Enquanto ainda estavam imersos sob a porfia do certame, foram interrompidos com gritos de pranto: “Mataram Hakum! Há um assassino entre nós!” — O alvoroço de pronto deu início, e não houve quem não se abalasse pois não havia quem não o estimasse; Hakum era o segundo maior em posição, após Setrum e seguido de Hanís, os quais afligiram-se grandemente; Akrivel e Kahi postaram-se estáticos quando ouviram o clamor; e fitaram-se por alguns instantes, ambos estampando semblantes pasmos e meditativos; logo, sincronizados se ignoraram e correram para o grande “Salão das Catedra”, donde ficavam os Sábios; Akrivel estava com a mente nublada por pensamentos de juízo imprecatório, e ansiou averiguar as minúcias do ocorrido; quanto a Kahi, estava curioso para saber como, mas em si não culpava ninguém.
Não se demorou para que toda a cidade soubesse do crime; Hakum sofreu um ataque pelas costas enquanto caminhava no períbolo do planalto; fora esfaqueado e expirou tendo uma adaga de marfim traspassada as jugulares, e outra, de obsidia enterrada no peito, a qual se fragmentou, sepultando a ponta no coração. Era uma cena cruel, e todos se atormentavam ao recordá-la.
Os Sábios fizeram um voto de silêncio por trinta dias e a cidade não deixou de enlutar-se neste tempo. O corpo de Hakum foi velado sob a sombra da mais frondosa árvore do adro real, ali, os sábios ficaram por toda noite.
Passados os trinta dias, os dez Sábios e os sete Mestres selaram o voto com um culto prestado ao Uno; enquanto rendiam louvores e suplicas, Hanís, fora tomado pelo sopro divino; seus olhos incandesceram e sua voz tornou-se grave (de elevado aspecto), sob este estado, profetizava palavras além da compreensão terrena, mas algo do prognostico fora por todos os presentes entendido: Arkinarium iria ruir, pois o juízo estava contra ela; no instante em que promulgara tais palavras, um mancebo manifestou-se no meio deles, este em silêncio escreveu um Epifanum do tipo obra de vates, e ao selá-lo, seus olhos lampejaram de maior intensidade que o de Hanís, até que então, num breve momento transmutou-se numa figura alada flamejante e alçou voou ruma a estrela cintilante mais alva do céu.
Todos se consumiram de temor e em lágrimas, prostrados em solo, se arrependeram de qualquer falha que velavam no íntimo; e rogaram misericórdia pela cidade; jejuaram sete dias.
Após este tempo, os Sábios decidiram peregrinar pela terra em busca de levar a palavra do Uno aos nativos; assim fizeram, mas por zelo a prudência não deixaram saber ninguém, além do Rei e dos sete Mestres, os quais incumbiram ao cuidado pelos cidadãos e exortaram o amor fraternal entre eles.
E foi assim, que no segundo Purium do mês de Hudás, os Decas não foram mais vistos; o tumulto alçou celeuma e todo o povo encontrava-se atônito, muitos murmuravam boatos provindos do ventre, dizendo que os Sábios foram mortos, já outros diziam que foram arrebatados pelo Uno, e ainda somavam alguns, de má índole, que afligiam a todos bradando que estes haviam abandonado a cidade por medo; diante tal confusão, Lufus rogou ao Rei que se pronunciasse; o que o Rei, por sua vez, julgou de bom alvedrio fazê-lo; e sobre o flanco oeste do planalto frente a Merksadina, discursou ao povo nas seguintes palavras:
“Meus Súditos e Livres! Cidadãos de Arkinarium, Filhos de nossos pais, e amigos Elfos; atenham-se por um momento! É sabido que corre entre vós o terror do desespero, tanto pela profecia que já tomastes conhecimento, a qual nos enredou uma tal impérvia sina, quanto o suposto abandono dos altos Sábios; ora! Ordeno-vos que se serenem! E ouçam os fatos ao invés de sepultarem a paz; a profecia destes não fora evidencia por algo que irremediavelmente haverá de ocorrer; mas sim, uma advertência, e apenas isto; talvez, o Uno tenha atado a nós a sorte conforme proceder, assim, tal profecia condicionada é para fins de reprimir em nós a conivência com erro, visto que há entre nós um assassino mas não houve quem o denunciasse; desta maneira, apenas nos avisa do que já sabemos: o que plantarmos, colheremos! Isto é, não entreguem o transgressor para serem punidos pela justiça, e pela justiça serão punidos como transgressores! Meditem nisto, pois o que aguardam nossos filhos está em nossas mãos; entrega-nos o assassino e a profecia passará a ser somente a instrução de um pai acerca dos perigos que rodeiam o filho, mas se ignorardes, a sentença já conheceis! Quanto aos Sábios, por que vos turbeis? Visto que são homens livres como vós para irem e virem quando quiserem e para desejarem; assim, se julgaram conforme a vontade em peregrinarem, por que deixarão de ir? Ora, não levantaram eles os sete dentre nós, para em seus lugares assentarem-se? Deste modo vemos, que dantes já planejavam; por assim dizer, não se deve ao fato de o que ocorreu ou deixou de ocorrer que o impeliram a viagem; mas porque outrora tiveram isto por proposito, portanto, alentem-se quanto a isto! E lembrais! Eu sou o vosso rei, e enquanto eu estiver, a cidade não haverá de ruir!”
Tais palavras amainou grande parte do povo, pois seu tom suasivo, de fato tocou-lhes o ânimo, mas a questão suscitada não deixou de assolar a todos, afinal, quem dentre eles ousaria assassinar um Sábio?
Enfim, Akrivel e Kahi tomaram posse da Universidade naquele dia, e durante a noite, quando os alunos dormiam, ambos encontravam-se na biblioteca; Akrivel estudava o Epifanum e o “Sacro Oráculo”, e ao Kahi vê-lo foi até sua mesa e assentou-se na outra extremidade da ponta, a qual ficara no centro da biblioteca; Akrivel, sem mover a cabeça e o debruço, ergueu os olhos rumo a Kahi e disse um breve: “Boa noite” — Seguido de um rápido retorno do olhar ao foco no “Santo Livro”.
Kahi, assentiu com a cabeça em silêncio, e após fitar alguns momentos o Kirion, direcionou o olhar para a janela maior a qual estampava o céu fusco, e inquiriu: “Responda-me Mestre, por que o Uno matou meus pais? Porque permitiu a morte de Hákum?”
Akrivel encarou com triste semblante Kahi, e o respondeu: “O Uno não os matou, mas permitiu que fossem por ele recebido no tempo designado.”
“Se os recebeu para onde os enviou?” — Perguntou Kahi.
“Sim, Ele os recebeu, mas quanto ao que decidiu não nos compete saber; por piedade a sua alma Apolum, não culpe o Uno por algo que os homens fizeram, mas louve o Uno por ele ter feito o que homens não puderam fazer; vejo que o culpa das mortes que aqueles escolheram, mas não o louva pelas vidas que a eles foram concedidas.” — Kahi meneava a cabeça com lágrimas minando de um olhar desolado, e Akrivel continuou:
“Me importo contigo amigo, não permita que o rancor mine seu coração, tu és forte e sábio o suficiente para não ser e nem agir assim.” — Kahi franziu o rosto, e um olhar feroz de um aspecto severo o tomou, e levantando-se bradou em tom de rechaça:
“O Uno despejou sua ira contra mim e eu a entesourei, sou o que eu haveria de ser, e me tornei o que Ele fez me tornar, eu sou a própria ira do Uno, não me estorve naquilo que fui designado a fazer Akrivel, aviso-te por consideração a ti.” — Quando isto disse, as velas tiveram as suas flamas osciladas, Kahi virou as costas e caminhou rumo a porta do leste velando-se ao adentrar as sombras.



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