Arken - Capítulo XIII

   Adentrando a escura cabana, Akrivel se deparou com um ambiente de aspecto milenar, havia inscrições com caracteres incomuns, e em toda madeira havia entalhes de hábil artificie, porém, aquela beleza era velada pelos espessos mantos de poeira, os quais, alvejava toda superfície do ambiente, teias imensas, foram tecidas como véu gris, emendando todos os móveis; por todo canto via-se estantes abarrotadas de livros, códices feridos pelo uso, mas não pelo tempo, pergaminhos e rolos aos múltiplos; tudo era admiravelmente peculiar e instigante, mas algo despertava anseio, tudo estava sobremaneira bem disposto e assustadoramente preservado, como se de alguma forma, o tempo não exercesse ato algum sobre aquilo, além de tão somente enterrá-lo sob pó e entregá-los as aranhas.

     Enquanto posto a entrada, Akrivel decorria fito ao derredor, até que algo lhe reteve atenção, havia um cajado, da altura de um homem, seu corpo lustroso esculpido em cilindro perfeito de aparente madeiro rubro de aroeira, com extremidades ornadas em ouro, das quais, a superior, ostentava, discreto, mas presente, o busto de uma majestosa figura felídea, como um leão que tinha a boca uma distinta gema opala; por destaque ao feitio e fomentado pela curiosidade, Akrivel se aproximou do cajado e notou, enquanto achegava-se que uma força pulsante crescia dentro de si, intentou perscrutar suas entranhas com a mente, mas não julgou risco nem timbre de medo, antes, certeza, de maneira que não se detendo se viu a tocar o objeto. E no lapso momento do primeiro contato, o toque fora a última coisa que percebera antes se encontrar em um mundo distante, viu-se numa alta e alva montanha, pelo panorama que enchia os olhos, era o sacro planalto de Al-vukihika, o maior dos picos de Corlignum. 

     Ali, ouviu-se uma potente e arcana voz como a voz de muitas águas, singela e bravia ao mesmo instante:

“Sakriven Imastun! Akrivel!”

    Akrivel, alçando o olhar, procurando afoito a fonte das palavras, respondeu temeroso: “Quem és Senhor?”

A voz respondeu, com tom penetrante:

   “Sou Arken e Tetelestá, o tri-Uno! Pai dos vivos, Intercessor dos vivificados e Consolador dos viventes, pois diante de mim, morte não há! Sou Rodon, Aletéia e Dzoen, pois diante de mim, engano, mentira e destruição não subsistirá! Sou o que sou, e igual a mim não há, pois tudo em mim foi, é e será!”

Akrivel, em lágrimas, tirava as sandálias e cedeu ao solo, pôs sua testa ao chão, e respondeu em tremor:

   “Afasta-se de mim, Oh Portento, pequei contra ti! Perdoai-me oh Santo Uno, Fonte de Vida, o princípio e fim! Senhor dos mundos, reais e irreais; regente dos corações sinceros e Juiz de todos os caminhos, teu fraco e errante servo ouve a sentença, faça segundo sua vontade!”

Após um breve silêncio ecoado sob o cicio de um forte vento, ouviu-se:

    “Filho, eu sou único juiz e não tu! Não temas, porque o condenaria? Se eu o absolvi? Porque faria imundo quem purifiquei? Antes, corri meus olhos sobre a terra buscando um homem segundo meu coração, e em tu me atentei, foste servo bom e fiel; do que a ti dispensei, não enterraste, antes lograste em favor de meu propósito, em ti sabedoria semeei, e saber tu futricaste, pela graça em graça ponho-me a alentar-te, diga-me o que tu queres e a ti concederei.”

    Akrivel em soluços, garimpando forças para dizer, enfim rogou: “Oh Senhor! Pela fé que me tens dotado é que alcanço essa graça, rogo-te se me permites, que jamais se afaste de mim!”

De pronto, a voz respondeu, mansa e deleitosa:

    “E não me afastarei, onde colocares os teus pés, colocarei os meus, onde tocares com tuas mãos eu tocarei com as minhas; diante tua face irei, não temas o que sucederá a ti, pois será para fins de elevar-te! Como respondeste bem, outro bem te darei para que vivas em paz e sem temor, há um cajado diante ti e o Santo Livro que tu portas, tome-os, por eles obrarás; quando olhares o Sacro Oráculo, lembrarás de minha promessa a tua alma, e quando olhares o cajado, lembrarás de minha promessa a tua vida. E tua fé presente manará forças a ti. Juntos e sob minha concessão, as leis que sustentam esta terra serão subjugadas e serás meu instrumento regente dos pilares elementares de Corlignum, grandes feitos poderá executar através de ambos, contanto que obre de acordo com minha vontade, não faças nada mais além do que seu juízo permita, e não deixe de fazer quando julgares correto a isto recorrer.”

    Akrivel, intentando prever o propósito da outorga e promulgação, inqueriu: “Sou deveras grato pela dadiva oh Senhor, mas para qual fim usarei tamanho poder? Não há mal para combater se não do meu próprio coração, e ademais sou avançado em idade para ser herói, e nem ao menos lugar entre os outros eu tenho! Rogo-te, não tome por afronta o que digo, tenho pouca ciência dos propósitos, como sabes!”

 Ouviu-se a resposta:

     “É dado início aos tempos difíceis sobre esta terra, o princípio das dores começa, porém não é o fim, o inimigo haverá de estender seu cruel domínio, e isso permitirei para que encha a taça de minha indignação até transbordá-la a cólera de minha ira sobre suas cabeças, a fim de puni-los segundo justa sentença que obraram em seus maus caminhos; e então, quando despontar o limiar da consumação, será necessário para ti tal poder, porém, não lhe permito se valer disto em trivialidades, usarás somente para socorrer os que não tiverem esperanças, e livrar aqueles que demonstrarem virtude e valor; não tome o cajado por foice, nunca ceife o que plantei e reguei, antes somente sob uma única concessão, se intentarem contra ti, algo que os meus não o farão, e a isto te encarrego, finde as obras malignas que resistirem a ordenação de seu fim e encerre os que já foram encerrados, isto entenderás quando chegares a hora, eis que estendo os seus dias e amplio a profundidade de sua mente, vá! Dou a ti a solidão por esposa e o conhecimento por filho. Contigo e em ti, estarei presente como sempre estive! E saiba, não te chamo para ser herói pois herói é somente aquele que te redimiu, não te faço melhor que os outros, pois foi pela tua pequenez de espirito humilde, que o escolhi dotá-lo.”

     E então, como quem se desperta das profundezas do sono, Akrivel viu-se frente onde estava, com cajado a mão, até que ouviu a mesma potente voz, agora, como sussurro: “Toque o cajado na grama que deita diante a cabana”, assim foi, hesitante e tocou como ordenado, de repente, árvores frutíferas irromperam a brotar da terra e em lapsos de segundos, um pomar feraz havia se tornado presente ao derredor da clareira, além das flores que desabrocharam no mesmo instante, tingirem todo limiar do arvoredo com vividas cores. Após posto à prova os sentidos; Akrivel fora instigado a durante longo tempo, pôr-se ao anseio tomado de zelo pelo que se encontrava na graça de desfrutar. 

    Transbordado de alegria e ânimo, o velho começou um intenso asseio na cabana, tal empreita demonstrou-se tão laboriosa que ficou sob este tentame durante sete dias e sete noites. E após o fim, Akrivel, ajeitou os livros que havia trazido consigo ao lado daqueles que já lá estavam – eu, que tive a graça de ver sua cabana, digo, que havia algo naqueles livros, como uma espécie de poder além do que se pode descrever, não magia, mas... como se naquelas estantes, havia algo que aspirava fome e sede de saber e conhecer, e de maneira tão sobre-excelente que de algum modo tão somente apreciá-las dotava a mente de ciência.

    Ali, Akrivel, no recôndito, ponderava inquirições em sua memória, no afã de perceber aspectos velados a vista comum, daquela tão singular experiência. 

      E todo tempo que tinha por hodierno depreendia a buscar desvelar o sentido das letras; muitos dos livros, eram obras de copistas arcanos das raças Élficas, Nerianors e Manthorns, destes, o velho erudito além de aprender suas línguas como conteúdo, extraia o conteúdo de suas línguas, e versava-se num conhecimento tão antigo quanto o tempo e tão vasto quanto a terra. Ali, o oculto sábio lapidava seu poderoso espirito, dotando a mente com a ciência de vários mundos e eras, tornando-se despenseiro de um saber tão profundo, que beirava o limiar do divino.

   O tempo, para Akrivel, não se apresentava mais como aquele que passa, tudo consumindo e encerrando, mas sim como aquele que preserva, como se fosse estático, sem mudança ou sombra de variação.

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