento de nosso proceder.”
Kahi replicou em guisa jocosa: “Não entendi, não entenderam e não entendemos!” — E riu, buscando manchar o peso das calibradas palavras — “Mas como? Como podemos nos valer disto e desta maneira?”
“Pelo dote de confiar naquilo e naquele que não se pode ver.” — Respondeu calmamente Akrivel, e continuou — “Porém este poder manifesta-se não a fim de erradicar um mal em potencial ou uma eventual possibilidade de maldade, mas para livramento e salvação do que sofre o risco; retribuindo a aquele que oprimi a punição segundo a medida da justiça.”
Kahi contestou ironicamente: “Oh, deverás fabuloso! Qual seria o nome disto e de onde vem? Diga-nos para que possamos correr e alcançá-la!”
Akrivel, se virou para a plateia e respondeu alçando a voz de maneira grave: “O nome disto é ‘Milagre’, e é provida do Uno! Quem vos formou, vos sustenta e se o seguirem... vos livrará!” — Virando-se então para Kahi, continuou — “O que te digo Kahi, é não ‘o porquê não usarmos’, mas do ‘por que deveríamos usar?’ Se temos a promessa de proteção do Uno se formos fiéis, por que nos venderíamos a infidelidade por suposta proteção?”


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