Prophetheia - Capítulo XIX

Uma extensa horda negra velava o chão sob sua sombra, o horizonte eclipsava com os lábaros, estandartes, lanças e máquinas de cerco, e o incontável exército de sórdido aspecto grunhiam aos berros ensurdecedores, o solo tremulava frente sua potência.

            Os homens, tremiam de temor e assombro, e os que ostentavam alguma fagulha de coragem, se davam tão somente pela ânsia da morte heroica. Seus olhares eram de mil jardas, e sustentavam-se em pé, mas estavam como mortos. O rei fitava o inimigo, e todos o fitavam aguardando a ordem.

            A trompa do inimigo soou, e o assalto dos invasores deu início; porém, nesta primeira ordem alcançou somente as feras, e as bestas, essas, por sua vez, eram aos montes engolidos pelas trincheiras, sepultadas pelas fossas e empaladas pelos piquetes sem medir a dor da morte. Estavam sedentas, em um afã terrível de tão somente devorar o que estivesse a sua frente. Ali, se descobriu que o inimigo a isso previra, e fora para um desses fins que trouxera bestas-feras, como aparato para localizar e enredar a vão uso as possíveis armadilhas.

            O rei ordenou o ataque das armas de lance, mas todos os projeteis se desfarelaram, demonstrando-se inúteis frente a cúpula de defesa conjurada pelos bruxos flutuantes que a sustentavam. Todos se abalaram, pois depositavam muita confiança naqueles dispositivos.

            Após descoberta as armadilhas e defendida o primeiro ataque, os inimigos fitavam o exército aguardando a ordem de avante, o bruxo, qual aparentava ser o líder dentre os que flutuavam, disse em alta e ressonante voz: “Queres paz?”

O rei, com tremor respondeu inocentemente:

“E quais os termos que propões?”

O bruxo retorquiu: “Se entreguem a morte e terão sua paz pós fim!” – as tropas inimigas riram jocosamente. O rei, irado, respondeu:

            “Isso eu não poderia de igual modo te propor, pois o que lhe aguarda no sem-fim é o pior dos infernos! Que não me faça tão infeliz, e o que céu jamais me veja voltar as costas ao inimigo; embora me deva custar a vida, não irei obscurecer por uma fuga vergonhosa o brilho de tantas vitórias que conquistei sobre vós em outrora! Antes, recebê-lo-eis com armas em punho, e combatendo generosamente, aceitarei o que aprouver o Uno permitir que me aconteça!” – e virando-se para seu exército, bradou tão ressonante quanto:

            “Homens do ocidente! Sei que vosso temor intenta convencê-los do fim, mas digo, que ele se engana! Pois não se julga a vitória pelo número das forças, mas sim, mede-o pelo valor que irrompe de seu seio! Sim! Os amigos nos abandonaram, os irmãos fugiram, nossos ânimos nos traem, porém, é fato que em terra do Uno a injustiça nunca obterá vitória! Sim! Hoje sou vosso irmão, pois todos somos súditos de um único Rei, o Uno, que pela justiça nos dará vitória! Avante soldados valorosos! Pois já venceste o pior dos inimigos, a covardia!”

        A trompa do inimigo soou a segunda vez, e as tropas de orcs na linha de frente se puseram a marchar. O rei deu ordem, visualizando que a cúpula de defesa do inimigo já não mais acobertara os que avançavam, assim, fez sinal para relance das armas-de-tensão, e os orcs, tombaram aos múltiplos, mas eram muitos, e isso não os refreavam, antes, punham-se a correr mais velozes inquirindo a localização dos arqueiros, e quando perceberam donde provinha as flechas, isto é, dos extremos sobre os bosques, destacaram-se dos flancos rumando para combatê-los, e assim foi, que o pleito de corpo dera início. O céu tornou-se tão negro quanto os abismos, as aves do céu desciam e se transformavam em bruxos tenebrosos.

Malak, Farkas e Lydia seguiu o rei, dando o peito a fronte, cada qual regia sua tropa segundo confiada a sua patente. O exército aos lapsos e em desordem, encorajados pelas palavras de seu rei, já não mais nutriam medo em seus corações, nem havia receio que os fraquejasse. Fora assim que as forças pesavam cada lâmina, e cada coração. Elmos e armaduras de placas refugiam, luziam cintilantes, fulgurando como astros cadentes imersos num pleito velado a poeira.

As aves contavam aos Druidas o que enxergavam, e esses, interpretando-as dava informe aos reis sobre o número que se deduzia e como se seguia a batalha. A força estimava doze legiões na causa dos homens, contra treze vezes esse tanto sob o lábaro inimigo. Os beirds, em lamento, já tomando a derrota por fato, e lamuriavam:

“Tão certo quanto o ontem existiu, o amanhã não virá;
Sim, as aves dizem e é o que será! Qual tal no eclipse,
donde a sombra toma o brilho do luar,
assim as alvas tropas dos homens,
frente a treva revolta, estão a minguar!”

Porém, quando essas palavras foram ouvidas pelos homens, temeram, mas antes que se entregassem ao desespero ouviu-se um brado: “Não!” – era Leonadair, e ele havia se recuperado, e vinha às pressas sobre Arag e acompanhado desse, o seguia Killium, a lendária fera, qual a seu lado, já robusto e em tal porte, que assombrava quem o contemplasse.

Malak, Lydia e Farkas se atentaram ao tom da voz e reconheceram, e num sobressalto se viraram, o viram e ouviram-no continuar – “Não! Resistamos a noite e o amanhecer decerto virá! Quando isto disse, Leonadair, cegado pelo impulso avançou solo desembainhando a espada, bramindo e brandindo, como leão em seu bote contra a caça. Isto fez, tão levado pelo ímpeto dos sentidos que saltou com Arag seguindo o Rei, e aparelhando-se com Malak, Farkas e Lydia.

Assim fora, que brandiu Akimirus com fúria tão aterradora que o seu brilho cegava os orcs, seu tinido ensurdecia as criaturas vis, e seu fio atassalhava quem se dispusesse a sua frente, Killium rugia fazendo eco a sua sonância, rasgava entranhas e devorava as vísceras, sempre a guarda do Capitão, agora enfim na liça. Seus amigos, inflados por um animo sobrenatural, empreendiam feitos que se eu me tomasse a prova em descrever, deveras seria tido por louco; não estavam a trás, mas lado a lado, Leonadair, Malak, Farkas e Lydia, pleiteavam sob uma sã porfia, emulando-se qual mais ceifava. Diante sua ira nada lhes resistia, se não a própria solicitude em ver seus compatriotas padecerem frente ao terror.

Arketon, os fitando, admirava-os, e por perspicácia não deixou de notar, que alguns dos bruxos que pairavam sobre as cabeças do hediondo exército, se demoviam lentamente em direção aos amigos, pois na fúria que empreendiam, causou-lhes receio de uma perca significativa, e pelo destaque em labuta passou a mirá-los, o que os fez imprecar contra os campeões. E ensaiando o lance de um poderoso feitiço, chamado bombardum (ou na má língua, “mudrakmu”), Arketon reconheceu o risco eminente, e em desespero intentou um feito, mais no intuito de distrai-los do que refugá-los, e gritando Leonadair, para que este se atentasse ao perigo que os alvejaria, tomado fora de um fôlego suicida, visto que conjurou um contra-feitiço chamado implodus, o qual era uma espécie de força magnética que atraia não só o bombardum para si mesmo, mas também exauria toda a mana daquele que o lançasse.

Assim fora, que Arketon, desfaleceu, livrando em ato heroico, o herói que o inspirava. Salvando-os e desarmando os bruxos - pelo menos por algum tempo - de sua ferramenta de combate, dotando de possiblidade uma rechaça bem-sucedida.

O inimigo, mais cedo do que planejara, pelo receio que num lapso sentira, deu ordem para soltarem os Sah’nat tanuk (isto é, da língua maldita, as bestas-montanhas), sendo esses, os Iets, Gigantes e Trolls subjugados pelo domínio diabólico. Os golpes de tais bestas, recordavam o contra-balanço dos trabucos, e cada desferida fustigava violenta contusão, de modo que quando o solo recebia o impacto de suas tentativas cegas, tremulavam a terra e atordoavam os sentidos de todo ser. Muitos homens quando frente as monstruosas criaturas, eram assolados pelo assombro, e absorto de pavor, dava fuga de mente em como se devia o pleito, suspendendo o tentame de defesa, de tal maneira que nada mais podia fazer se não cerrar os olhos e entregarem-se a dolorosa morte. Assim o foi, que o inimigo logrou terreno e avançou sem significativo esforço.

Desfaleciam os ânimos dos mais corajosos e arrefecia-se a esperança do coração mais otimista entre os homens. Resistia quem pudesse fazer sem ponderar o sucesso de livrar-se, se não, pelo fim de seu fôlego. 

Nisto se encontravam quando enfim ouviu-se o portento bramido de uma distinta trompa, e seguindo o silêncio que se deu após todos se atentarem, ressoaram vigorosos uivos lupinos acompanhados com um longo piar de águia. O inimigo, enquanto tomado pela dúvida fitava inquiridor o norte, de onde ouvira o que não esperava, enfim os viram, dezenas de centenas de imensos lobos saltavam do limiar sul de Khro Nogaak, quando não desvelavam-se aos uivos vociferados de Valden Tanka, donde atacaram com ímpeto brutal os inimigos, tinham claramente por alvos as cabeças dos Sah’nat Tanuk, devorando a todos em que enterravam suas garras. Não só nisto se deteve a surpresa, visto que, do corredor nordeste, entre o limiar norte de Invoer Cvet e a falda do desfiladeiro de Khro Nogaak, miríades de homens de feição oriental montados em búfalos e touros, vinham a toda pressa, eram um exército tão numeroso quanto dos homens ocidentais, seu líder era Mulfalut.

Assim se deu, que os cronistas em seus livros das nações, dizem que os homens outrora inimigos se uniram sob a causa de sua raça, os irreconciliáveis, Taurinium e Likarium brandiram o canto de avante juntos, em prol de devoto serviço e admirável favor aos cinco reinos ocidentais, seus semelhantes.

A balança, aparentou equilibrar-se e a chacina generalizava-se, o inimigo agora emboscado se viu recuando a sudeste. E com já evidente temor relutava um combate longo. Dos arqueiros de Taurinium, liderados por Aquilia, lançavam miríades de flechas que os portentos arcos recurvos tauris entesaram; dava-se sombra a terra pela imensa nuvem que se fez enterrando nos animagos que voavam como aves, os quais, caiam do céu, como chuva de corpos, transfigurando-se em forma humana na queda. Os cadáveres caiam sobre os orcs, soterrando algumas tropas. Os homens-lobos, transfigurando-se em guerreiros, ao lado dos homens-touros (assim se denominava os habitantes de Taurinium) protagonizavam a mais alta expressa de povo bárbaro, esses, eram tão semelhantes em portes, que aparentavam provir de único exército do norte, flanco que angariam com um impacto esmagador. Os homens ocidentais, revigorados pelo auxílio inesperado, retomavam a toda prova. Num ímpeto inefável insurgiam como bravia onda, a esperança do oeste reacendera.

Os bruxos que pairavam, tomados de assombro, reagiram possessos de ódio. Abriram os braços de modo que as pontas de seus dedos se tocaram, emendando como elos uma longa corrente de contato. E cerrando os olhos, recitaram algumas fórmulas sussurradas, e então, um campo de força irrompeu de seus corpos e repeliu a impacto, todos os homens que avançavam. Um veemente vento, que destes proveio, arrastou os homens para uma longa distância; de modo que pôde, disto se valer para convalescer seu maligno exército, o qual, as pressas, se puseram em aparelhar-se, e recobrando postura, fitava aguardando as ordens para o próximo assalto. Os homens atordoados sem razão do sentido de terem sido afastados, sem aperceber recuo do oponente, fitava-os de igual maneira com inquiridor olhar.

Os bruxos então, empunhando os cajados que flanavam a suas frentes, o ergueram e novamente outro campo de força irrompeu-se, mais potente, porém, desta vez, sem efeito de pronto, mas em breve tempo, tornou-se aparente o intento. O medo passou a estampar o semblante dos homens, pois viram o que nunca imaginariam o ver. As hediondas armas e a indumentária do nefasto exército começaram a se transubstanciar a semelhança de metal sólido, tornando-se uma horda de criaturas vis cingidas com lâminas e armaduras de prata luzidia. As que haviam sido lascadas ou partidas, agora restituíam-se a um novo material de aspecto rijo e indefesso.

As malignas criaturas sorriam maliciosos, quando os bruxos desceram a fronte do exército, e abrindo os olhos tomados de negrura abismal, estenderam sus cajados, apontando-os para o exército dos homens. Os Dovaritas, as pressas, correram a linha de frente sob o intuito de defenderam a equivalência de mesma força, porém, foi vã o tentame, pois, antes que pudesse aparelhar-se frente a face do inimigo, caíram por terra se debatendo como vítimas de asfixia. Os bruxos, riram jocosos, e então irromperam num brado ressonante e uníssono: “Púr hetrum at’ojnak!” dito isso, por detrás de si, elevou-se uma onda de fogo tão alta como os céus e tão extensa como a terra, qual moveu-se em direção dos homens que enebriados pelo estupor da má expectativa, não se demoveram já cientes de sua sina, a morte.

Leonadair, Malak, Farkas e Lydia, lado a lado, se entre olharam num teor de adeus, mas antes que os primeiros homens aparelhados fossem engolidos pelas chamas, o véu de fogo se desfez, e neles tocaram somente um pó seco, e sem efeito.

Todos se fitaram, sem entender e sem se demover. Os bruxos, absortos, estampando dúvidas e vergonha, olharam a derredor inquirindo a causa do refugo, até que enfim, o viram, subindo do sul, e descende de um alto monte a limiar norte de Vuds Pivnak, solitário, e passando entre os homens que resistiam naquele flanco, vindo lento e serenamente postando-se entre as frentes dos homens e dos inimigos, era Akrivel, com sua longa capa e capuz, cajado a mão e O Livro, Sacro Oráculo, qual pendia a cintura.

Os exércitos outrora emudecidos, agora murmuravam e dava vulto a seus temores. Os bruxos, mais impelidos pelo desespero que pelo ódio, apontaram seus cajados contra Akrivel, porém, antes que o fizesse se desfizeram como fina areia agitada pelo sopro que corre sobre as dunas. Aqueles inúmeros e tão poderosos bruxos Lichs, já não mais existiam, pois não resistiram a face de Akrivel.

A imensa horda, demonstrava-se evidentemente aterrada de pavor, e ponderavam a fuga pelas costas, mas antes que o fizesse, Akrivel tocou por três vezes o cajado ao solo, e o solo por sua vez, respondeu a sua ordem, e como outrora, cedeu, abrindo-se a precipício as costas dos inimigos, que se encontravam por ilhados, entre o abismo e a espada dos homens.

Neste instante, Akrivel os fitou com serenidade, e Leonadair, tomando por ensejo a pausa, brandiu Akimirus e bradou: “Eis que esta perante ti lâmina da morte, um banquete posto pelo anfitrião dessas terras, regala-te!” e dito isso, Arag fora a toda pressa contra o inimigo, e seguindo de ambos, Malak, Lydia e Farkas lideraram a montaria as legiões dos homens, que tão somente pelo aspecto de fomento pelo logro e sedentos de vitória, apetecia nos inimigos o dom da morte, no que, muitos, que não foram traídos pela coordenação motora, se jogavam nos precipícios, preferindo a morte pela queda doque pela fúria dos homens.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

~ Esta obra se encontra em desenvolvimento, assim sendo, é de prezada valia a opinião dos leitores. Colheremos todas as críticas, desde que tais sejam construtivas, no intuito de proporcionar melhor experiência de leitura. ~

Voltar ao Topo da Página