Prophetheia - Capítulo IV

Em Al-Kumahá, frente a falda norte de Al-Vukihiká, sob a sombra leste de Skogur Kliringo, os homens orientais, a fim de se convalescerem da travessia do deserto escaldante, se estabeleceram por hora no pavilhão alçado outrora, para este mesmo propósito.

Aqueles que ali se dispuseram, pela ocasião da batalha iminente, tratava-se traficantes que organizavam contrabandos de Anatolium até Mubatur. Eram uma considerável esquadrão que respondia a uma facção pró-bruxaria na cidadela oriental, e como tal, odiavam Tarilanis, e mais ainda os homens ocidentais. Dentre o catálogo de presentes - como se referiam - a ser encomendado pelos bruxos, estavam cinquenta infratores Tarilanis (cujo único crime era o de não assentir com a tirania do monarca oriental, Tauz), bestas-feras, como alguns leões, muitos tigres, onças e um raro dente-de-sabre que Daerowh notou estar prenhe, além de também contarem com a chegada de barris de pólvoras, de enxofre, e alguns artifícios de deflagração em massa desenvolvido por mestres de balística.

Disto, logo a dupla que espionavam deitados sobre um monte escarpado de rochas no sopé da cordilheira, consideraram: "O inimigo está se preparando para uma batalha, decerto contra os homens ocidentais pela movimentação que também observamos da parte deles. As substâncias e os artifícios são a fim de serem potencializados por arte mágicas, enquanto as feras e os Tarilanis, estão sendo levados vivos, provavelmente para serem submetidos a tortura até a morte, para que após isso possam ser necromanciados como receptáculos de ódio e por fim, domados."

A lua cheia despontava no horizonte, projetando sua luz prateada sobre a vasta planície que se estendia até os pés de uma montanha imponente. Ali, como uma cicatriz na terra, viram que além do pavilhão, havia uma liça improvisada, era como um curral, porém, com cercas mais altas, mas ainda sim, com um celeiro em uma das quatro bandas. Do celeiro para a liça, havia grade de jaula de extremidade a extremidade, e dentro do celeiro, como um átrio lúgubre e fétido, semelhante a baia de porcos, foram colocados os Tarilanis e as feras acorrentadas. Aquele seria, muito provavelmente, seu último dia de descanso, pois na manhã seguinte seriam contrabandeados para terras distantes, a morte era uma certeza, mas como haveriam de recebê-la é que causava inquietação.

Os contrabandistas eram guiados por um bruxo, de aspecto como os demais, hediondo e sombrio, que refletia sua fria vileza. Para deleite dos traficantes, este ímpio, fitando os cárceres, decidiu usá-los como entretenimento naquela noite. Ele ordenou que seus guardas preparassem a liça e os que ele denominou "gladiadores", preparando um espetáculo para si e para seus capangas. O cheiro da expectativa pairava no ar, a agitação e a euforia crescia desde então.

Nyah, com sua alma indomável, observava a liça à distância, ao lado de seu mentor, Daeron, que estava ao seu lado observando cada passo daqueles homens. Vulfrico, seu fiel cavalo, pastava tranquilamente, aguardando a ação. Eles sabiam que precisavam libertar aquelas criaturas antes que fosse tarde demais.

Daeron, sempre estrategista, sugeriu um plano ousado: "Note que enfileiraram as carroças ao lado do cárcere baia-de-liça. Pondere tanto o curso das carroças quanto as portas do cativeiro que estão defronte ao penhasco para Skogur. E o penhasco possui uma árvore enraizado em sua face carrancuda. As cordas de sisal e couro, que utilizaram para o alçamento das tendas extras estão em fácil acesso. Tudo está a disposição, bastaria para nós, tempo pela distração... e eu já sei, como disto me valer! Ofereço-me para o gládio - disse ele com um brilho em seus olhos - enquanto distraio o bruxo e sua corja, você e Vulfrico armam o arrebate da portas do cativeiro, a fim de por em liberdade os cativos."

No momento em que teciam o plano para o resgate, apareceu por detrás deles, um espectro sombrio, eram uma criatura esguia, com capuz, do qual via-se irrompido um par de cornos em espirais, que recordavam a de um bode. Apenas parte do rosto recebia projeção da luz lunar, e dela viu-se um rosto extremamente velho, e tão enrugado  que deformava a feição de modo tal, que impossibilitava interpretar qualquer semblante.

Ambos estremeceram, mas Daeronw sussurrou para consigo: "Bergmonchs!"

A criatura, apoiada em um cajado, o fitou, e assentiu com um movimento de cabeça e inquiriu em um tom misterioso:

"Tudo o que sob o teto do anfitrião se diz, por ele é conhecido... sinto em vós hesitação, porém não desprovida de ousadia! Curiosas criaturas, digam-me pelo o que digo: O que vosso intento aponta de vós para mim? Vós se rebelam contra as autoridades constituídas?  Ou são de ordinária corrupção?"

Daerown e Nyah se entreolharam, Daerown correspondo o olhar da criatura com sabedoria: "Que o que devemos fazer, o fazemos por necessidade. Quanto a hesitação acompanhada da ousadia, cremos que se dá pelo temor da derrota ser menor que o temor de não lutar."

Nyah, interrompendo-o disse de súbito: "Os maus anseiam nossas cabeças, e a puseram a prêmio, e nós pomos em risco nossa liberdade para dá-las a aqueles que dela são privados! Que isto seja nosso testemunho para seu juízo!"

O espectro a fitou, e se esvaneceu.

Nyah hesitou por um breve momento. E então voltaram-se para a execução do planejado, e consideravam seus riscos, mas não havia alternativa. Eles precisavam agir naquela mesma noite.

Os três se aproximaram do pavilhão, misturando-se às sombras que cresciam à medida que a noite caía. Daeron, com passos firmes, foi até o bruxo, que regia tudo do alto de uma palanque improvisado. Daerown, lançando uma bolsa de couro - que ao impacto das mãos que a receberem deu um sonoro tilintar, que abriu largos sorrisos a todos que ouviram -  oferecendo-os uma quantia irrecusável de ouro para participar das lutas, fingindo ser meramente um aventureiro em busca de glória. O bruxo, desconfiado, mas desejoso pelo brilho do ouro e pelo espetáculo que isso lhe renderia aos seus homens, assentiu,  rindo jocosamente.

Ao admirar a Nyah, disse em tom forçosamente cortês: "E a bela, há de ser minha convidada de honra" - disse o bruxo, apontando imperativo para Nyah. - "Ela deve assistir ao espetáculo ao meu lado." – e isto disse não somente procurando deleitar-se a frente dos homens, para auferir maior autoridade, mas também, porque era sagaz, e zelava a segurança de seu empreendimento.

Nyah velando a pulsante solicitude, assentiu, cônscia enfim, que o plano havia começado.

Não passado muitas horas antes da atrocidade começar, ela seguiu o bruxo até o assento de honra, mas, logo que Daeron adentrou a liça, ela aproveitou o estupor da distração que acometeu a todos os espectadores, desvencilhou as chaves da cintura do bruxo furtivamente, e como vulto na sombras, veloz pois projetava a iminente suspeita em instantes, deslizou pelas sombras até as laterais do cárcere.

O pavilhão, como observara, detinha a retaguarda das baias da liça orientadas para a beira de um penhasco, pelo qual também abrigava suas masmorras embaixo da arena principal. Lá, os homens-fera  e as feras aguardavam o destino sombrio. Nyah, com movimentos ágeis, prendeu uma corda aos portões de ferro das celas. Com a outra ponta, ela a atou à carroça de pólvora que havia encontrado nos arredores. Vulfrico, sempre leal, foi amarrado à carroça. Nyah sussurrou-lhe um comando firme, e o cavalo começou a puxar a carga em direção à beira do penhasco.

Enquanto Daeron ganhava tempo contra um lince de uma disposição letal, o bruxo, que olhou para o lado a fim de desdenhar de Daeron para a donzela, finalmente percebeu a ausência de Nyah, confirmando a suspeita de embuste qual inferia, de pronto, ascendeu seu ódio, e ordenou que os guardas a procurassem e arrancassem sua cabeça, espalharam-se, e um destacamento a encontraram conduzindo Vulfrico em direção ao penhasco. Sem hesitar, Nyah sacou suas machadinhas e as lançou sobre eles, tendo as lâminas enterradas nos peitos certeira e simultaneamente, enfrentou a seguinte dupla de soldados com uma habilidade mortal. Seus golpes eram rápidos e precisos, e em poucos momentos expirou quatro e deixou desacordado um dos homens. Aquele seria seu mais grave erro, pois o mesmo sairia correndo para alertar os demais.

Quando percebeu que Vulfrico estava escorregando perigosamente na beira do penhasco, e que o seu companheiro poderia desaparecer na escuridão do abismo, ela agiu rápido. Sabendo que não havia tempo para libertá-lo com cuidado, lançou uma de suas adagas em direção ao animal, Vulfrico arregalou os olhos, mas o gume da lâmina atingiu o cabresto que atava ao jugo, a corda que prendia o cavalo à carroça partiu-se. Um pequeno arranhão se fez ao peito, que mais tarde, o cavalo, nunca deixaria pender algo a frente da cicatriz, a fim de ostentar como insigne distintivo de sua coragem e boa sorte.

Com um estrondo ensurdecedor, a carroça caiu sobre uma árvore antiga que crescia no penhasco, e o peso da pólvora fez a árvore se dobrar e, a corda que a ela estava presa, auxiliou os pesos somados da árvore e da carroça, possibilitando o arrastamento em lapso de instantes, duas carroças de provisões e por fim, sob um som estridente, o portão das celas, que fora arrancado de suas dobradiças, libertando os prisioneiros que saíram sedentos por vingança e ódio.

Dentro do pavilhão, o caos se instaurou. Os cinquenta homens-fera, e os vintes animais, que estavam presos avançaram com fúria sobre os guardas, lutando pela liberdade. Nyah, montada em Vulfrico, se posicionou à frente de seus inimigos. Um exército de trezentos soldados corriam em sua direção, mas antes que pudessem atingi-la, os homens-fera se lançaram sobre eles e de gritos humanos sob batalha, ouviu-se transmutar para rugidos e uivos. A batalha era feroz, mas a liberdade estava próxima.

No caos da luta, o bruxo percebeu que a guerra estava perdida. Em um ato de desespero, ele lançou um feitiço contra Daeron gravemente que o lesou a mente por algum instante, e com suas artes hipnótica, atou o homem-fera com correntes enfeitiaçadas. Carregando o mentor de Nyah, ele começou a subir a montanha, desaparecendo nas sombras com Daeron inconsciente.

Nyah, coberta de sangue e pó, assistia ao fim da batalha com um peso em seu peito. As criaturas que havia libertado se curvavam diante dela, gratos por sua coragem. Leões, onças e lobos, todos aclamavam sua vitória com rugidos e gritos. Mas a mente de Nyah estava em Daeron, em a falha em protegê-lo, desafiou-a com o senso de culpa.

Um dos Tarilanis, que parecia o mais velho, aproximou-se dela e Nyah disse com olhar de dever cumprido: "Leve-os a um lugar seguro e se mantenham em segurança"

"Agora estamos libertos e em dividas com a senhorita" - respondeu ele. - "Porém que você fará, sem ele?" – questionou impertinente, mas sincero. É claro que ele se referia ao grande Daeron que era a lenda entre os Tarilanis.

Nyah olhou para as montanhas, onde o bruxo havia desaparecido com Daeron.

"Minha missão agora é encontrar quem nunca me abandonou." – suspirou fundo e continuou – "sei que ele não precisa de mim, mas foi minha culpa, ele se arriscou por algo bem maior, e devo isso a ele, afinal ele me ensinou que assim deve ser feito."

Vulfrico relinchou baixinho, concordando com a decisão de sua dona. Com um último olhar para as feras libertas, Nyah se lançou em direção às montanhas, consciente dos perigos que a aguardavam, mas determinada a resgatar Daeron — "custe o que custar." - pensava consigo.

A lua cheia brilhava intensamente no céu, tingindo o cenário com um brilho prateado que delineava cada detalhe das montanhas ao redor. Nyah galopava velozmente, seus cabelos vermelhos esvoaçando ao vento, contrastando com o pêlo negro de Vulfrico que parecia se fundir com as sombras. A cada passo firme do cavalo, o som dos cascos ecoava nas encostas da montanha, mesclado com o sussurro dos riachos prateados que desciam pelas rochas sinuosas.

A água cintilante refletia o luar como um espelho quebrado, dançando em movimentos suaves, mas algo naquela noite parecia diferente. Enquanto Nyah subia a montanha, uma sensação estranha lhe causou arrepios. Sentia como se algo invisível, uma presença antiga, a estivesse observando. Não era uma sensação de ameaça, mas de vigilância. Ela sabia, de alguma forma, que as montanhas estavam protegidas por um espírito, por uma entidade, por um Bergmonch, que a inicio da noite, havia se mostrado a eles.

"Proteja-me e que a boa causa evoque a força das montanhas", Nyah murmurou para si mesma, enquanto seus olhos percorriam o horizonte, em busca de qualquer sinal do bruxo e de Daeron. O vento carregava uma canção distante, como um sussurro entre as árvores e as pedras, mas ela não conseguia identificar sua origem.

Mais à frente, o bruxo arrastava Daeron, enfraquecido e atado em grilhões inquebráveis. O homem-fera respirava com dificuldade, cada passo um esforço para manter-se consciente. Eles chegaram a uma caverna oculta entre duas grandes rochas. O bruxo, ansioso para eliminar seu prisioneiro de uma vez por todas, preparava um golpe final com sua adaga negra, ele pretendia arrancar-lhe o coração e os olhos, para vender ao mercado negro.

Antes que o vil pudesse golpear Daeron, o ar na caverna ficou pesado, carregado de uma presença antiga. A escuridão pareceu se condensar em uma figura, o espírito protetor da montanha. Ele se personificou diante do bruxo, uma figura translúcida de luz prateada, seus olhos brilhando com sabedoria ancestral.

"A que razão o afã de matar aquele que já foi traído e caçado?" - a voz do espírito ecoou como um trovão suave, e o ar na caverna vibrava com a força das palavras. - "Sob qual o intento? O que lhe guia a mão do algoz para consumar um tentame tão atroz?"

O bruxo, irado, e com o rosto retorcido de frustração, respondeu rispidamente, sem qualquer respeito pela venerável presença: "Esta aberração é uma ameaça. Ele interfere em meus planos! O destino dele é a morte, assim como todos os que cruzarem meu caminho! Seja lá qual demônio for!"

A resposta trouxe um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som de pedras começando a se mover. O espírito, em um último olhar penetrante, desapareceu da vista do bruxo. Logo em seguida, um rugido de pedras se desprendeu do teto da caverna, caindo sobre o então desgraçado em um deslizamento devastador. Quando a poeira finalmente assentou, o corpo do bruxo estava sepultado,  soterrado, esmagado pelas rochas, sua vida tirada pelas próprias montanhas que ele subestimara.

Daeron, porém, estava apenas desacordado, ferido mas vivo. O espírito, vendo nele mais do que apenas uma fera, se aproximou. Reconhecia a lenda que Daeron representava entre os homens-fera — um líder forte e justo, cuja coragem inspirava muitos. Movido por compaixão, o espírito invocou a magia antiga que ressoava na montanha. Uma música suave começou a emanar do vento e das pedras, uma melodia que havia sido usada para adormecer povos inteiros em tempos passados. Agora, ela era usada para curar.

As notas da canção vibravam no ar, uma harmonia que envolvia o corpo de Daeron. Suas feridas começaram a fechar lentamente, enquanto o espírito cantava para ele, sua voz imortal impregnando o corpo ferido com vida e força renovadas.

Do lado de fora, Nyah chegou à entrada da caverna. Ela desmontou de Vulfrico, deixando o cavalo beber de um riacho cristalino próximo, que advinha de uma manancial de Al-Vukihiká, antes de seguir a pé. Ao entrar, a luz da lua iluminava o interior da caverna, revelando uma cena que a fez parar imediatamente. O corpo do bruxo estava coberto de pedras, inerte. Daeron jazia no chão, mas algo estranho acontecia. A música que flutuava no ar parecia vir de lugar nenhum, e ao mesmo tempo, de todos os lugares.

Nyah, instintivamente, puxou sua machadinha, pronta para defender seu mentor, temendo que uma força desconhecida estivesse prestes a atacá-los. Mas algo a deteve. Seus olhos se fixaram na cena diante dela, e uma calma estranha tomou conta de seu coração. A melodia envolvente parecia sussurrar para ela, como se dissesse que não havia perigo ali, apenas cura.

Ela abaixou sua arma lentamente, ainda perplexa, e se aproximou de Daeron. O espírito permanecia invisível, mas Nyah sabia que ele estava ali, de alguma forma ajudando. As montanhas, as mesmas que haviam testemunhado tantos conflitos, agora cantavam para salvar aquele que salvara a muitos.

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