Leonadair, exaurido desfalecia sem deixar de estampar um aliviado sorriso no rosto, enquanto Akrivel lhe estendia um odre de couro velho com fitas brancas (que possuíam inscritas letras de um idioma antigo de cores douradas ainda vividas) dizendo-lhe: - “Tome filho! Esta é a dadiva de Liek Shnel, nutriz da terra que nos suporta.”
Leonadair, lançando voz a dúvida que lhe ecoava gritou a Akrivel: - “Oh quão agraciados fomos! Por este bendito favor, diga-me, como fizeste? Pense! Com tamanho poderio, lutaríamos sem percas, lograríamos vitória sem sacrifício e o inimigo seria erradicado sem demora!” - E sem tosquenejar, de súbito, tomou o odre, em breve mesura das mãos do velho e tragou de todo, recobrando vigor no mesmo instante que se deleitava do refrigério.
Akrivel sorriu admirando a nobre cortesia mesmo em condições tão severas e lhe respondeu:
“O que diz? Propões que eu lute convosco? Pensai que o que vistes ocorrera sob minha ordem? Não! Não filho... pouco me importa a causa dos homens, o livramento que gozastes não fora feito por mim a ti, mas pelo Uno a vós através de mim!”
Leonadair indagou surpreso: - “Como pode ser isso?”
Akrivel, assentando em uma rocha disposta próxima, retomou: - “O Uno julgou vossa causa, e nunca deixou de agir por causas secundarias, de maneira tal, que além de impeli-lo a esta empreita, o capacitou até a medida que tu podes suportar sem pôr-te em risco de ceder a seu próprio coração” - Leonadair estava fito, porém, encontrava-se tão perdido em saltos lógicos que seu semblante evidenciou sua dificuldade, mas Akrivel, mesmo após perceber, continuou: - “Entenda o que digo, quando fostes tentado até o limiar da medida que pudesse suportar, o Uno, que o impeliu, e o capacitou, é o mesmo que agora o preservou através de seu ato providencial, estendendo a mão a ti, socorrendo-te, não por mim, entenda! O Uno não precisa dos homens, mesmo que deles prefira se valer, porém, quando esses lhe resistem, ou faltam-lhe a força que se espera, aí sim! O Uno age em causa primária, isto é, quando o comum e ordinário lhe falta, o especial e extraordinário é manifesto, como diz o Sacro Oráculo: quando os homens se calam, as pedras clamam; quando o homem se faz surdo, a jumenta torna-se inteligível; de modo que a fraqueza dos homens não frustra seu propósito, dado sua soberania, como também, a mesma fraqueza, não ofusca sua misericórdia, dado seu zelo.”
Leonadair replicou interrogativo: “Quanto mais tu falas, mais considero-te a própria expressão da loucura; quanto mais te ouço, menos tenho-me por apto a perscrutar tais caminhos; o que quero saber é se tu queres lutar conosco?!”
“O que precisa saber – interrompeu Akrivel – além de tudo o que lhe informei, é que não precisas de mim, os homens não necessitam que eu lute por eles, o Uno não se vale apenas de mim, mas de todos que possuem fé em seu nome, pois como viste, o que ocorreste é tão somente a criação obedecendo ao criador, tão somente isto! Deste modo, o que posso lhe oferecer é meu conselho, dê tudo de si em prol do bem, e quando de si algo faltares, saiba, que o Uno decerto suprirá.”
Leonadair, meneou a cabeça reflexivo e inqueriu: “Não entendo, eu vi a terra responder ao toque de seu cajado, e nunca outrora vi algo de tão magnificência, como podes dizer, que qualquer um que tenha fé pode operar tais coisas? É claramente evidente que o Uno age por ti como em nenhum outro! Pois se tão somente a fé fosse o requisito suficiente para eficiência, não haveria extraordinário para se admirar, quantos, inflados de fé não a nutrem em prol do bem comum, mas não podem obrar tal poder? Ora, se fosse deveras tão simples como diz ser, o mal já estaria aniquilado! E se o Uno de fato tem subjugado a seu domínio a plenitude de todas as coisas, e se ainda julgou o pleito de nossa causa e zela por todo sumo bem como ensinas, porque ainda o mal é presente? E se o combate, por que o faz homeopaticamente e de maneira aparentemente não plena?”
Akrivel, surpreso pelo sábio arquétipo da dúvida, sorriu fitando desconfiado do odre que dera, julgando quase a concluir, se o fruto do Liek, dotava algo a mente além do vigor ao corpo. E o respondeu, a maneira dos mestres, com zelo a resposta:
“Por justiça, e por juízo, nobre servo; se o Uno fosse aniquilar o mal, neste momento, e de todo... não haveria nesta raça alguém que restasse; pois o mal é mal por ignorância, e tal, tornou-se inerente a natureza humana, quando o principal em astúcia buscou a ciência que mácula, fadando sua posteridade a desconhecer o bem plenamente; e quando o bem não é pleno, o mal tem sua raiz, e a isto, terra de solo feraz é o coração humano! Selados ao extravio, corruptas todas as faculdades da mente! veja em ti mesmo, enxergue-se, podes examinar sem se julgar-te além da medida justa? Digo-te que entre depreciar-se ou ufanar-se vaga nosso errante cetro, podes ansiar a justiça sem ser assaltado pela vingança? Podes optar pela misericórdia sem ceder a omissão de juízo? Tome por nutriz a devoção, e em breve se encontrara na idolatria, após tomar o amor como sumo bem, cogite o risco de perdê-lo... então verá em ti, a erupção de um ódio tão maligno quanto o presente nos infernos! Entre a deficiência e os vícios, vaga a virtude tão inalcançável pelo homem; ora, diante tal condição, como julgas tu que o inimigo é somente aquele que veste um brasão que não é o seu? Injusto juízo fizeste do Justo Juiz, pois tu, sendo imperfeito, conheces somente em parte, e não todo das coisas, disto diz o Sacro Oráculo: como o vaso dirá ao oleiro, o que me fizeste? Mas em toda sorte, anime-se, pois após o fim, o que é incompleto deixará de existir, pois enfim o que é em parte será consumado, e a boa notícia, é que o fim vem para todos, e com ele o juízo segundo a justiça.
Leonadair, reclinando a cabeça e fitando o céu com deprimido semblante, disse vagamente:
“Sobre o Uno, longe de mim querer questiona-lo, não fora minha intenção pedir-lhe razão, mas antes, sanar o que me aflige”
Akrivel, fitou a víride grama e o sol que alçava sobre o horizonte montanhoso, dizendo como em pensamentos: “Não temas, bom para ti questionar, pois afasta-nos de uma convicção cega, e nos aproxima de uma fé consciente através do anseio pela verdade que, ao meu ver, nos indignamos de ser nos oculta, e saiba, o Uno desvela aos seus.”
“Akrivel, o que então me instrui? – Retomou Leonadair em tom altivo, tomado de dúvidas – Devo cruzar os braços? Cegar-me ao ócio no afã de um fim iminente?”
Akrivel, redirecionando o olhar aos olhos do nobre, respondeu como se recitasse algo:
“Não é porque a vida é vaidade que deves viver em vão, faça o que nasceste para fazer, e tome como um diadema em sua cabeça, este conselho: nada deve lhe inspirar mais zelo a luta, e a sede de justiça que o clamor dos órfãos, das viúvas, dos pobres, e atente-se, a mais grave das impiedades é a omissão de socorro a esses pequeninos.”
Leonadair, enrijecendo semblante, replicou severamente: “Ora, falas para esquivar-te e em tuas palavras te condenas! Pois dizendo isto, increpa contra ti mesmo, não és tu que nega seu auxilio a aqueles que necessitam?”
Akrivel, se levantando, respondeu-o abatido:
“Não sou fonte deste ensino, mas tão somente, um vaso, o ensino que ouvistes de mim não é meu, pois se por mim fostes ensinado, saiba que ouvirias mais que esta hipocrisia que percebes; a necessidade deste momento requiriu estas palavras, pois quando faltam os instruídos entre os homens sinceros, o Uno usa os falhos que se instruem. Adeus nobre, passar bem!”
E o velho, dando as costas ignorando-o, partiu caminhando lentamente rumo ao sul, mas antes que desaparecesse sob a sombra do arvoredo, Leonadair replicou indignado:
“Ensurdecerá ao clamor dos aflitos? Pois bem! Enterra-te a ti mesmo de junto a seu orgulho, seu desprezo pelo rogo dos que choram, seja contra ti!”
Leonadair, após se ver só, cerrou os olhos e serviu os sentidos ao hálito da brisa e a cantarola dos pássaros, que ressoavam belos aspirando alento e consolo; ali, o nobre cavaleiro, esforçou-se no pleito contra o próprio corpo que tornava pesado pela exaustão. Dando-se por vencido, assobiou uma métrica, e Arag desvelou por detrás das folhagens, e postou-se frente a seu montador. Da memória que Leonadair recordou, aquele fora a última daquele dia, pois após sua montaria, desfaleceu sobre Arag que habilmente levou-o até a alva cidadela de Liontarium.



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