Nos tempos gélidos de Hagapen, quando as folhas secam-se e as árvores adormecem e o distante astro solar afasta-se ainda mais para que os telhados e gramados sejam alvejados. A atalaia alçou sua voz anunciando desconhecidos à vista. E fora assim que os Elfos da Flora e da Fauna chegaram, eram todos de um estranho aspecto, não aspiravam quem os visse um ar de fausto ou glória, mas ao contemplá-los exprimiam-se poder e mistério. Andavam velados de capuzes e mantos rubros e esmeraldinos fuscos, alguns empunhavam longos cajados e às cinturas viam-se lâminas de brilhos cintilantes. Somavam um grupo de aproximadamente cinquenta membros, além de Elfas e seus pequeninos, os quais vinham acomodados em meia dúzia de carroças com pertences e livros.
Apresentaram-se como amigos em busca de hospitalidade. O Rei permitiu-lhes entrada de bom grado, e o povo, curiosos e entusiasmados, os receberam com admiração manifesta. Não tardou para sentirem-se à vontade e em breve tempo ofereceu seus serviços em prol de um povo tão amável e receptivo. O Rei Hadamá aceitou render-lhes ofícios, concedeu-lhes moradias onde os agradassem e permitiu-lhes livre acesso a toda terra sob seu domínio. Estes, escolheram então o norte de Arkinarium, ali se estabeleceram e viveram sob as sombras dos carvalhais e pinheiros de Arbodina.
Não deixaram de cumprir a palavra, antes, de pronto passaram a laborar na arte do ensino a todo cidadão que lhes inquirisse em interesse, legando-os um elevado conhecimento sobre metais e ensinando os Homens a forjarem lâminas de toda sorte. Também facultaram as “Artes Místicas”: “Astronomia” e “Alquimia”, das quais alguns deles tornaram-se ministros destas disciplinas na Universidade Arkin. Na “Arte da Guerra”, capacitaram os combatentes (dos “Torneios”) com modos, meios e maneiras de pugna nas liças em treinamentos ardis. Até os Mestres de Aritma, os quais sendo instruídos por estes, puderam com logro sucesso aperfeiçoarem o engenho bélico.
Tão ampla a maestria de seus saberes que em todo âmbito, com exceção do ensino Arcano, não deixaram de contribuir. Os Sábios em rejúbilo alegravam-se ao verem o povo sendo dotado de conhecimentos tão uteis por tão hábeis mestres.
Dia e noite, das árvores do nordeste onde hospedavam, ouviam-se belos cantos de tom grave em barítono, ornados com agudez soprano das vozes de belas Elfas. Em melodia melancólica, de fato, tangia o mais íntimo do ser e quebrantava o mais rijo dos corações, donde via-se ao fim das canções os mais ásperos vencidos pelos prantos. Se é que alcanço o inarrável, descrevo tais poesias como sendo de aspecto inefável e de natureza além da compreensão.
Assim alegremente vivemos na companhia de seres tão admiráveis, aprendendo de todos e sendo inteirados de tudo que havia além de nossas muralhas e das vistas de nosso horizonte, tanto em lendas, como em veras narrativas. Dentre estes relatos, informaram-nos da presença de alguns como nós, porém, de naturezas adversas à errância de seu próprio alvedrio. Contou-nos também sobre as raças dos Elfos da Fauna e da Flora com seu majestoso reino, Coraar, com suas magnificas florestas, os broncos Anãos e suas infindáveis cavernas dentre o seu império, Oramar, e transmitiu-nos histórias sobre antigas feras que vagavam e bestas milenares que dormitavam em algum lugar daquela terra. Relatou-nos, ainda, acerca de vetustas ruínas, vestígios de reinos há muito perdidos e de raças ancestrais que outrora povoaram aquelas terras. Entretendo-nos assim, com venturosas empreitas e instigantes lendas que inflamavam as nossas entranhas o anseio de explorar, divertíamos e comungávamos com paz em união de espírito.
Porém, como todo radiante dia tem seu fim no poente, o qual anuncia a escura noite, as sombras não deixaram de entenebrecer ao fim os pacíficos momentos. E assim fora que o mal germinou, Kahi, consumido de rancor, maquinava maldade contra os Sábios, e por mau acaso tomou ciência que Havad — um Elfo de mesma idade — tinha em posse “Livros de Poderes”, e Kahi, sabendo disto, arquitetou apelar para azaração a fim de consumar o que chamava de “vingança”.
Considerando então parte de seu entremear contra os principais, ousou em astuciar, aproximar-se de Havad e consolidou firme amizade com este, porém possuído de má intenção e sendo hábil quantos as palavras, perverteu sem dificuldade o alvitre do jovem Elfo, persuadindo-o a ensinar-lhe em secreto, sob o pretexto de mera curiosidade, a “Arte da Magia Negra”, a qual continha nos livros de cunho maligno que portavam alguns Elfos. E fora deste modo, sob as ocultas, que Havad ensinou-lhe as maldições.



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