Arketon abriu os olhos, estava deitado com o rosto em relva rasteira. Folhas caiam serenas ao seu derredor conforme o silvo farfalhava as copas altas do denso arvoredo. Era dia, o sol ainda não havia vencido o ar frio incubado nas folhagens. O jovem mago, levantou-se, estava só. E nunca outrora uma companhia havia feito tanto falta. A solidão em um nada desconhecido o desafiava a encarar a incerteza que pairava sobre ele. Já esteve em muitos lugares antes só, porém, não ali. Naquele lugar, sentia-se uma atmosfera preenchida paradoxalmente de abandono, mas sobretudo, de vigilância.
Pôs movimento aos seus pés, e de passos curtos e certos, fora até seu cajado, que não estava deitado ao chão, nem em algum grau tombado. Mas em pé, como uma aprumada estaca fixada sobre o solo. A garoa passou a cair quando Arketon chegou a uma pequena clareira de solo rochoso, observou-a como uma peça única de rocha nivelada, como um piso frio de magma milenar. A dimensão da clareira, calculava-se de limiar a extremidade, quinze passos largos. Na banda sul da mesma, em sua limítrofe, havia um monólito de três côvados de altura, aproximadamente e runas foram cunhadas em toda extensão de sua face. Algo que também foi observado no solo. Donde havia inscrições num tipo de Trákon primordial.
Um tronco largo estava deitado sob a sombra do limiar meridional, na frente da face sul daquele monólito enigmático de rocha calcária. Isto é, em uma face contrária da perspectiva que a visão de Arketon projetava. O druida, notou uma presença, de modo que teve de dar alguns passos para o lado, a fim de poder ver quem estava assentado sobre aquele rústico assento provido pela árvore tombada.
Assustou-se, mas sem deixar de alegrar-se. A figura ali presente com ele, era velho, com barba alva, ombros largos, manto azul de bordas douradas e capa marrom atada por broches em bronze. Estava de capuz, cajado de pomo leonino encostado em uma árvore bem próxima., um livro de cinta pendido a cintura. Sua mão esquerda segurava um pires, que faziam conjunto com uma xicara segurada pela alça com sua mão direita. Era porcelana de cor creme, com friso dourado.
Arketon, gaitou de gargalhada tombando a cabeça para trás apalmando com as mãos seu ventre, como se a contivesse para não explodir. Dizendo conforme entendia possível: "Santo Akrivel! É minha vó de barba! Por uma fração de tempo, cuidei ser minha vovozinha que há tanto desejava conhecer."
Akrivel não riu. Mas assentiu com a cabeça por mais que desejasse ignorar de toda a jocosa observação. E disse: "É meu chá para aliviar a dor das costas. Como havia te dito. Servido?"
"Grato... Ah sim, é verdade! Dor nas costas? Comum a idade, tens quantas primaveras? Cinquenta?" - indagou despretensiosamente enquanto assentava ao lado do velho.
"Fazem quatrocentas e cinquenta primaveras, que fiz cinquenta. Se queres saber!" - disse sombriamente o arcano mago.
"Santíssimo..." - reagiu impressionado Arketon, com rosto de quem procura respostas.
Akrivel, bebericou até a ultima gota do chá, pôs a xicara sobre o pires a seu lado. E disse fitando o monólito: "Um altar-portal nerianor, um artificio admirável. Cinco desses foram alçados e conjurados pela raça antiga. Pelo menos, dos que há nos registros. Hitsá, Al-Tsákintak, Fetesvu Pesuh e..." - continuou, porém, tornando-se agora absorto, dando indícios de que estava sendo assaltado por pensamentos inquisitivos - "Amur de Mubatur."
"Se como afirmas, esse é o monolito nerianor de que lemos, então quer dizer que estamos de fato no coração de Vuds Lykainen. Sabe o ponto exatamente?" - indagou curioso Arketon.
"Sim, entre Nitszi e Hamá. Estamos na mesma distância para o liek do norte como o estamos para o do sul." - respondeu Akrivel enquanto fitava uma runa azul vibrante, que emitia luz oscilante e misteriosa na face diante seu rosto.
"Espere um momento..." - disse Arketon pensativo - "Se você não tomou das águas encantadas antes de mim, e da ultima vez que o vi, se rumava para Hitsá, aparecendo porém aqui primeiro que eu. Logo..." - parou estático, fitando com espanto Akrivel. E continuou como dizendo para consigo: "Vokun do vokun, do Vahrun do vokun tol los meyz wah vokun bo kozin. Fod los, Kozin do Kogaan!"
"Exato" - disse Akrivel, que voltando a olhar a runa recitou: "Do poder mais poderoso, do Altar de poder há de tornar para os poderosos um Portal. Isto é, Porta de Portentos!"
Arketon estremeceu, Akrivel retomou: "Sim, eu costumo transladar por entre elas."
O jovem Skeilag, desviou olhar para o solo, e fez mais uma pergunta, não mais no tom descontraído de outrora, mas reverente e solenemente: "O que lhe fez vir, Akrivel? Quais anseios o orientam a esta causa? Agora compreendendo sua dimensão, sei que nada lhe influi por arte alguma de persuasão. Pois nada mais eu poderia proferir, se não o que já por muito te é conhecido. Essa pergunta que lhe faço, tão somente advém de um druida interessado em perscrutar os dilemas que assolam as vastas mentes!"
"Não depende, eu creio, de nosso alvedrio. Seja sob qualquer impulso em nome de qualquer causa. Não depende de quem intenta ou de quem presta-se ao tentame, mas da volição divina, plena, que move o espaço eterno e o tempo amovível. Que rege o cosmo sem labor. É esse dilema, mesmo que aparentemente ilógico, não o é contraditório. É nisto que se impõe a questão por desafio. Nisto me apliquei a desvelar, e disto distingui duas leis, quase como sombras indistintas. Tais leis são apenas perceptíveis sob a luz do Sacro'Oráculo" - disse Akrivel, enquanto tomava o livro que estava em sua cintura, fitando sua capa, e continuando o que dizia - "As leis se indagam... qual a vontade do Uno? A fim de quê está ciência? Para que a sigamos? ou não seria deveras, para que melhor possamos compreender nossa orientação?" - Arketon coçou a cabeça, mas esforçou-se na atenção. Akrivel continuava - "A primeira maneira, é deixar a deriva, não resistir o inevitável, entregar-se ao Senhor dos ventos e dos mares, pois é sabido o santo aforisma que diz: 'a sorte é lançada no regaço, mas a disposição é de Uno-Téssera' - isso causou grande impressão em Arketon, pois era lei não dizer de todo o nome do Uno. Mas Akrivel continuou. - "de modo que assim há de ser uma maneira passiva de ser guiado por aquele que determina o que cabe cada um realizar. Nesta, há de se ter porém, um sentido aguçado, para ao menos, em certa medida, possa-se prever onde as ondas haverá de levá-lo, distinguir seus sentimentos, do afã inculcado por uma obediência tão despretensiosa, que alguns tomam tal afã de caráter intuitivo (mas sem ser a intuição) por 'vontade própria', porém, é sabido entre os sábios, que essa vontade própria, propriamente dita, não só é distinta quanto é concorrente ao afã inculcado, pois tal vontade, é como rebento seco, de terra infértil, ela é a manifestação sórdida velada, por pretextos elaborados que visam justificar a macula de um coração doente, comum a todos nós."
Neste momento, Arketon estava em pé, e punha-se a andar em círculos, de lado para o outro, com as mãos unidas para trás, quanto não, com braços cruzados cuja mão de um dos braços fiava sua longa barba, sob um olhar além do mundo visível, em um horizonte ditado por Akrivel, que continuava:
"Desta feita, adentramos a segunda lei, o esquadrinhar de nossa motivação, sob esta há duas tendências submetidas. A primeira fomentada pela sede de glória que em nós tornou-se inata após a mácula, essa, é nutrida pela vanglória e ufania, devemos distingui-la, e fugir desta, pois no será muito melhor do que ela oferece ilusoriamente, a segunda tendência, é o chamado premente, latente em nosso amago, pulsante no recôndito de um ser sensível, e cônscio da necessidade de respondê-la."
E Akrivel então, se levantando, deu voz em tom conclusivo: "E então, retornamos a este evento que sucedeu, uma vez, que penso ter nisto testemunhado o chamado que me tornou cônscio da resposta. Enquanto transladava por entre as portais, ouvi apenas esta vez algo além do ordinário, que me lançou questões ao coração e abalou meu espirito. Quando no limbo, fora do tempo e do pensamento, eu me encontrava, ouvi do leste lamurias e gritos de assombro. Pude discernir palavras de tumulto como 'é um embuste; estamos em perigo; que o Uno nos salve; elas não são confiáveis'. Examinando-as então, isto creio, que tudo o que foi dito próximo ao monólito de Amur, pois este é o único que se encontra extremo leste, pôde adentrar sob ecos na dimensão em que eu transladara, de modo que ressoou nas câmaras atemporais que interligam esses portais."
"Pois então atenha-se ao sinal como orientação divina, e ouça a necessidade que há de ti, Akrivel. E para tua conclusão direi o que se passa. A aliança real convocou todos os reinos sob o mesmo lábaro, a fim de erradicar todos da cidadela bruxa de Mubatur. Neste dia e horário, decerto que hão de estar a pleito contra o inimigo. E se agora o for como ouço de ti, estão deveras, em apuros. Se os sete exércitos dos homens ocidentais nãos os consumiram, deverás que algo maior que exército haverá de auxiliá-los. E eu não tenho mais noticias, mas você tem, e o Uno aponta teu caminho. Eles precisam de tua força, mestre!"
"Mas... e o sodalício?" - disse Akrivel, empertigando-se.
"Eu confio no Uno! Se formos sensíveis a sua voz poderemos ser passivos a sua vontade! Como nos ensinastes... siga o caminha que ele lhe propôs, lance-se a deriva de seu sopro. E se não nos vermos mais, o será a distância por hora, até que este mundo pelo qual lutamos, simplesmente passe!" - disse Arketon, com voz embargando-se.
Akrivel assentiu com a cabeça, e estendeu, decidido a mão direita sobre a runa de lumiar vibrante. E dizendo: "Adeus!", desapareceu.
E Arketon, fitando as runas alumiarem destacando-se palavras notou: "Bo fin Gol stinov sil Draal do Fin" e disse traduzindo, lenta e de forma solene: "Sobre a rocha caminharão os mensageiros do Uno."
Ali, Arketon ficou fitando a pedra, não se sabe por quanto tempo. A ansiedade lhe pulsava o peito, e as dúvidas de qual caminho seguir o aprisionava a inércia. Meditava, e rogava um sinal ao Uno. Mas nada se ouvia ou via, e seu coração estava perturbado.
Assim se encontrava, circundado a clareira de solo rochoso, sob fina garoa quando avistou desde o leste, dezenas de aves negras rumando a sudoeste. Elas passaram sobre ele, e crocitaram agitadas, deram-se ao retorno, e embicaram na direção da clareira onde o jovem druida skeilag se encontrava só.
Em lapso de instantes, uma tuba de bruxos e bruxas estavam ao redor de Arketon, eram tenebrosos e seus semblantes eram de pouca amizade, postaram-se ameaçadores.
"Passe este cajado para mim, rapaz! E dou minha palavra que sua morte será rápida!" - disse um dos que pelo imponente aspecto, pareceu-lhe o principal.
Arketon sorriu dizendo: "Krosis sil!" (que é "alma vil" em Trákon) e isto disse tão sombriamente, que tão somente a aura que lhe cercou, fez com que alguns dessem um passo para trás, então continuou: "A ousada prepotência, revela uma ingênua ignorância."
Os bruxos enfureceram-se, parecia um exército em agitação, pois estavam em toda a borda da clareira até uma boa margem sob a copa do denso arvoredo. Deviam somar, segundo a estimativa de Arketon, cem e cinquenta encapuzados. Todos então, em um só pensamento, deram curso a um movimento com as mãos, porém, pararam estáticos, e atônitos ao ver Arketon, por reação, erguer o cajado para alto que coincidiu com um trovão irromper dos céus. Todos esperavam, curiosos, Arketon chocou subitamente a extremidade inferior do cajado no solo molhado e rochoso. Os bruxos assustaram-se e de pronto conjuraram habilmente um sinal de defesa, mas não foi necessário finalizá-lo, pois nada acontecera. Isso causou graça em muitos, os quais passaram a zombar e rir do druida.
Arketon porém, elevou a mão esquerda livre a nível do rosto. Ela estava aberta, e pareceu-lhe perceber que pequenos raios corriam de dedo para um dedo, como se estive magnetizado. Arketon sorriu com um canto dos lábios, e fechou as mãos cerrando o punho em riste. E então, como nunca outrora se viu sob o céu. Uma centena e mais de bruxos receberam uma descarga elétrica tal, que conforme convuncionaram-se em massa naquele solo, via-se raios saltando sobre eles, como redes de tarrafas ou teias azuis florescente, disformes e letais. Os corpos, incineravam-se.
Arketon abriu a mão, a nuvem negra de aves em outrora, jaziam agora ali, como um monturo de cadáveres carbonizados em terra. Ouviu-se relâmpagos e trovões. A chuva intensificava-se em toda terra.



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