Prophetheia - Capitulo XXIV

Fora assim que sob o alvorecer a aliança real deu curso a seu plano, contra todo senso de caráter consuetudinário, empreendeu o que os tomos sobre arte da guerra nunca aconselharam. Na imprevisibilidade residia sua esperança, e na surpresa amparava sua força.

Fato observado pelos batedores que o inimigo havia arvorado um acampamento de atalaias entre os braços de Liek Hemera. Rytaia Adavi era uma muralha natural, e estes postavam-se como paladinos frente a seus portões de madeira. O Liek prestava-se muito bem como uma fossa igualmente natural. De modo o era, que era sabido a todos que a única entrada possivelmente com menos resistência para Mubatur era atravessia Nolk Salkhi a noroeste de Al-nahál, em direção a Kilotanatum, que outrora foi berço do lendário Adiastikus e dali, rumar a nordeste através das margens de Ray, Mul e enfim Amur que desemboca na amaldiçoada cidade.

E assim o foi, no crepúsculo do terceiro dia após a batalha de Invoer Cvet, que os homens empreenderam-se em cumprir o planejado. A grande massa de soldados atravessou rumo ao sul, o Veld Arklys a sombra da noite até Fidirium, sob a esperança de encontrem seus irmãos convalescidos e dispostos em somar a força  da resistência de Nolk Salki. Porém, pouco de suas expectativas foram correspondidas. Grande parte de Taurinium ainda se encontrava inapta para qualquer pleito, uma vez que estes fizeram a primeira frente do segundo assalto na batalha, muitos foram suas percas, e profundo seu flagelo. 

Ali, foi transmitido o plano para os principais e ordenada aos súditos, o que de pronto se puseram a operar. Ha'ad fora comissionada para vigar céu, e do céu vigia-los, há algo mais do que mágico de como esses animórficos se recuperam, e ela fazia-se prova disto. Os druidas que se encontravam em Fidirium, subiram ao monte para Walden Tanka a fim de servirem posicionados ao lado dos seus iguais que ali se encontravam. Dali, o plano seguiu, de Arkoudarium os dovaritas cruzaram o bosque e seguidos destes, os de Licarium, furtivos os acompanhavam em sua travessia de Khro Nogaak. Mornuroz Wuglin em sua extremidade oeste, congelava.

O acampamento órquico em Hemera gozava de privilegiada visão, desde Invoer Cvet até Al-Kumahá, e isso, precisava ser minado. Para este fim designaram Hulfgar e Likusgar e sua alcatéia, para Nolk Salkhi, pois eram mais velozes, de modo que a distância não reteria a vantagem que a natureza os provera, e também pelo fato de melhor corresponderem ao pletio em liça contra as feras orquicas. E assim o fizeram, a partir de Fidirium, atravessaram a convalescente Vuds Pivnak, saltaram Vezór e postando-se a nascente de Zaire, uivaram o brado de guerra. Eram realmente uma grande horda de lobos, de tal sorte, que os uivos em massa não deixaram de assaltar os animais e atenção de todos orcs que patrulhavam Rytaia Adavi.

E então, a trompa de corno, estridente e hedionda de um orc chefe sobre um warg, soou. E não houve maligna fera de toda aquela península que não respondesse de pronto ao seu chamado Wargs contra lobos, orcs contra barbaros, mancharam de negro e carmin suas lâminas e presas aquela dia.

Foi então, enquanto entranhas eram devorada e elmos rachados  e Hemera desprovida de força que sos orientais do norte, homens de Taurinium de junto com o exercito ocidental deitaram a escombros o acampamento orquico e adentraram Rytaia Adavy.

E dali, os homens separaram-se, e os ocidentais desceram para apoiar os bárbaros do norte, enquanto os orientais rumaram-se aos magos, porém, a densa mata, muito os atrasou, e neste primeiro assalto não vieram a tempo.

Simultaneamente com estes, o terceiro clan da aliança real, os magos dovaritas cruzaram Invoer Cvet, mas não desceram com estes para o acampamento orquico, antes, continuavam pelo norte da rota, porém, se depararam com o vau do Liek para o golfo, e andaram sobre as aguas até o fim delas a outra margem. continuaram, orientando-se pela banda meridional de Mornuroz Wuglin, e após dias, chegam as planícies que ostentam os portões negros de Mubatur.

Mas pelo que notaram, o assalto era esperado, pois postavam-se altivos e sombrios, diante da carrancuda parede de ferro e pedra, uma fileira bem alinhada de transfigurantes, de capas negras e surradas e rostos velados, cajados retorcidos e fuscos como carvão. Não se demoram, e de pronto como anfitriões descorteses recepcionaram com maldição e feitiços na língua maledictus.

O embate iniciara, e foi evidente as classes de que se valiam, os necromantes, a linha de frente, invocaram seres mortos que avançavam contra os invasores, os transfigurantes, tornando-se animais cadavéricos e sombras densas e informes, seguiam-no, a retaguarda dos defensores de Mubatur, os bruxos recitavam, ou quando não, liam em velhos tomos de grimório, feitiços de ludibrie, de modo que enquanto o faziam extasiados, neblinas e insetos eram expelidos e exalados de suas narinas, bocas. Das pedras de seus cajados, que o vapor do fervilhamento somavam a nuvem espessa, dos livros e dentre suas páginas, igualmente expelia-se pó de cinza e fumaça que quando tocavam no chão, transfigurava-se em serpes de chifres.

Era algo aterrador de se contemplar, muitos de olhos cerrados e com ambas mãos em seus cajados, balançavam-se levemente acompanhando ao seu movimento cíclico, balbucios repetido, enquanto de suas pálpebras minavam sangue.

Assim foi que cada classe resistia a seu correspondente antagônico, os magos de ordens menores repeliram os exércitos de desmortos, contendo-os, de impulso em impulso com o campo de força produzido pelos seus cajados, que quando o faziam, a muito perto do inimigo, os implodiam até reduzi-los a pó, e quando em duplas o obravam este ataque, explodiam quantos estivessem ao redor.

Contra os transfigurantes que vinham a toda tona do céu, o vinham mirando nos cajados, a fim de tomá-los e lança-los desde os céus, desprovendo-os de suas armas de combate, os altos magos de dovarium, contra estes, quando assopravam o cimo de seus cajados, com certa frequência, ou chocavam cajados com cajados de seus irmão em certa sequência, emitiam por consequência dessas maneiras, sons rítmicos como flautas e tambores que perturbavam os transfigurantes alados, os quais não podendo manter a forma diante o ressoar daquele som (que desfazia tal encanto), caiam de seu sobrevoo.

E ainda a resistência sob contra-ataque diante os bruxos de ludibrie, os quais confundindo seus inimigos com espectros, desatentavam os magos, tornando-os vulneráveis, havia os altos magos de Fidirium, os quais, respondiam a esse ardil, erguendo seus cajados que ostentavam serpentes de bronze, cuja luz de excelso reflexo brilhava contra as trevas tão intensamente, que dissipavam todo engodo. Discernindo os oponentes dentre os reais e o embuste.

O problema do mal, é que quanto mais se lhe acomete o que merece, mais ele obstina-se. Nisto há um principio evidente nos bruxos, contra toda sorte, é a de que, quanto mais se frustram, mais se inflamam de ódio, e quanto maior a ira, mais canaliza-se sob o mau que o domina, de modo que, por sua vez, quanto mais ódio, maior poder manifestam, pois neles se concentram. Irados então, intensificam sua força, de modo que os magos não puderam resistir por muito, a efeito colateral dessa tentativa, foi que muitos enlouquecia diante a profusão dos ludibries, quando não, cajados partiam e eram devorados pelos desmortos.

Fora então, quando o medo tomou vulto no semblante dos sábios, que ouviu-se o brado de muitas vozes prenunciando o batalhão de homens que rompiam das sombras das arvores. Mulfalut os liderava, e havia confiança em seus olhos, tal que a reação diante de seu semblante, não era impassível, pois instigava medo no inimigo e inspirava coragem naqueles que o contemplavam.

Os homens, como se a batalha estivesse a muito ensaiada, não se demoraram, e em um só pensamento flanquearam-se contra a grande massa dos desmortos. E dela se estenderam como linha de frente ampla e ameaçadora, dando ensejo aos magos de concentrarem-se no suporte, agora convalescidos pelo reanimo. Assim definiram, pois sendo os homens vulneráveis contra poderes pretenaturais, não o eram contudo, incapazes contra os desmortos, que diante a fúria dos orientais retornavam a não existência, agora, enfim, dilacerados. Quanto aos magos, por sua vez, exerciam o equilíbrio, empenhando-se em suprimirem a malicia da ardil magia negra dos bruxos, uma vez que, sendo de a classe dos magos de menor número, não podiam concorrer a horda de desmortos. 

Assim decorriam, e como tal, auferiam avanços, até que os bruxos, recuando de pouco em pouco, enfim recolheram-se de todo, e os portões cerraram-se sob o selo de feitiço. A horda de desmortos foram abandonados, a fim de ocupar o tempo e atenção dos invasores até o ultimo cajado bruxo encontrar-se dentro da vil cidadela.

Um silêncio sepulcral desceu sobre toda a falda. Dúvida e confusão perpassou como sombra no rosto de todos, o medo os espreitou. Mas não deram-se a inércia. Antes, armaram acampamentos e planejaram sitia-los.

Não havia como adentrar por nenhuma arte bélica, nem como incitá-los, pois fecharam-se e dali nada se ouvia. Não havia leito de provisão para que se pudesse sabotar, os muros eram intransponíveis, e os portões frustraram múltiplas tentativas, apesar de aos olhos humanos não demonstraram tanta robustez. 

Os magos se reuniram em conselhos, e rogaram auxílio do Uno, pois estavam cônscios que outro ensejo não o acometeria novamente, uma grande ordem de magos, naquela batalha se extinguiu, e vê-los ao chão com olhares de longas jardas, feriam a todos os seus irmãos, que os recolhiam em lágrimas, cantando lamentos e cremando-os segundo a ordem fúnebre. Este cenário os convencia que não podiam dar de ombros e fazê-los de morte vã, antes compreendiam, que a vitória eram premente, e sua consumação latente.

"Não podemos uma afronta direta" disse um dos magos, "se lançarmos artifícios, o ricochete é certo. Toquei a muralha e conheço o Speculum Hevot." 

"Não apenas isto", comentou outro, "visto que o mal é satírico em tudo que empreende, suponho a conjuração de Tuvet'Muluk" tais palavras causaram grande impressão e pavor em todos. De modo que um deles, colocando uma das mãos a cabeça, empurrava o capuz para trás, respondeu: "Maldita seja essa raça vil! Que a lei inescapável os encomende a punição que os convém. Recorreremos irmãos, a aquele que detém o domínio do tempo, Senhor de todas vitórias, cujo galardão promete fielmente para aquele que nele dependem o socorro."

Um dos mais velhos magos, propôs: "Jejuaremos, e aguardaremos a orientação do uno até o alvorecer, quem concede favor sem mérito aos desfavorecidos."

A noite era fria, e as nevoas forraram-se sobre os pés, o noturno luminar lançava sua luz sobre a terra, porém, como observado, na cidadela de Mubatur, nem o mesmo havia brilho de reflexo em seus muros negros, apenas silêncio, e trevas sob trevas.

A lamúria sufocada de alguns magos ouvia-se próximos as piras carbonizados, de seus irmãos. Quando não, murmúrio recitados do Sacro Oráculo por alguns, estirados ao chão, com rosto em solo. Nenhuma conversava entre si, antes, cada qual isolava-se na introspecção de sua mente. Dentre estes, muitos fitavam Mubatur dos altos montes e colinas ao derredor, pensantes, meditativos, reflexivos, em pé ou agachados, apoiados em seus cajados, com a alva barba correspondendo a luz lunar.

A vigília eram dos magos, os homens descansavam segundo a necessidade de sua natureza, quando o mago mais assentado em assento de pedra, com o cimo do cajado, iluminado um tomo aberto sobre seu colo, enquanto o alvo de seu olhar, o fazia fitar a floresta mórbida, apenas olhando, sem observar, assaltado pelas cogitações e ponderações do livre perscrutados, que enfim, roubou-lhe atenção o inesperado.

Dentre o alto e sombrio arvoredo, que distava a um tiro de pedra, um Kudu branco lhe apareceu, era de um brilho tão excelso e sublime, que concorria com a luz da estrela d'alva, a qual, se estivesse velada do firmamento celestes, poder-se-ia conjecturar que ela havia descido a terra e corporificado segundo a majestosa imagem daquele animal.


O Kudu lhe fitou, e deu som ao berro, o ribombo de seu urro fora de um timbre tão grave e ressonante, que assemelhou-se a marreta nos ouvidos tal não o foi somente uma impressão pois o solo de rocha sólido, trincou e veio rachar do até aonde se encontrava o velho sobre a pedra a qual também partiu a estilhaços. Quando deitou as costas ao chão, não se demorou, e pasmo levantou-se num salto, e se deu a correr, porém, após três passagens, retornou atordoado, pois havia esquecido o livro no chão, o tomou, e pôs-se a toda pressa, na medida e maneira que pôde até a tenda principal, onde estava reunido grande parte dos principais, e gritou: "O Uno respondeu! Sim, o foi, vi e senti... e ouvi! Creio que lutará em nossa causa e nos orientará!"

Um mago menor, sem se deter, replicou: "E então mestre? O que nos respondeu o Uno? Qual sua orientação?"

O velho cessou o animo fatigado, assaltou-o um semblante inquisitivo, respondeu pensante: "Bem... é, bom... nada tão claro como me parece. Ou... não sei, eu acho!"

"Não entendo mestre" - disse o menor com a idêntica expressão de pesar desapontado de todos - "não disse-nos que o respondeu?"

"Sim" - retomando o fôlego, o velho continuou - "Sim, de fato respondeu, porém, o fez por sinal, vi na margem da floresta, um majestoso Kudu alvo, de luz celeste, e este berrou, não puderam ouvir?"

"Até agora, creio que todos nós havíamos julgado ser um trovão" - todos assentiram a resposta do menor, estes, continuaram observando-os.

O velho adentrou sua introspecção, avidamente aplicou-se a esquadrinhar-se, não pôde discernir a experiência do fato, ou se de fato fora meramente uma experiência. Sabia o que tinha visto, mas não havia mesma certeza no caráter de sua visão, segundo um assalto onírico, imprimiu-lhe uma impressão, deu senso nos sentidos, era um fenômeno de fato. Mas talvez, o súbito lhe impeliu a gritar a todos se considerar seus por menores. De modo que ali, frente a todos, decidiu responder:

"Bem, perdoe-me irmãos, o que vi, eu vi, porém segundo sua realidade que se apresentou, mas ainda não tenho situada a dimensão que se ocorre, deixe por hora, vossos ouvidos me ignorar. Não há verdade sem convicção nem crédito desprovido de valor probatório. Talvez, meu sono e afã fundiu-se e deu forma a vista nesta ilusão." Retornaram a persistir ao rogo pelo Uno.

Muitos o fitaram, os jovens com certa esperança de lapso a ser esclarecido, que pudesse retratar o velho, e os mais velhos, de igual maneira, que lhe concorria a experiência de existência, meneavam a cabeça, murmurava algo como: "É pelo tempo um mestre do prognóstico e ainda lhe assalto algum susto?" ou "Aplicou-se sobre miríades da mesma, e não foi capaz de distinguir da imagem, alusão de ilusão!"

Nesses sentimentos retornavam alguns, e entregaram-se a convalescer do sonho até que, de repente, os jovens tiveram visões e os velhos sonhos, e de súbitos todos foram por um premente despertar, impelidos a bradar o que contemplaram, em quase uma só voz, adentraram quase a todos, no mesmo ânimo e disposição na tenda principal, manifestando vulto da balburdia.

"Eu vi, o Kudu!" e outro: "Seu berro fez cair a noite!" E ainda outro: "Cornos de ouro reluzir no cimo da criatura" e ainda outros. Vários desfrutavam as variantes, porém do mesmo sentido: "Sete chifres de ouro; longo e forte berro e fim das trevas."

Nisto exultaram louvor ao Uno, o espirito histérico da primeira testemunha, o velho, que ainda pouco punha a prova sua razão. E disse: "Eis a graça daquele que é Senhor do real fato mais evidente, a mais latente e absurda fantasia elaborada. Nele engolfa-se o real e o irreal, qual em si, sendo realmente a existência e irrealmente compreendidas torna sob a lente do prisma de seu ser, o 'irreal existir' e o real ilusório. Pois não há plano ou dimensão, existente ou não, que esteja privado da glória de sua realeza!"

Dos homens que não era Arcanos, confrontados com os ânimos de seus irmãos, inqueriram afoitos o significado e sentido do que se vislumbrava, e assim ouviu-se a resposta, ao ancião mais antigos:

"Sete chifres dourados, são sete trompas de ouro, o berro que fez a sombra aluir a sombra é o ressoar comungado delas, este principio já conhecemos nas antigas histórias de nossos pais, quando Yuzi, o herói, sitiou a mando do Uno, Herik'ot e desta a muralha ceder após sete ressoar de sete trompas de ouro."

E então, o vetusto conhecido, cerrando os olhos e sorriu, dizendo:

"O Uno nos guiará até e além da vitória contra as sombras daqueles que odeiam a luz." E finalizando, ele abriu os olhos, tirou de seu manto uma trompa de marfim - que os magos de Fidirium, na verdade a alternam sua função, tornando-o receptáculos de fármacos, enquanto os de Dovarium, delas se valem para convocar pássaros da natureza como mensageiros - fitou a trompa, e lançou seus pés, e tocou o cimo de seu cajado sobre o objeto, qual, ao toque, transubstanciou-se, e de alvo marfim reluziu a trompa agora dourada.

Outros seis, tomando as suas, seguiram o exemplo, e a mesma semelhança do feitiço, operou o prodígios com os seus. Evocou-se um jejum a todos naquele dia, e as vésperas do romper matutino, ouviu-se o poderoso clangor. Os fundamentos da terra foram abalados, o solo e o céu estremeceram, e a muralha trincava e ganhava ritmo, percurso e dimensão a cada ressoar das trompas. Porém, antes do ultimo golpe, o inesperado ocorre e tomou a todos de apreensão.

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