Fora correndo sobre as pampas de Veld Arklys que havia decorrido aquela longa noite, quando Lydia distava entre Liek Hor e Aquila, e o horizonte da banda oriental, luzia tom magenta da breve aurora, acometeu-lhe um tremor o qual abalou os fundamentos da terra, seu cavalo, num sobressalto pende a queda, porém, recobrando, não tombou. Lydia, sob o tino abalado, tomou por má sina o abalo; fitou o destino e retomou o decurso a toda pressa.
Chegando a Aquilarium, Lydia adentrou a cidade, a praça estava vazia, e pouca guarda havia sobre os muros; Lydia, intentando em breve análise concluir a razão do atípico silencio, visto que outrora, toda cidade abarrotava-se, aos múltiplos de todo ser, e de celeumas não cessava; até que, ouviu-se a trompa dos corsários, e Lydia correu a torre a fim de tomar a vista do porto; e ali, ela viu, carracas acompanhadas de galeões descendo Harzanit; e temeu, em lágrimas Lydia lutava no anseio de descrer a realidade que a assolava; pois percebera que todo restante de sua família e amigos haviam de junto, abandonado a cidade.
Deixando a torre, rumou ao palácio real a procura do rei, e tomada de ira e indignação, adentrou o átrio de vossa majestade, relegando a mesura, com ousadia que beirava a insensatez, elevou em brado a rouca voz de timbre melancólico:
“O que fizeste oh Rei!? Ordene que retornem, é pela união que o feixe tornasse inquebrável, precisamos de toda força e todo braço para a guerra contra aqueles que buscam nos aluir!”
Os principais que se assentaram a destra do rei, se levantaram gritando: “Como ousa a insolência?!”
O rei os interrompeu alçando mão e meneando a cabeça, e sereno, proferiu:
“Não venceremos Lydia, nem que todos os homens desta terra marchem juntos, mesmo com doze feixes unidos, eles nos despedaçarão! A coragem em excesso cega a razão e ata a ruína, enquanto a sensatez sopesa os contra balanços; e sob zelo do povo opta ao resigno e renuncia a fim de livrá-los; entenda nobre capitã! Nosso povo morrerá, mesmo com toda valentia deste mundo; e é meu dever salvá-lo!”
Lydia de pronto replicou:
“Não oh meu rei! – e desabando de joelhos, chorava dizendo – eles correm perigo, e vossa covardia os matará! Vi os altos mastros daquelas naus serem engolidos pelas águas, e meu povo, seu povo, nosso povo... afogados sob a sombra da morte!”
O rei a fitou e inqueriu sem se demover: “Como pensas tu que sabes disso? Como o podes saber?” Lydia, respondeu: “Foi me desvelado no alto adro de Dovarium!”
O rei meneou a cabeça mostrando indignação e em tom de descredito, pôs-se a dizer rudemente:
“Ah claro! Os grandes sábios! Afinal, porque não os consultar? Não é próprio dos tolos e ignorantes que desprezam a verdadeira sabedoria, tomar tolos arrogantes por sábios?... sábios? – e riu em desdém – digo a ti louca! É por atentar as loucuras que o mundo desmede o valor real das coisas, e sacrificam o que importa por apenas tocar o que em breve fenece; porque lutar hoje? Se amanha tombaremos? A fim de que abrir os olhos na aurora? Se os cerraremos no crepúsculo do mesmo dia? Podes tu responder-me? Logo tu que fia crédito em devaneios?”
Lydia, ousadamente cortou o altivo discurso do rei: “Eles dizem a razão, pois testificam da Verdade que rege” O rei interrompeu:
“Quem são eles? Meros homens que homens simples estimam; são egoístas covardes, sim! Isso que são! Se enfiam entre os picos das montanhas e se entremeiam sob as galhadas dos arvoredos, se escondem a fim de que? É sob um falso pretexto que ocultam seu real caráter; malditos sejam! Porque velam-se esses vetustos? Se não para preservar os últimos dias miseráveis que restam! As cãs fizeram-lhes soberbos, não os ouça! Plantam medo em ti, pelos truques de ilusões, talvez para usar-te como instrumento de suas maquinações, não duvido, não são confiáveis!”
Lydia, aguardou o desabafo do rei, e levantando-se, enxugou com as mãos o rosto encharcado de lágrimas, e disse branda:
“Não penses este mal em seu coração, oh meu rei! Antes, não desprezes as profecias, as quais até hoje, essas têm se demonstrado verdadeiras ao consumarem tão somente fatos; e de uma mesma autoridade que se mostra inerrante é que atenhamos nossas esperanças, visto que tal, atou nossa sina a vitória! Mas não sem esforço nos aferraremos a ela... e se em labuta morrermos, o mal não furtará a conquista, tendo em vista que alcançaremos, pela vida ou pela morte a paz na eternidade! Pois lutamos em nome do bem, e nisso já somos vencedores! Assim dignificados, fomos achados havidos de lutar com valor e vigor convictos de que a recompensa é certa! Quanto a preservação da vida? Nada vale, quando nela não se granjeia as virtudes, e que virtude há em fugir?”
Todos estavam tomados de assombro, e havia alguns que foram tão tocados de inspiração pelas fortes palavras de Lydia, que lhe despertaram coragem, e vieram até ela dizendo: “Sim! Que valor há? Se não fizermos o que a honra nos compete? Nossas centúrias lutarão contigo!”
O rei, levantando-se do trono, os expulsou a todos sob severa ordem, e obstinado sem se comover, disse: “Querem morrer? Que morram! Mas não enterrarão meu sangue com vosso!”
Lydia, estampando tristeza abissal saíra e quando frente ao quartel, seu batalhão, que lhe respondia, vieram a seu encontro e disseram: “O que pode fazer tão somente um archote? Se não acompanhado com uma nuvem de flechas? Não irá sem nós!”
“Nunca poderia de fato” – respondeu Lydia com acanhado sorriso, que se interrompeu enquanto desviava o olhar, fitando as naus descendo o horizonte. “E quanto a eles?” perguntou um dos seus, referindo-se a esses. Lydia, suspirou profundamente e respondeu: “Tomo o uno por testemunha de minha promessa, que voltarei, e irei até aos confins do mundo a fim de encontra-los, e quando os encontrar, vou abraça-los com toda alegria de minha alma” – enquanto dizia, rememorava seus irmãos e amigos.
E outro dos que ali estavam, tomou a palavra dizendo: “Eu os vi Lydia, e antes de embarcarem, seus tios e amigos te aguardavam e foram aos prantos recordando-te.” Lydia, sorriu, e engoliu as palavras enquanto resistia as lágrimas.
Assim fora, que Lydia retornou com alguns soldados em lenta marcha, pois poucos cavalgavam, visto que a maioria eram de infantaria; a força, somava trezentos arqueiros sob sua ordem, e sete centúrias, que respondiam aos seus respectivos sete capitães, os quais, inspirados pelas palavras de Lydia, declararam fidelidade a causa.



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