Arken - Capítulo VII (Discussão de Akrivel e Kahi)

    Excerto de uma discussão registrada de Akrivel e Kahi, quando estes ainda eram mancebos e aspiravam a ciência que se destinavam:

    Sob a colossal abobada do transepto central da Univerdade ArkinKahi disse entre seus colegas: “Creio, que de alguma maneira, é possível, ou melhor, como não trata-se de uma graça passiva, mas sim desvelada pela mente sagaz, digo, pode-se distinguir duas dimensões na natureza, e porque há uma limítrofe entre elas, e como é sabido o princípio fundamental de toda limítrofe, deveras que pode-se transpô-la.”

    “E o que se infere deste seu apotegma?”  Inquiriu o curioso, agora absorto, o jovem Lufus.

    “Infiro que mesmo nós sendo fadados a um curso perecível.”  Respondeu sonhador Kahi  “Isto é, causas peremptórias que tornam a realidade finita, não o é da mesma natureza seu efeito, pois a memória da mesma é perene. Isto é, há uma porta, uma fresta, cujo facho já consigo perscrutar, é possível, sim, pode-se de fato, pois deveras nos é concedido uma vez que vislumbramos o que está adiante a possibilidade de exercer, em alguma condição é claro, sob algum preço, decerto, que ainda não compreendi, mas sei, sobre a apropriação da eternidade.”

    “Tudo exercido com excelência é indelével.”  Disse sombrio Akrivel  “O que não se vê é eterno, mas o que se vê perece, pois está encerrado aos sentidos e como o mesmo, atado a matéria que fenece ou padece, dependendo de sua natureza.”

    “Eis aí então, por que não? Por que não rendermos a outra matéria? Para adentrar o estado imutável do sobrenatural, basta seguir o curso contrário ao curso natural que a tudo definha.”  Considerou orgulhosamente Kahi.

    O jovem Akrivel, de longo cavanhaque e semblante austero, mas ainda sob o tom lívido, evidente e frequente naqueles que se rendem frequentemente aos assaltos da reflexão. Respondeu em tom indignado, mas ainda cordial:

    “Falácia, vã cogitação. Talvez não por pretensão de sua parte, imagino, mas por carecer de uma lógica mais apurada. Iludiu-se diante a fantasia de uma suposta possibilidade.”

    “Pois então, me ensine oh futuro mestre dos mestres! não desfira golpes sem fundamentação!”  Respondeu Kahi, já irritando-se. 

    “Sim, Akrivel, aponte-nos a linha lógica de sua objeção.”  Disse Lufus, sincero e cortês como sempre o foi.

    Todos do pátio calaram-se após o ouvirem o tom desafiador de Kahi e o requerimento de Lufus, e de pouco a pouco, conforme o tempo discorria e os burburinhos espalhavam-se, aproximavam do bosque daquele átrio em que encontravam-se os três.

    Akrivel continuou deitado, com a cabeça apoiada no degrau que circundava a o círculo gramado, fitando a copa da árvore principal:

    “O que é eterno, ou eternidade não pode meramente ser objeto de apropriação, pois não se pode conter o que não se delimita, amparo a isto temos o exemplo do tempo, que compreendida sua soberania no panteão da realidade excelsa  quanto ao termo ‘panteão’ permita-me deste me valer para a didática ilustrativa. Pois bem, quanto ao membro deste panteão, o tempo, qual mesmo de natureza essencialmente infinda, ainda assim, não vê-se com poder para subjugar aquele que o excede, outro membro, maior que este, o atempo. O qual fará as criaturas submetidas pela eternidade a submeterem-se ao tempo outrora submetido, não que espera essas responderem ativamente a sua ordenação, antes as gradua hierarquicamente conforme enfileira a ordem de sua existência, que é passiva ao seu decurso. Nesta linha lógica, segue-se precursão até enfim vislumbrarmos, que só pode demover alguma coisa, algo que é imóvel, e só poderia ter-se por imóvel algo que preenche tudo, logo, o que é em si a plenitude de todas as coisas, gerando o espaço. A primeira coisa só poderia ser criada, por algo que é um principio em si mesmo, algo que nunca foi engendrado, o espaço e o que está além dele, o tempo e o atempo encerra-se a necessidade de passar a existir, pois outro houve antes deles, para eles ordenar. Ora, se há razão e mente pensante, é porque houve mente pensante e razão, meios instrumentais os quais ordena-se todas as coisas. Logo compreendemos que a eternidade é própria do Uno, pela sua mente pensante e razão. O Demiurgo, dito pelos pais. O Santo, dito pelos filhos. Isto é, se deste é própria a eternidade, cabe somente ele conceder extraordinariamente a alguém. Lembrando que as criaturas não são menos passivas que toda a criação. E poder-se-ia ainda estender que tendo nós sua imagem e semelhança, e sendo tudo o que lhe é próprio impossível de ser submetido ao tempo, de nós permanecerá somente o que da essência dele se pode encontrar. É por isso que os antigos Pais, nos promete que haveremos de ter atributos que lhe é próprio, e que seremos participantes da natureza divina, pois após o fim do tempo, restará somente o antes nele sempre existiu.”

    Kahi, sentado e com os cotovelos sobre as coxas, dedilhava seus dedos da mão direita na têmpora de sua cabeça enquanto fitava a olhar perdido o solo, meneou a cabeça em reprovação, e considerou após breve silêncio: 

    “Já temos aprendido a importância e necessidade da religião para o debate acadêmico, mas esse Akrivel, desmodera-se ao fanatismo, pois não pode discorrer nada sem incorrer a uso vão do nome sagrado.”

    Akrivel, replicou, desconfortável, mas sem sentir-se muito ofendido a ponto de erguer o tom de voz:

    “Vã seria a vida não considerá-lo em todos os caminhos, inclusive os caminhos que a mente empreende. Quando o ‘Sacro Oráculo’ admoesta contra o uso em vão de seu Santo Nome, refere-se a aqueles que o tomando por Pai não vive como se espera de um filho, mas antes, torna vão o uso de seu nome ao ter a aparência de piedade, mas sob a negação de sua eficácia. E ainda, exorto-te como amigo, no que se refere ao decorrido, se fosse tido por mais hábil na arte do pensar, e mais experimentado na arte do saber, teria por certo o inevitável, pois tudo que se discorre em assuntos superiores há por compito o nome daquele que em todas as coisas investiu de finalidade. Pois toda a criação tem por propósito, latente, mas inerentemente irrevogável um fim, e este é, de glorificar o nome do Uno, reconhecendo-o em sua obra, mesmo que isso venha concorrer a sua opinião Kahi.”

    Kahi, levantando-se não pouco furioso e fitou Akrivel com ódio evidente, Lufus, porém, atentou com admiração Akrivel e disse: “Tens poder nas palavras, mesmo que a paixão sob a qual exprima lhe confere uma sombra de loucura!”

    Akrivel, levantando-se respondeu: “Minha loucura é o preço que a busca incessante pela verdade requer. E admoesto-o, que há em teus olhos uma admiração que não sensato possuir, pois nisto vejo, que tens tu um espírito que vaga errante no afã de ser acolhido pelo o que o encanta. Não tome por verdade algo pela beleza de sua expressão, pois a polidez de discurso pode ser ardil, elaborada a tentame de velar o erro, sob intento de tornar cativo corações como o seu.”

    “Não.”  Respondeu Lufus assombrado  “Não inclino-me a creditar-te pelo louvor de sua expressão.”

    Akrivel replicou: “Para a compreensão de fato daquilo que abordei, o que se prestou a ouvir há de ser curtido na mente, fermentado pelos dias, para que enfim possa ter sua verdade saboreada. E digo ainda, que a verdade é semelhante a uma semente, a qual se for recebida de pronto como sendo uma árvore frutífera já formada, tão somente a será como ilusão daquele que não entende o que é semente, nem árvore e nem fruto.”

    Lufus, sorriu e assentiu com a cabeça e respondeu: “E é como deve ser. Entendo o que dizes, e assinto ao método receptivo do conhecimento, da mesma maneira que compreendo que a verdade quando bem ministrada é de pronto reconhecida por aqueles que há muito dispõe seu coração para recebê-la.”

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