Enquanto ia o velho sobre a carruagem, como um cocheiro solitário, ouviu-se tom de um mancebo:
“Akrivel! Quanta glória o povo não lhe atribui! – Disse o jovem acompanhando a lenta carruagem guiada por Akrivel, o qual sem se deter respondeu:
“A honra precede o homem, como o orgulho a sua queda; posso aceitar seu aplauso, mas não assentir contigo! E se o que diz, diz segundo a sinceridade de seu coração, não mereço tal honra; mas se diz não crendo no que exalta; não vele o desprezo, pois é o que de fato mereço.”
O jovem ainda sem ponderar plenamente o que havia ouvido, disse resolutamente:
“Discordo de ti! Não fizeste o bem a toda hora? não padeceste o abandono pelos enganados, por não abandonar a verdade que tens contigo? Já foste desprezado pelos alheios, agora desprezas a ti mesmo? Poupa-te, isso não tu mereces!”
O velho, largando as rédeas, e mergulhando em meditações, replicou:
“Não convenci a ninguém, por isso fracassei no meu propósito; e se o admirável é o ideal que se busca entre os que o admiram, põe-te a pensar! um fracassado é agora estimado, o que será daquele que o estima?”
O jovem, tendo como uma resposta pronta a língua, não se deteve:
“Discordo de ti novamente! E de fato penso, se tal seguir a verdade que lhe convenceu, como este, mesmo que fora destruído pelos homens e afogado em ignominia e vergonha, ainda será bem aventurado!”
O velho, parou a carruagem, fitou o jovem que resoluto, havia acompanhado correndo, e disse-lhe estampando largo sorriso:
“Considera-me além da medida justa e sensata, pequeno Daehrown!”
Daehrown, em ato reciproco correspondeu o sorriso com um igual, e suspirando considerou:
“Sim, agora acho que concordo contigo! – E ambos riram, como quem reencontra velhos amigos.
“Está longe de casa! Não arrisca aventurar-se tão longe?”
Daehrown meneou a cabeça, e disse: “Nossa casa não é como era, e não gosto de como está; não pretendo voltar, quanto a estar longe, quanto mais distante estou, maior conforto sinto, me parece... bem, não sei dizer.”
Akrivel o fitou, mas nada respondeu naquele momento, vendo que seria vão qualquer tentativa de persuadi-lo, pois disse com uma sinceridade que refletiu dor; Daehrown, olhou a carruagem e perguntou: “Para onde pensa em se assentar?” o vetusto, olhou para o horizonte que findava em um amplo arvoredo frente a eles e respondeu: “Não faço idéia! Mas sinto que ainda devo caminhar ao norte.”
“Vou acompanha-lo!” – Disse o jovem cheio de ânimo, o velho correspondeu: “Então suba, deixou-me cansado só de vê-lo correr todo este tempo”. Assim foram, Akrivel e Daehrown, rumando ao norte, sem pressa, e sem destino aparente.
Cruzaram o vale de Cesh Kell, margeando de contra o ribeiro Sanguine que afunilava até seu manancial. Quando próximos de Gers Nakon, Daehrown fungou, e atentou julgando a causa, o que incomodado impeliu a investigar o intenso odor que sentira:
“Sente esse cheiro? – Akrivel respondeu dizendo: “Quanto mais velho menos percebe tudo, meu caro, odor de que tu imaginas?” – “É de putrefação, - retomou - há alguma coisa, para não dizer cadáver por aqui... vou ver!”
Adentrando um pouco o escuro bosque, Daehrown viu o que parecia um cavaleiro lançado ao chão; chamou Akrivel, e ambos foram vê-lo, estava desfalecido. Daehrown puxou o pesado armadurado para fora do bosque, tiraram o elmo, era um Elfo; Akrivel trouxe da carruagem alguns suprimentos, água e comida, e deram-lhe, o que o fez recobrar, e de súbito acordou assustado: “O que? Onde? Quem são vocês?” – disse em língua Élfica, o que foi entendido, visto que em Arkinarium já ensinava essa língua; e enquanto ambos começavam ensaiar um grande discurso de apresentação, rebuscando largas linhagens e títulos que lograram, o cavaleiro Elfo, interrompeu, como quem recorda de repente:
“Por favor! Meus irmãos e minha irmã foram pegos pelas aranhas! São muitas” Akrivel e Daehrown se encararam, e sem conhecer o risco da ameaça responderam: “Vamos ajudar, mas não temos armas e não sabemos onde estão, tens ideia?”
O Elfo respondeu: “Sim! É verdade, as armas foram deixadas onde sofremos o primeiro ataque, numa clareira a duzentos passos daqui! E meus irmãos estão um pouco ao norte!”
Dali eles foram, Akrivel buscou as armas, e Daehrown, gatil, fora farejando rumo a um covil que não esperava.
Enquanto Akrivel caminhava atento por dentro a floresta, ouviu um barulho, um cicio continuo; de pronto passou a seguir rumo ao ruido, então viu, entre um pé de uma grande árvore e um largo arbusto, sete espadas desembainhadas de beleza incomensurável; o vibrante sonido era forte, e provinha da lâmina negra de uma das espadas, a qual ostentava um pomo simulacro de cabeça de dragão; Akrivel começou a unir as espadas e a embainha-las, e quando a bainha ocultou aquela lâmina peculiar, o ruido cessou.
Daehrown, guiado pelo odor, havia encontrado os corpos, e todos estavam enclausurados em teias; eram ao todo quatro elfos e uma jovem elfa, de beleza extraordinária; de pronto, põe-se a desembrulha-los, desatá-los e a servi-lhes um cantil, até quando de repente, Daehrown incrivelmente ouviu aranhas vindo, e num lapso, transmutou-se num lince negro de porte grandioso, e lutou contra elas.
Akrivel ouviu o brado de felino, e correu em direção; chegando, viu os elfos, ainda terminando de se desatarem e um lince violento lutando com as aranhas, levou ao elfos suas espadas e ajudou-os a livrá-los, todos recobrados pelo susto e desespero desembainharam suas espadas e começaram a lutar habilmente, o irmão desses, que estava na carruagem apareceu neste instante para assistência. Mas não era o suficiente, aos múltiplos as aranhas vinham, e Akrivel gritou-os a seguirem-no guiando-os para fora.
Houve um breve recesso entre outro assalto eminente das aranhas, o que lhes garantiu boa oportunidade para fuga, enfim saíram de Gers Nakon, e próximo da carruagem todos caíram ao chão de alívio, os Elfos se abraçaram, pois já estavam seguros, sabido que não é costume das aranhas saírem dos bosques.
Akrivel estava exageradamente exausto, Daehrown transmutou-se, mas estava ferido; todos estavam admirados com aquela criatura, Akrivel o viu e rogou aos elfos ajuda para cura-lo, ciente que esses são mestres nisso; de pronto se viram na obrigação disto, e coletaram algumas folhas de simples aspecto, dali mesmo, e trataram Daehrown.
Quando a calmaria amainou os ânimos, todos encontraram-se famintos, e Akrivel de bom grado, recreio-os com alguns mantimentos que trazia consigo em sua abastada carruagem.
Um dos Elfos, de trajes, aparentemente mais vistosos, fez uma fogueira, e enquanto fitava as flamas, chorava, segurando a espada com pomo de dragão.
Akrivel, Daehrown e os elfos, após saciados assentaram-se ao derredor da fogueira de junto desse principal, e Daehrown, inqueria a respeito de suas origens e razões, e eles de igual modo a ambos.
Akrivel, optava sempre ao ouvir e analisar a todos, enquanto Daehrown, perdia-se nas multidões de palavras, com perguntas de toda sorte, as quais os Elfos se divertindo, respondiam pacientemente.
Descobriu-se que os Elfos, eram dissidentes do povo Élfico do Norte, de Coraar, que haviam se insurgido contra o Rei Othriel, e estavam migrando para o sul, com vistas a se unirem com os homens, como alguns rebeldes elfos de outrora fizeram, liderados pelo príncipe caçula, Havad, após serem expulsos por traição.
Neste momento, Akrivel e Daehrown assolaram-se, temendo o risco que Arkinarium havia incorrido e o perigo que corria.
Mas, continuou os elfos:
“Estamos deveras arrependidos, e voltaremos para nosso pai, dispostos a sofrermos a punição que convém a nosso erro; quanto a Havad, ele é de fato cruel, obstinado e de dura cerviz, seu vil caráter o enredará a sina que merece.”
Terminadas as palavras, os Elfos, tendo sabido que ambos estavam sem destino, os convidaram para ir como amigos ao reino Élfico, os confortaram, dizendo que nada de mal poderiam esperar lá, pois Elfos são justos, e dão a retribuição segundo a medida de sua justiça, e pelo valor que haviam demonstrado, entesourariam grande honra entre eles, por terem salvos príncipes da família real.
Daehrown, de pronto aceitou o convite; mas Akrivel, perguntou se havia algum lugar tranquilo e mais recluso do mundo; todos o aconselharam a clareira Haletá, donde havia a cabana abandonada, da qual rezava a lenda de outrora, ser de um alto sábio, da extinta raça dos Manthorns. Akrivel se agradou, e desejou o lugar; os Elfos se prontificaram a guia-lo até lá, visto que o caminho mais seguro seria contornar a leste de Vudsa Lykainen, cruzando assim, a pacífica Skógur Kliringo; sendo caminho da rota que planejaram.
Assim foram, e após três dias, chegaram a Haletá; Akrivel ali assentou-se, e descarregou todas suas pilhas de livros; os Elfos o auxiliaram, e em seguida, sem se demorar, iniciaram o segundo decurso do trajeto de volta a casa, Akrivel, ofereceu-os os cavalos como presentes de sua presteza, confiando-lhes nas mãos dos Elfos, o que todos se encheram de gozo e ao se despedirem para partida, disseram em jubilo:
“Que a fartura de dias que sua elevada natureza o concederá, sejam abastadas de conhecimento e paz; saiba que tens amigos, e se o perdão nos for concedido, cunharei seu nome na memória de meu povo, e seu valor e feito para conosco será entoada entre nós, disso tenha certeza, Akrivel, O Sakriven Imastun, a reminiscência dos Elfos permanece tanto quanto a existência da terra. Adeus!”
Assim partiram, e Daehrown fora com eles.



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