Arken - Capítulo I

Assim se encontra nos Registros:

indava uma noite de alvos luminares, quando em direção ao leste navegávamos em três naus de alto bordo, Gaspar, Melchior e Balthazar; cada uma delas com todas nossas famílias e pertences:

    A primeira, Gaspar, a nau branca, vinha com os filhos de Semum, os doze Sábios de nosso povo e seus cento e trinta e dois aprendizes, essa também, fora encarregada de transportar os livros e suprimentos.

    A segunda, Melchior, a nau sépia, vinha com os filhos de Afimum, a casa dos reis, nela os nobres e toda majestade real estava a bordo, cento e cinquenta e três dos principados. Nesta tinham o ouro e as vestimentas.

    A terceira, Balthazar, a nau negra, vinha com os filhos de Kanum, a casa do grande povo, comerciantes, camponeses e artesãos, ali se encontrava quem habilmente obrava toda espécie de ofícios, contavam-se nesta, duzentos e setenta e seis almas zelosas do bem, incumbida fora, de transportar os utensílios domésticos e as ferramentas.

    Apreciava-se a trilha melódica no carme dos vates, e ouvia-se as celeumas dos flibusteiros. O colóquio dos principais era comentado pelo povo, até que então, encerraram-se todos no silêncio quando interrompidos pelo brado do vedeta no alto mastro: “Terra à leste!

        O ruído da espuma afanando o casco das naus, era o único que fazia fundo sonoro de nossa contemplação, pois fomos tomados de encanto, engolimos as palavras diante tamanha graça daquela terra, e naquele momento, a quebra das ondas cantou sozinha.


    Ela era de aspecto magnânimo, de natureza inefável. Erguia-se da linha do horizonte, de norte a sul, uma interminável crista de montanhas, e à falda desta longa cordilheira gris era leito de um pastio esmeralda. Enquanto avançávamos lentamente empurrados pelo brando sopro do leste, o astro solar alçava voo e engolia as sombras pelos sopés do elevado espinhaço de rochas.

    Tal privilégio de admirar aquela paisagem provocou-nos a um grito de gozo, e isto fora de maneira tão orquestral que nossas vozes se tornaram como uma só potente voz. Tal ânimo não fora exacerbado, visto que navegamos ansiando uma terra por sete meses, sem consumar o talante de pisar em solo feraz.

    Quando desembarcamos em terra às margens brancas da praia, nos pusemos a meditar onde ergueríamos o burgo, julgaram os mais sábios ser de bom alvedrio instalar-se nas imediações de um bosque de carvalhos provido de fonte, o que nos valeríamos também do grande pastio como quintal.

    Conosco havia não poucos hábeis construtores, os quais de pronto levantaram com rapidez as habitações, se valendo do labor dos lenhadores e mineradores que com todo vigor e boa vontade forneciam tudo o que era então necessário para a empreita.

    Nossos corações estavam preenchidos com alegria e felicidade, servíamos uns aos outros com prazer e paz, o clima exalava um doce odor de comunhão fraternal, e as palavras eram de amor e graça. Entoávamos cânticos de jubilo, dos quais se preserva um entre nós:

“Dos mancebos ouço os gargalhos;
 Das donzelas a doçura dos cantos;
 Quão agraciado os grisalhos!
 Há luz nos secretos antros;
 Desfrutam da feliz geração;
 Os quais com alegria plena no coração;
 Dançam sob as folhas farfalhantes;
 Á luz das estrelas cintilantes!
 O som da paz, é entoado!
 Com gozo e jubilo dos agraciados!

    Todos os ofícios eram bem ocupados com presteza pela então chamada: “Irmandade. As mulheres carinhosamente teciam e zelosamente cuidavam de todos como filhos. Os Anciães, eram por todos reverenciados, e destes, havia os denominados, Dodeka, que somam os prezados: Setrum, Andís, Hakum, Hanís, Lipús, Hataní, Dímum, Mafís, Simús, Híkel, Hutá e Zatani. Doze Mestres, os quais formavam o alto conselho da então fundada cidadela de Arkinarium, homens de letras eram esses veneráveis e dedicavam-se unicamente a instrução dos pequeninos e dos mancebos.

    Neste tempo, não havia necessidade de muralhas, guardas, patrulhas, nem soldados, pois não se via ladrões ou inimigos, era como se o mal ou aparência deste não nos havia encontrado, pois não se conhecia o perigo, e o medo, era esquecido de nossos corações.

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