Arken - Capitulo VIII

    Enquanto ainda estavam imersos sob a porfia do certame, foram interrompidos com gritos de pranto: “Mataram Hakum! Há um assassino entre nós!”  O alvoroço de pronto deu início, e não houve quem não se abalasse pois não havia quem não o estimasse; Hakum era o segundo maior em posição, após Setrum e seguido de Hanís, os quais afligiram-se grandemente; Akrivel e Kahi postaram-se estáticos quando ouviram o clamor; e fitaram-se por alguns instantes, ambos estampando semblantes pasmos e meditativos; logo, sincronizados se ignoraram e correram para o grande “Salão das Catedra”, donde ficavam os Sábios; Akrivel estava com a mente nublada por pensamentos de juízo imprecatório, e ansiou averiguar as minúcias do ocorrido; quanto a Kahi, estava curioso para saber como, mas em si não culpava ninguém. 

    Não se demorou para que toda a cidade soubesse do crime; Hakum sofreu um ataque pelas costas enquanto caminhava no períbolo do planalto; fora esfaqueado e expirou tendo uma adaga de marfim traspassada as jugulares, e outra, de obsidia enterrada no peito, a qual se fragmentou, sepultando a ponta no coração. Era uma cena cruel, e todos se atormentavam ao recordá-la. 

    Os Sábios fizeram um voto de silêncio por trinta dias e a cidade não deixou de enlutar-se neste tempo. O corpo de Hakum foi velado sob a sombra da mais frondosa árvore do adro real, ali, os sábios ficaram por toda noite.

    Passados os dias, Lufus, aconselhou o Rei para empreender uma investigação sigilosa a fim de resguardarem-se de uma eventual evasão do infrator, diferente se de outra maneira para tal, fosse empreendida uma inquisitiva direta; o Rei então acolheu o conselho, e sigilosamente pôs muitos soldados descaracterizados entre o povo, chamados de Koinonins, a “Legião Secreta”, esses, foram incumbidos de investigarem, as ocultas, os cidadãos, sob a ordem de encontrarem qualquer evidencia sobre o caso, que de algum modo, pudesse contribuir para o levantamento de suspeitos; todos alunos foram interrogados, um a um, mas nada foi contraditado.

    Passados os trinta dias, os dez Sábios e os sete Mestres selaram o voto com um culto prestado ao Uno; enquanto rendiam louvores e suplicas, Hanís, fora tomado pelo sopro divino; seus olhos incandesceram e sua voz tornou-se grave (de elevado aspecto), sob este estado, profetizava palavras além da compreensão terrena, mas algo do prognostico fora por todos os presentes entendido: Arkinarium iria ruir, pois o juízo estava contra ela; no instante em que promulgara tais palavras, um mancebo manifestou-se no meio deles, este em silêncio escreveu um Epifanum do tipo obra de vates, e ao selá-lo, seus olhos lampejaram de maior intensidade que o de Hanís, até que então, num breve momento transmutou-se numa figura alada flamejante e alçou voou ruma a estrela cintilante mais alva do céu.

    Todos se consumiram de temor e em lágrimas, prostrados em solo, se arrependeram de qualquer falha que velavam no íntimo; e rogaram misericórdia pela cidade; jejuaram sete dias.

    Após este tempo, os Sábios decidiram peregrinar pela terra em busca de levar a palavra do Uno aos nativos; assim fizeram, mas por zelo a prudência não deixaram saber ninguém, além do Rei e dos sete Mestres, os quais incumbiram ao cuidado pelos cidadãos e exortaram o amor fraternal entre eles.

    E foi assim, que no segundo Purium do mês de Hudás, os Decas não foram mais vistos; o tumulto alçou celeuma e todo o povo encontrava-se atônito, muitos murmuravam boatos provindos do ventre, dizendo que os Sábios foram mortos, já outros diziam que foram arrebatados pelo Uno, e ainda somavam alguns, de má índole, que afligiam a todos bradando que estes haviam abandonado a cidade por medo; diante tal confusão, Lufus rogou ao Rei que se pronunciasse; o que o Rei, por sua vez, julgou de bom alvedrio fazê-lo; e sobre o flanco oeste do planalto frente a Merksadina, discursou ao povo nas seguintes palavras: 

    “Meus Súditos e Livres! Cidadãos de Arkinarium, Filhos de nossos pais, e amigos Elfos; atenham-se por um momento! É sabido que corre entre vós o terror do desespero, tanto pela profecia que já tomastes conhecimento, a qual nos enredou uma tal impérvia sina, quanto o suposto abandono dos altos Sábios; ora! Ordeno-vos que se serenem! E ouçam os fatos ao invés de sepultarem a paz; a profecia destes não fora evidencia por algo que irremediavelmente haverá de ocorrer; mas sim, uma advertência, e apenas isto; talvez, o Uno tenha atado a nós a sorte conforme proceder, assim, tal profecia condicionada é para fins de reprimir em nós a conivência com erro, visto que há entre nós um assassino mas não houve quem o denunciasse; desta maneira, apenas nos avisa do que já sabemos: o que plantarmos, colheremos! Isto é, não entreguem o transgressor para serem punidos pela justiça, e pela justiça serão punidos como transgressores! Meditem nisto, pois o que aguardam nossos filhos está em nossas mãos; entrega-nos o assassino e a profecia passará a ser somente a instrução de um pai acerca dos perigos que rodeiam o filho, mas se ignorardes, a sentença já conheceis! Quanto aos Sábios, por que vos turbeis? Visto que são homens livres como vós para irem e virem quando quiserem e para desejarem; assim, se julgaram conforme a vontade em peregrinarem, por que deixarão de ir? Ora, não levantaram eles os sete dentre nós, para em seus lugares assentarem-se? Deste modo vemos, que dantes já planejavam; por assim dizer, não se deve ao fato de o que ocorreu ou deixou de ocorrer que o impeliram a viagem; mas porque outrora tiveram isto por proposito, portanto, alentem-se quanto a isto! E lembrais! Eu sou o vosso rei, e enquanto eu estiver, a cidade não haverá de ruir!”

    Tais palavras amainou grande parte do povo, pois seu tom suasivo, de fato tocou-lhes o ânimo, mas a questão suscitada não deixou de assolar a todos, afinal, quem dentre eles ousaria assassinar um Sábio?

    Enfim, Akrivel e Kahi tomaram posse da Universidade naquele dia, e durante a noite, quando os alunos dormiam, ambos encontravam-se na biblioteca; Akrivel estudava o Epifanum e o “Sacro Oráculo”, e ao Kahi vê-lo foi até sua mesa e assentou-se na outra extremidade da ponta, a qual ficara no centro da biblioteca; Akrivel, sem mover a cabeça e o debruço, ergueu os olhos rumo a Kahi e disse um breve: “Boa noite”  Seguido de um rápido retorno do olhar ao foco no “Santo Livro”. 

    Kahi, assentiu com a cabeça em silêncio, e após fitar alguns momentos o Kirion, direcionou o olhar para a janela maior a qual estampava o céu fusco, e inquiriu: “Responda-me Mestre, por que o Uno matou meus pais? Porque permitiu a morte de Hákum?”

    Akrivel encarou com triste semblante Kahi, e o respondeu: “O Uno não os matou, mas permitiu que fossem por ele recebido no tempo designado.”

    “Se os recebeu para onde os enviou?”  Perguntou Kahi.

    “Sim, Ele os recebeu, mas quanto ao que decidiu não nos compete saber; por piedade a sua alma Apolum, não culpe o Uno por algo que os homens fizeram, mas louve o Uno por ele ter feito o que homens não puderam fazer; vejo que o culpa das mortes que aqueles escolheram, mas não o louva pelas vidas que a eles foram concedidas.”  Kahi meneava a cabeça com lágrimas minando de um olhar desolado, e Akrivel continuou: 

    “Me importo contigo amigo, não permita que o rancor mine seu coração, tu és forte e sábio o suficiente para não ser e nem agir assim.”  Kahi franziu o rosto, e um olhar feroz de um aspecto severo o tomou, e levantando-se bradou em tom de rechaça: 

    “O Uno despejou sua ira contra mim e eu a entesourei, sou o que eu haveria de ser, e me tornei o que Ele fez me tornar, eu sou a própria ira do Uno, não me estorve naquilo que fui designado a fazer Akrivel, aviso-te por consideração a ti.”  Quando isto disse, as velas tiveram as suas flamas osciladas, Kahi virou as costas e caminhou rumo a porta do leste velando-se ao adentrar as sombras.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

~ Esta obra se encontra em desenvolvimento, assim sendo, é de prezada valia a opinião dos leitores. Colheremos todas as críticas, desde que tais sejam construtivas, no intuito de proporcionar melhor experiência de leitura. ~

Voltar ao Topo da Página