Prophetheia - Capitulo XXXI

    Dentre todas as circunstancias inconcebíveis, aquela poderia se destacar. Lydia, com grande desconforto, despertara e diante sua presença, não vira outros se não um imponente e antigo ser, cercado por um distinto séquito de femininas criaturas, quais se lembrara, eram denominados pelos homens ocidentais de fauno, o primeiro e theriades, suas acompanhantes.
        Tal companhia, lhe evocou memórias de infanta reminiscência, vislumbrada do episódio donde se vira contemplando uma velha tapeçaria nos altos salões de Aquilarium. Pois havia entre as obras de exposição a exata imagem do que agora fitava. Intentara recordar do mito que a ilustração referia, para que dele pudesse aprender um meio de escape. Mas não foi necessário planear por muito, pois enquanto as theriades a examinava avidas e curiosas, o fauno, pareceu não testemunhar algo tão incomum do ordinário, ou talvez, pouco discernia do que já julgava conhecer, de modo que deste ouviu-se:
    "Meninas, menininhas! Com essa não há risco
Colham essa  meninona para vosso aprisco
Oh mundo! Mundinho e mundão está mudando
Pois de tal modo mudou, que mudou essa vossa menina e tanto
Minhas meninas estão se tornando a semelhança do mundo adiante
Oh que mudança! Será que há outras de presença semelhante?

    Isso perguntava, aparentemente sem esperar resposta, pois antes que tivesse chance de ser respondido, o fauno, ignorando por completo, o que antes deteve sua plena atenção, se encaminhava para um outro corpo, deitado inerte sobre um monturo de folhas secas. Com pulsos cerrados, os apoiava na cintura, dizendo curiosa e seriamente:
    "Minha nossa, nossinha!
Isso é um meninola! Não menina nem menininha!
Grande e pouco bonito, fero de questionável beleza
Fera feinha deveras! Bruta feieza!"

    Farkas, de olhos semicerrados, erigiu de pronto, um ponta pé na fuça do fauno, qual urrando, por pouco não perdera seus cornos naquele estupido impacto. No mesmo instante, as theriades gemiam de aparente dor. Lydia percebera, perspícua como era, que os locais onde Farkas desferia os golpes no fauno, fazia-se nelas sentirem, como virtualmente refletidos.
    Diante disto, Lydia, se levantando, bradou em alta voz para Farkas, então absorto no combate:
    "Farkas! Não fira a fera! Permitamo-nos morrer do que praticar tão hediondo mal! Isto é um guardião das guardiãs! Oh céus, cairemos sob temível agouro! - disse Lydia, encolhendo-se e tapando os olhos com as mãos - que o Uno nos perdoe!" 
    
    Farkas entendera, e havia remorso de arrependimento em seus olhos. E rendendo-se a impassibilidade diante a sorte, aguardou humilde o revidado golpe de um fauno irado. E quão irado estava! Este, girando em si uma volta toda, investiu tão forte impulso em seu veloz cajado, que o tal, zunindo, assobiou um grave som de flauta, donde do estampido viu-se brutal impacto bem na testa do pobre homem. Farkas adormecera, e seu corpo, de costas ao solo, viajou longos passos, trincheirando um distante rastro naquele bosque folhado.
    O fauno não parecia ter-se contentado, e caminhava para sua vitima sob toda pressa. Havia fria sanguinolência em seus movimentos e em seu olhar. Lydia estava em prantos, e desfalecia de tal desespero. As theriades a fitavam, e a empatia ardeu-lhes os corações, de tal modo, que uma delas, se levantando gritou:
    "Érifos! Não! Como nós, são estes! Te detenhas
E este é guardião desta guardiã, retorne-te e venhas
Apenas reagira, por instinto, mesmo já vencido
Diante o apuro do desconhecido."

    Érifos, o fauno, parou, suspirou,  e deu meia volta, com semblante leve, calmo e sábio. Mas dizendo para consigo:
    "Tal reação advém do inconsciente? Bem que imaginei!
Pois não há nem sequer entre os mais tolos, isso sei... 
Quem pense que uma criatura tão feiosa, como esse ser
Pudesse contra o tão antigo Érifos, vencer!"

    Farkas, despertou, estava assustado, mas alentou-se com a voz daquela que detinha o controle dos pulsos de seu coração:
    "Meu unicorniozinho" - disse Lydia amorosamente. Não fez sentido algum para Farkas essas palavras, pois ele não podia ver então a assombrosa protuberância em sua fronte.

    Após a convalescência, ambos intentara discorrer o que ocorrera, até que assaltados pelo senso de urgência, tomaram dimensão daquela circunstância. Sem permitirem-se mais descanso,- sob o risco de displicência com a missão - de pronto se levantaram, e procuravam sua saída com não pouca dificuldade. O lugar era um ambiente curioso, uma pequena clareira era circundado por um valado de alta sebe, que fechava a semelhança de sólida parede, essa recebia sombra de indiscerníveis faias delgadas que se trançavam numa densidade tão intensa, que faziam-se instransponíveis, sob a vasta copa dentre toda aquela circunferência, via-se apenas única abertura, estreita, e como observado por ambos, pouco convidativa.
    Farkas e Lydia, empunharam suas armas e adentraram o corredor, que ziguezagueando, provinha uma sensação de enigmático mistério. Até que então, o avanço fora interrompido por soluços, seguidos de uma celeuma lamuriante.
    Ambos, se entreolharam, não pararam, mas acautelaram-se, diminuíram os passos, até que encontraram alguém que a sorte já os havia apresentado, era Érifos, e não estava como o foi.
    O fauno, está assentado sobre um pedra, os lamentos femininos ecoavam por entre as copas, mas nada se via, se não Érifos, calado, e cabisbaixo, vencido pela inercia proveniente de uma profunda tristeza, escorrer lagrimas de seus olhos que infiltravam-se em sua densa pelagem facial. Não pareceu notar o casal entrando em seu recinto - que assemelhava-se a uma grota - ou simplesmente não se importara - não importava mais.
    Seu silêncio testemunhavam seu estado de espirito.
    Lydia, não se deteve, indagou em curioso suspense: "Érifos? O que acontecera?"

"Oh meninona! Estou deveras abatido...
Não poderia haver pior modo, do que este com que fui ferido!
Tiraram elas de mim! E estão intentando hedionda maldade...
Fracassei, as perdi, e meu pendor? Dolorosa saudade!"

Farkas retorquiu, fitando Lydia: "Esse fauno... o que tem de poeta, tem de lacônico! Quem são elas? e quem as tirou deste?"

"Oh unicórneo meninola! Existo tão somente para servi-las...
mas agora nem ao menos hei de vê-las!
E se não as tiver para servir...
Do que me adiantaria existir?
Nunca perdoarei a mim, nem aqueles malignos!
Que só ao mal e pelo mal, sabem servir, desgraçados indignos!"

Farkas, foi tomado de fúria - pois Farkas, militar como era, sempre fora conhecido por odiar vitimismos, ou qualquer aparência disto - e disse queixoso:
    "Ah! Claro... deveras guardião és tu! Posso vê-lo! Todas de você aguardando auxilio e encerra-te a choramingar-te, pois ouça essa seu troglodita peludo... 
    Néscio irracional, como se espera de um tolo animal...
    Falas demais, enquanto os que te ama, sofrem tão grande mal!
    Porque não convoca-nos ao pleito, para contigo irmos ao resgate triunfal?"

    Érifos se levantou com ímpeto, ameaçador e com aterradora feição tal, que Farkas, nunca se arrependera tanto de propalar algo. 
    E o fauno não era o único furioso, Lydia de igual maneira, indignada, fulminava com seu olhar, Farkas, enquanto dizia a este: "Troglodita é você! Seu insensível! Ele já sofre de culpa sem que precise de ti sobrecarregar a consciência!"

    O fauno, bufando então disse: 
"Hoje vejo que há entre os homens, amigo de nobre razão!
O meninola está correto e isso o fez para sempre: meu irmão.
Devo eu resgatá-las ou morrer tentando, pois isso se espera de um guardião!"

    E então, ereto e altivo, urrou, e aquilo ecoou tão portento, que todas as folhas, troncos, relvas e ervas estremecera, e a lamúria findou num suspiro de alivio. O fauno saiu da grota, certo e decidido, sedento de sangue, sem nenhuma esperança de retornar.
    Lydia, puxando Farkas, o seguiu. Passaram um quarto de hora seguindo-o até entenderem por vez, a razão de todo receio que o fauno sentira outrora, mas que agora, o abandonara, pois contra toda sensatez não parou nem tosquenejou diante o que aguardava-o.
    Havia um acampamento, a semelhança de orques, mas que era na verdade, goblins. No centro do bivaque destacava-se um desmedido caldeirão, e as theriades podiam ser vistas, ao fundo, atadas a uma cerca de paliçada. Elas encontravam-se lamuriantes, a exata maneira do que ouviram na grota de Érifos. Em balburdia e algazarra, estavam dezenas se não uma centena de goblins, empanturrando-se e rindo, berrando e bebendo, aplaudiam, e dentre os mais ousados dos irreverentes, haviam os que tapeavam e lambiam em malicia, as singelas e sublimes theriades que desfaleciam diante tamanha crueldade. 
    O Érifos, diante aquela visão abalou-se, e quem quer que o conhecesse, percebera que não se tratava mais de um fauno, mas de alguma violenta entidade sanguinolenta. Farkas, estremecera, mas de igual modo, não de medo, mas pela inflamável ira de um algoz desumano, mas ainda racional e dotado de autodomínio. Método idiossincrático dos homens de guerra em Arkoudarium, que detinha esse dote, de canalizarem sua brutalidade em uma persona a parte de sua própria, para que quando em guerra, a desperta-se, suspendendo da liça seu eu humano, e lutassem sob o pior da brutalidade animal. Farkas, amainando esse ímpeto, analisava Érifos caminhar a toda prova para aquele aquartelamento, dizendo:
    "O cadáver deste bode logo lembrará um porco espinho, de tanta flecha que receberá nas boas vindas da casa goblin!" 
    Lydia, meneou a cabeça, retorquindo: "Goblins não possuem habilidade suficiente para empunharem arcos, e então não as fazem, nem as usam"
    Farkas, sorriu sombriamente ao ouvir isso, e correu até o fauno, seguido por Lydia, que ponderava estratégia diante o caos, até que concebeu algo. Subindo em um elevado, vibrou a corda de seu arco, sua flecha percorreu longa distancia até atingir com precisão milimétrica a alça do caldeirão, que com ímpeto, tombou no pátio do acampamento, deitando fervente algo inflamável sobre o fogo. Sua segundo flecha, vinha voando enquanto os goblins, tardos como eram intentavam desvendar a incógnita, até então ouvirem o silvo do segundo tiro, que cessou ao encontro da talinga principal de uma das cabanas, a qual, abrindo-se, estendera sua lona sobre o caldo no solo, leito do fogo, donde nutriu veemente labaredas. O fumo subiu alto e forte, incinerando parte da tropa.
    Neste instante, um goblin entendera, e avistara um fauno e um homem vindo destemidos e furiosos contra eles. Com um grito agudo, todos, desordenadamente marcharam contra ambos, abandonando todas as theriades, o que Lydia, viu nisto oportuno evento para desatá-las.
    Érifos e Farkas, contra todos aqueles ávidos demônios. Érifos parou, e aguardando o assalto disse: 
    "Eu vos digo com verdade
Sou agora eu quem vou lamber-lhes, com severidade!"

    Farkas, desconcertou-se tentando entender aquilo e disse, retrucando-o: "Pois bem, lambe-os você, eu me contentarei em desfalecê-los no tapa!"

    Após dizer isso, lançou duas machadinhas com força veloz, cada qual ao nó de longos galhos, quais cederam sobre um séquito de góblins. O Fauno por sua vez, rodeou-se com o desenho de um circulo completo feito com o cimo de seu cajado, e o que viram, foram inúmeras aves de rapinas, e toda sorte de roedores, lançando-se com agressividade contra a horda inimiga. O dobro do tanto a pouco esmagado, expirou dilacerada.
    Farkas então, desembainhou a espada e lampejou a lâmina contra os corpos nefastos daquelas vis criaturas. O embate corpo a corpo começara, toda região de membros voavam, e o escuro sangue goblin banhava Farkas, que gargalhava diante a cada modo criativo que se encontrava autor ao ceifar um inimigo. 
    Érifos por sua vez,  investia a contundência de sua arte, e de baques, socos, cajadadas e solavancos, cadáveres eram arremessados, lançados aos quatro ventos.
    De repente, quando a batalha retornara a se intensificar, ouviu-se o canto de theriades, um profundo lamento melancólico, uma melodia que ecoava, aprisionando o éter e o tempo, o mundo foi investido com manta fúnebre, e um sombrio temor apoderou-se de todo coração que pulsava. Do belo canto, seu esperado efeito, tão paradoxal quanto a terrível impressão que causara, pois era também aos seus, salutar - como testemunhado pela perspicácia de Farkas que vira os ferimentos de batalha de todo pequeno animal que servira aquela causa serem tratados - estes,  gozando a graça de serem sarados, viram-se, agora, curados de toda estigma, moléstia e enfermidade, sanando naquela hora as marcas indeléveis de outrora. Não havia mais sinal algum de fraqueza, antes, vestidos com renovado corpo são, fizeram-se sem nódoa, nem mácula.
    Todos foram paralisados pelo estupor de uma expectativa desconhecida, os goblins fraquejaram, e sob o silencio sepulcral, os pequenos animais entocaram, as aves voaram para suas copas, e os roedores para seus covis. A razão de tal reação, logo se viu evidente.
    Ao derredor de todo bosque, havia, infindo bandos de feras da terra, lobos que grunhiam ferozes, felinos que esturravam, ursos que bramiam, macacos que guinchavam assustadoramente, e dentre todos, apenas Érifos viu, o alvo Kudu, e o observou, enquanto este se virou para se velar nas sombras, o fauno sorriu. E então, levantando o cajado com grande pompa de ritual cerimonia, desceu lenta a ponta do cajado que recebendo um vento veemente, emitiu um assovio que se entonava em uma grave nota de pífaro.
    Garras e presas, de caninos, felinos, ursídeos e primatas, eram enterradas na insossa carne seca de goblins desafortunados. A batalha havia acabado, e quando Érifos, descansou o cajado, e as Theriades encerraram seus cantos, os animais retornaram cada qual por onde viera, ignorando uns aos outros.
    Todas as Theriades abraçaram o seu amado fauno, e este por sua vez, disse para seus amigos:
    "Vão meninona e meninola, ouçam o guia amigo!
Que em tempos difíceis recordem! Sempre hão de encontrar abrigo!
E que ainda ouça o que ouvi, aquilo que as guardiãs dos seus animais ouvira...
Que não apenas vós a nós servira,
Mas há nesta floresta alguns entre os seus, e isto toda fauna vira...
Que estes, quando não correm perigos
Correram contra o mesmo livrando os seres antigos!
Vão sob a força do Kudu e sem demora!
Cursem-se sob o toque da chuva ao grito do trovão, agora!
Sigam com toda sorte ao sul, rumo a fora!"

    Farkas e Lydia, se entreolharam - como sempre faziam, e quão impressionante isso funcionava! Pois apenas com o modo e o tempo do olhar, entendiam consentâneos seus propósitos. - assim, em uníssono sentimento seguiram sem duvidar, o conselho do velho fauno, convencidos pelo afã de salvar o seus, e vencidos pelo entusiasmo do venturoso desconhecido.

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