Akrivel adentrou a cidadela de Mubatur, os magos estavam procurando cativos nos cárceres, e outros adentravam as residências em busca de artefatos que foram roubados. Akrivel se dirigiu para a torre central. Enquanto caminhava pela praça principal, notou gárgulas fitando-lhe. Elas eram estatua de pedras que representavam alados seres bestiais, seus olhos eram vazados e seu interior, oco. Pois nelas ardiam chamas purpuras. Magia responsável pela articulação dos membros de pedras.
O velho mago não as temeu, ignorou-as. Antes de adentrar a torre, viu um druida saindo a toda pressa da residência para a bastilha, mas não se deteve, antes dispôs-se a abrir as maciças portas da madeira.
O rústico interior da torre era um salão circular de pedras disformes e escuras, como esculpidas em rochas, o piso emadeirado em tom escuro estava velado sob pó de pólvora. O teto, era de uma redoma com pico acentuado sem forro, mas telha exposta, porém, havia ilusões sustentadas por mágica. Era a representação de um planetário com sete planetas alinhados, sob um fundo chamuscado do que se recordava uma miríade de estrelas.
Na extremidade oposta da porta, elevava-se um trono simétrico e equilátero, sobre ele, estava uma figura sinistra. Era encapuzado, com mantos e capa negras de linho grosseiro, essas vestes estavam surradas e bordas extensivamente desfiadas. A capa estava pinçada com broches em bronze semelhante a de seu visitante, Akrivel.
O cajado daquele que estava assentado no trono, era de salgueiro retorcido com veios profundos encimado com uma esfera perfeita de ônix. Seu rosto estava velado nas sombras, e seu aspecto era cadavérico, até então, trazer o rosto para a frente, o que se recebeu os fachos de luz do sol que se projetava das janelas ogivais, e o que se viu, não foi o que esperava, pois sob a luz, o rosto da criatura tomava a forma do rosto de homem velho, porém, ainda sadio.
O velho homem, muito conhecido por Akrivel, de nome Apolium, outrora Kahi, riu fartamente fitando de modo sinistro o visitante. Akrivel mesurou de modo desajeitado e manteve silêncio, de semblante sério e porte austero, assistindo os movimentos que se seguia.
Apolium havia se levantado, sorrindo, soltou as mãos de seu cajado, o mesmo, porém, manteve-se verticalmente estático. Ouviu-se palmas, que foram seguidas por essas palavras: "Foram feitos prodigiosos como nunca se viu sob o céu! Ó Egrégio Mago! Se permitistes, toda a terra o fariam um deus!"
"Se assim o fosse, e se a blasfêmia eu seguisse como a meu próprio ventre eu servisse, acabaria decerto como aquilo que agora fito... louco por agora, enganado por hora, e sem os supostos súditos que me juraram uma lealdade que nunca conheceram. Pois sabe-se que se faz efêmero toda resposta a um chamado impelido pela vaidade." - disse Akrivel sem esboçar impressão no rosto.
"Vaidade? Indiferença na lealdade? Fui fiel e leal ao que compreendi por justiça! Por ela é que me tornei insaciável. Se pequei o foi por excesso de zelo nesta, o que impeliu-me a vingança. Poderia ser julgado? Eles mataram meu pai! E devem pagar cada gota de sangue deitada em terra! Devo está honra a ele! É esta lealdade que me faz digno de ser morto por você?"
"Você, Kahi! Impediu-se tanto de enxergar a verdade, que o engano tornou para ti, uma lei! Examine-se... Como escolheu vingar seu amado pai? Matando os filhos de quem te amou?" - dizendo isto, Akrivel, lançou o penduricalho de esmeralda aos pés de Apolium, que de pronto sussurrou: "Lufus!"
Akrivel continuou: "Honrar seu pai? Como? Fazendo o mesmo que ele havia se arrependido de ter feito? Desobedecendo-o? Afastando-se do conselho qual ele teve de pagar com a vida para compreender? Você vela-se sob o embuste de uma suposta piedade! Digo antes, que você tornou a morte dele vã, e se estivesse ao seu alcance, seria capaz de tornar a matá-lo tão somente para provê-lo deste ímpio pretexto."
"Akrivel! Seu poder não vaticina seu juízo! Não tens o direito de assentar ao trono e estender o cetro contra quem quiser e a seu bel prazer!" - bradou Apolium, irado.
"O absoluto não é propriedade de ninguém para que possa denominá-lo de meu juízo. Vos fazeis passivo a reprova de sua própria consciência, isto é, se fordes fiel em escutá-la. Não sou eu quem o sentencio, mas as suas próprias obras entesouram para ti, sua própria sentença! Tão somente aponto o que está em incontestável evidência" - disse Akrivel, brando.
"Viestes para quê afinal? Matar-me de enfado? Acabe logo com isso. Erradique o risco, encerres aquilo que poderá incorrer a ruina sobre aqueles qual tu amas. Pois isso decerto se demonstrará feito, se me poupares." - Disse Apolium, e havia indignação em suas palavras.
"Por amor a memória do ontem, e por amor a esperança do amanha. Pois me agarro a centelhas de promessas de uma tal reminiscência, que faz-se ecoar do véu que está adiante, dizendo que poderá de vir a restauração para todos, algo que anseio inclusive para tua alma, mesmo que isto seja uma remota probabilidade, ainda creio em um pavio que fumega, uma vez que, já fostes o que deixou de ser, mas pela cunha dos atributos que em outrora já possuístes, decerto que poderá serdes aquilo que nunca deverias ter deixado. Pois já fostes um dia, leal e sábio, e como tal, pela convivência e amizade de seus leais e aspirantes a sabedoria, tornastes contribuinte para aquilo que agora sou, de modo que, posso desafiar-me a razão com a seguinte indagação, como poderia matar-te sem destruíres a mim mesmo? Apolium, éramos teus amigos.... Lufus e eu." - replicou Akrivel, afável.
"Amigos? Lufus me traiu, comiserando-se da desgraça que enredaria aos homens, acovardou-se pela pena que sentira. Ele abandonou nossa causa... que os corvos o carreguem! Quanto a vós, sempre foste insuportável!" - treplicou Apolium, dando voz a ira de seu amago.
Akrivel, dando um passo a frente, disse em um tom mais riste: "Creio que gostarias de dizer: 'Sua causa' pois Lufus de nada tinha ver com suas ambições egoístas, tão somente fora enredado pelo zelo que devotava a sua alma, pervertido com palavras pronunciadas por sua língua bifurcada." - mesmo que as palavras demandassem alto tom, Akrivel mantinha-se impassível como se nada o tivesse impressionado e continuou - "agora desvelastes que fizestes por senhor o teu próprio ventre, pois recusas obstinadamente os conselhos, seja em qual teor. Tu odeias quem te odeias e odeias mais intensamente quem te amas. Eu os repreendia e ensinava, porque os amava e temia que vos incorresse a caminhos como este que agora trilhas, caminhos que agora te destroem!"
Ao finalizar essas palavras, Apolium se levantou, empertigado, e com ira visivelmente retida. O anfitrião adiantou-se ameaçadoramente até dois passos de seu visitante. E disse em tom impressionantemente controlado, mas com olhos lacrimejados: "Tens me frustrado se é o que querias... pois agora, abandone-me!" - dizendo isto, olhou de relance as gárgulas e assentiu com a cabeça, em instantes antes de se transmutar em um corvo e adiantar-se para além das janelas ogivais em direção ao monólito que encontrava-se sob a sombra norte de Rytaia Adavi, sumindo na runa que lampejou ao receber seu contato.
As gárgulas, se lançaram contra Akrivel, cujo ultimo lapso que se poderia vê-lo, o foi realizando um breve movimento de meio ciclo com o braço. Houve uma implosão, o teto ruiu, e com este, todas paredes se deitaram para dentro do foco. O solo foi cedendo para um desfiladeiro abissal, que de pouco a pouco - porém numa velocidade aterradora - a encosta rochosa do mar estendia-se engolindo escombros do que outrora fora uma alta cidadela de pedra. Agora, engolfadas por águas que chocavam na face de um penhasco adiantado, recém presente, onde era a alguns instantes atrás o portão negro de Mubatur.
Os homens, feras e magos, que se postavam na falda da floresta, viam agora, não mais uma carrancuda muralha instransponível, mas o horizonte que se dava aos pés do golfo leste, e uma cena tão curiosa que os assaltou profundo estupor.
De toda cidadela, com suas edificações e seus largos pátios, sobrou apenas um fragmento empilhado. Era como se fosse uma pilastra, que outrora fora parte do solo. Isso restava em pé, seu cimo, era o exato local onde Akrivel se postava, disse se soube, pois sobre ela, o mago estava ereto com seu cajado em mãos. Parecia, aos olhos de alguns, uma estátua sobre uma coluna antiga, erguida sobre as águas de um mar extenso como um farol edificado na enseada. O mago, virou-se para a encosta. E estendeu a mão esquerda em um movimento ascendente, enquanto sua direita tornava o cajado para a diagonal a fronte.
E de repente, irrompeu do mar, uma fileira de pedras lisas, centenas de paralelepípedos que de parte em parte iam se somando, até se ver um caminho suspenso tornar-se uma ponte sólida. Como um pier de pedra, que coligava a base onde o Akrivel estava, até a beira do penhasco que dava para o campo de batalha em direção ao monólito de Rytaia Adavi.
Naquele crepúsculo, sob a garoa fina que descia das nuvens em tom magenta, Akrivel cruzou a ponte de pedra.


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